quinta-feira, 14 de setembro de 2017


Só os eruditos lêem livros antigos, e nós já demos tal jeito neles que, de todos os homens, eles são os menos capazes de adquirir sabedoria ao ler os tais livros. Conseguimos isso ao inculcar neles o Ponto de Vista Histórico. O Ponto de Vista Histórico, grosso modo, significa que sempre que um homem culto deparar com qualquer afirmação de um autor antigo, ele jamais irá se perguntar se a afirmação é verdadeira. Ele se pergunta quem influenciou o autor, o quanto essa afirmação contradiz o que ele disse em outros livros, que fase ela representa na evolução desse autor ou na história geral do pensamento, como ela afetou os autores posteriores, com que freqüência ela é mal compreendida (especialmente pelos próprios colegas do leitor erudito), qual é a crítica geral feita a essa afirmação nos últimos dez anos e qual é a "atual conjuntura do problemà'. Enfim, considerar esse autor antigo como uma possível fonte de sabedoria - antever que o que ele disse poderia talvez modificar os próprios pensamentos e o comportamento do leitor - é rejeitado como um ato puramente ingênuo. E já que não conseguimos enganar toda a raça humana o tempo todo, é de grande importância para nós separar cada geração de todas as outras, pois sempre que o aprendizado permite a livre troca entre as gerações, há o perigo de que os erros característicos de uma sejam corrigidos pelos acertos característicos da outra. Mas, graças ao Nosso Pai e ao Ponto de Vista Histórico, os grandes eruditos se baseiam tão pouco no passado quanto o mecânico mais ignorante, daquele tipo capaz de afirmar que "a história é uma besteirà'. Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO.

C. S. Lewis, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.

Teologia e Física Moderna





CUIDADO COM OS BURACOS–NEGROS


A Ciência e a Teologia mantêm um relacionamento delicado desde a época de Galileu e Copérnico. Em alguns aspectos, o cristianismo não conseguiu recuperar–se por completo da revolução cosmológica que retirou a humanidade do centro do Universo e a confinou a uma posição insignificante.

Talvez seja em decorrência desta postura de resistência aos avanços científicos, mas poucos pensadores cristãos da atualidade parecem beneficiar–se com o notável desenvolvimento da física moderna. A sua maneira, Einstein e Bohr empreenderam uma revolução tão espetacular quanto a de Copérnico, embora em direções novas, chocantes para muitos.

Para começar, não apenas a humanidade, mas cada indivíduo, homem ou mulher, recuperou, através da física moderna, sua posição de figura central na história do Universo. Porque, se extrairmos apenas um ensinamento da física moderna, será este: o indivíduo consciente é um componente essencial de, bem... de tudo.

Na física de Newton, os indivíduos não ocupam lugar especial no Universo, exceto como participantes ocasionais no fenômeno estabelecido de causa e efeito. Mas alguns cientistas do século XX defendem que a própria realidade da ocorrência de um evento depende da existência de um observador. 

Como disse Bernard D’Espagnat na revista Scientific American: 

A doutrina que afirma ser o mundo formado por objetos cuja existência independe da consciência humana acaba por entrar em conflito com a mecânica quântica e com os fatos verificados por experiências.

Em outras palavras: ele questiona até mesmo a existência das coisas fora da consciência humana. Apesar das opiniões contrárias, o indivíduo importa muito, e o observador desempenha papel essencial. Os físicos com a alma um pouco mais poética repetem ditados como: "Corte uma folha de grama e você abalará o Universo." O leigo rapidamente perde a confiança no Reino Encantado da relatividade e da física quântica.

Alguém nos ensina que nossa poltrona favorita é formada por grandes espaços vazios preenchidos por alguns átomos que giram a toda velocidade. Ainda assim, nós a vemos como objeto sólido e assentamo–nos nela. Aprendemos que o tempo varia, dependendo da força da gravidade e do movimento, e que um astronauta que parra para o espaço poderá retornar à Terra trinta e seis anos mais novo do que seu irmão gêmeo que aqui permaneceu.Apesar disto, continuamos a olhar para o relógio de pulso, confiando em que ele nos informará a hora certa de entrar no serviço.

Parece melhor deixar de lado este mundo estonteante da física moderna, com suas equações tão longas que vão de uma ponta a outra do quadro–negro e com seus termos amedrontadores como antimatéria, espuma quântica e buraco–negro. Com algumas poucas exceções, na maioria dos casos é melhor depender do bom e velho Newton.

Mas os cristãos não devem voltar as costas à física moderna com tanta facilidade, porque muitos de seus princípios sobre a natureza do tempo e do espaço foram provados por cientistas empreendedores que lançaram raios–laser até à lua, fotografaram estrelas durante eclipses do sol e fizeram com que relógios atômicos viajassem em torno do globo terrestre levados por aviões a jato.

Além disto, as descobertas notáveis que as pessoas comentam com espanto infantil apresentam novos caminhos para a compreensão de algumas doutrinas teológicas mais complicadas. Pensemos em uma destas doutrinas: Deus não está preso ao tempo. Os cristãos vêm repetindo, há muitos e muitos anos que "Aos olhos de Deus mil anos são como um dia", expressando sua convicção de que a visão de Deus sobre tempo é diferente da nossa.

Dizemos que Ele está além do tempo e do espaço. Para nós, a história humana é uma seqüência de quadros fixos, apresentados um após o outro, como em um filme. Mas Deus vê o filme inteiro de uma só vez.

Embora os cristãos repitam esta crença e quase todos os teólogos, desde Agostinho, hajam–se ocupado dela, ninguém consegue entender por completo.Aparece a física moderna. Hoje nos ensinam que o tempo depende do movimento e da posição relativa do observador. Tomemos um exemplo bem primitivo. Olhando para o céu, às 15h 12min, vejo uma estrela brilhante, o sol, que paira no espaço a uma distância de aproximadamente 150 milhões de quilômetros.

Na verdade, a luz que vejo partiu da estrela há 500 segundos, e viajou à velocidade de 300 000km/s, embora eu não me dê conta de estar enxergando o resultado do que aconteceu no astro às 15h 4min (horário da Terra).Se o Sol subitamente desaparecesse em face de um ataque furtivo de um buraco–negro voraz, eu só saberia oito minutos depois, quando o céu ficaria escuro e eu gritaria: O Sol foi embora! – e me prepararia para a extinção da vida na Terra.Imagine agora uma pessoa muito grande, quero dizer, muito grande, cuja abertura entre os pés medisse, digamos, 150 milhões de quilômetros. Esta pessoa põe o pé esquerdo na Terra e o direito, com um sapato de amianto, no sol.

Subitamente, bate o pé direito. Imediatamente, as labaredas solares espalham–se em todas as direções e o sol expele gases. Oito minutos depois eu, aqui na Terra, percebo a mudança dramática do Sol.Mas estou preso na Terra. A pessoa imensa existe parcialmente aqui e parcialmente no Sol, sua consciência abarca os dois lugares.Embora parte de seu ser esteja na Terra, tem pleno conhecimento do movimento do pé direito oito minutos antes de todas as outras pessoas na Terra.Pergunta–se, então, o que é o tempo para esta pessoa imensa. Depende da perspectiva. Faça um esforço mental ainda maior e imagine um Ser tão grande quanto o Universo, que existe ao mesmo tempo na Terra e na estrela Andrômeda, numa galáxia a bilhões de quilômetros de distância. Se uma estrela explode na galáxia, o Ser sabe no mesmo instante, e mesmo assim ainda verá o evento na Terra, milhões de anos depois, como se houvesse acontecido naquele instante. A analogia não é exata, porque tolhe este Ser no espaço, embora o liberte do tempo. Mas pode dar–nos uma idéia quanto à perspectiva limitada do conceito de tempo adotado em nosso planeta, no qual se afirma que "primeiro acontece A e depois B".

Deus, acima tanto do tempo quanto do espaço, pode ver o que acontece na Terra de um modo que só nos cabe tentar imaginar. Esta linha de pensamento joga nova luz sobre debates muito antigos sobre a onisciencia, presciência, livre–arbítrio e determinismo. Um termo como "presciência" só tem sentido quando considerado do nosso ponto de vista limitado à Terra, pois presume que o tempo é uma seqüência de fatos, um após o outro. Do ponto de vista de Deus, que engloba todo o Universo de uma só vez, o significado da palavra é consideravelmente diverso. Falando com precisão, Deus não "prevê" os acontecimentos. Ele simplesmente os vê, em um presente eterno.

A eternidade é apenas uma das muitas doutrinas esclarecidas pela física moderna. Os novos teólogos agiriam bem se estudassem a teoria dos Universos paralelos, usando–a para investigar o problema do mal. A teoria da interconexão de toda matéria e energia seria útil para abordar as palavras bíblicas sobre a união entre os que crêem. A teoria que trata de como a consciência afeta a matéria poderia trazer esclarecimentos sobre o poder da oração.

A maioria de nós precisará de cientistas qualificados que nos orientem na compreensão de todos estes mistérios. Os zen–budistas aproveitaram a oportunidade e publicaram obras sobre como suas crenças se adaptam aos modelos contemporâneos do Universo. Espero que não fiquemos atrasados demais em relação a eles. A fé religiosa, assim como a matéria, enfrenta constantemente o perigo de ser engolida por um buraco–negro.

— Philip Yancey.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O ex-covarde
Nélson Rodrigues




Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".


RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10. 
A questão da hermenêutica

A hermenêutica bíblica, isto é, a arte ou ciência de interpretar a Escritura, tem se tornado, nestas últimas décadas, uma das principais preocupações dos estudiosos. Na verdade, todo cristão que lê a Bíblia acaba de confrontando com a questão de como entendê-la corretamente.

O problema surge com as extremas particularidades culturais do texto antigo e do intérprete moderno. Cada um tem um "horizonte" diferente, uma perspectiva ou um ponto de vista limitado, e o que se faz necessário é aquilo que Hans-Georg Gadamer chamou de "fusão de horizontes". "A compreensão ocorre", escreve Dr. Tony Thiselton em seu clássico e abrangente estudo Os Dois Horizontes, "quando dois conjuntos de horizontes são colocados em relação um com o outro, a saber, o horizonte do texto e o do intérprete."

Neste processo, a primeira tarefa do intérprete foi chamada por Gadamer de "distanciamento". Isto é, nós precisamos reconhecer "a identidade do passado", desligar-nos do texto e dar espaço para a sua própria integridade histórica, sem nos intrometermos nele nem decidirmos prematuramente como ele se aplica a nós.

Uma exegese cuidadosa do texto tem que estudá-lo em seus próprios termos linguísticos e culturais. Mas isso é apenas o começo. Se antes nós precisamos manter distância do texto, num segundo momento nós temos que tentar penetrar nele. "E preciso haver um envolvimento presente com o texto", escreve Thiselton, "como também um distanciamento crítico dele". Mas, como o intérprete também pertence a um contexto preciso e específico, embora diferente do do texto, isto não é fácil. É preciso um alto nível de imaginação, de empatia, se se quiser penetrar nesse estranho mundo. "Exegese histórica é essencial, mas não é suficiente. Nós precisamos distanciamento e também abertura para o texto, e os dois irão progredindo até a fusão dos horizontes."


Isto leva a uma ativa interação ou dialética entre texto e intérprete. Por mais que nos esforcemos para nos distanciar do texto, é difícil deixar de trazer para ele nossas pressuposições e nossa própria agenda de problemas e questões. Pode ser que a Escritura proveja algumas respostas para estes. Mas, já que ela tem a sua própria agenda, pode ser que não. Pelo contrário, é provável que ela nos desafie a irmos embora e a reformularmos as nossas questões, ou até a substituí-las por outras melhores. Então nós retornamos com a nossa nova agenda, e assim o diálogo entre nós continua. Isso faz parte daquilo que se chama "o círculo hermenêutico", embora certos estudiosos europeus e latino-americanos prefiram a expressão "espiral hermenêutica", pois o movimento é progressivo e ascendente.

John Stott

quarta-feira, 5 de abril de 2017

ABISMO

Depravação depravada




"Perguntamos às vezes: “Você é salvo?”, “Sim”, “De Quê?”, “Do pecado”. Não, não meu amigo. O pecado não estava antes de ti. Quando um homem é salvo, ele é salvo de Deus, da Justiça de Deus que estava para vir sobre ti. Deus te salvou dEle mesmo, Ele se interpôs contra a Sua própria Justiça, que pairava sobre ti."
Paul Washer

Eu achei essa fala um ótimo link para demarcamos a diferença de C. S. Lewis da teologia que essa frase representa.

C. S. Lewis é um autor cristão para todos os públicos. Isto é, para todos os cristãos. Sem nenhuma espécie de barreira. Um dos motivos, além do enorme talento e criatividade, é que ele se propôs, em grande parte, a focar o "mero cristianismo" ou o Cristianismo SEM as questões de ordem secundária: sem as mil esquinas que o divide.

O ensino que o Washer reflete nessa frase é exatamente o que o Van Till diz estar ausente na teologia de C. S. Lewis. Ele diz:

"Em Lewis não vejo nenhuma percepção da minha necessidade de aceitar a expiação substitutiva". E mais: "segundo ele, não devemos nos preocupar sobre qual é a teoria correta sobre a morte de Cristo, nem como ela se deu... é interessante que em Crônicas de Nárnia vemos que realmente Lewis não se importava com o sentido bíblico da expiação, pois na história o resgate é pago ao diabo, e não a Deus".

O Van Till está correto quanto a esse dado? É discutível. Uma questão diferente: ele analisa corretamente esses dados? Aqui, creio que a resposta deva ser "não". Porque nem toda a fé cristã, genuinamente cristã, expressou sua fé nos benefícios da morte de Cristo nos termos desse calvinismo. As teorias concorreram, e conviveram. O problema é que essa expressão é a hegemônica e é monolitista (só ela quer estar certa, não aceita outras).

Nesse campo de debate, que é amplo, sublinho especialmente a ênfase do próprio Washer: no sentido PROPICIATÓRIO da morte de Cristo. Isto é, que ela apazígua a ira de Deus, cobra a conta do mal.

Embora isso possa parecer verdade, o ensino das Escrituras é "mais verdade", uma verdade maior - segundo as Escrituras, a morte de Cristo é o preço que o próprio amor de Deus quis investir. A morte de Cristo foi motivada pelo o amor de Deus. "Em Cristo", na vida, e também na morte, Deus mesmo estava amando. Em Cristo Deus nao se mostrou irado (se as Escrituras também se expressam assim, devemos buscar seu sentido). 

A MESMA história pode ser contada de uma forma mais completa, e com uma abordagem mais positiva: que penso ser o foco das Escrituras. Se há alguma tensão (Amor X Ira), independente dela, o preço da salvação é Deus quem paga, e o faz por Sua graça e amor. Deus estava assim provando Seu amor para com os pecadores.

Dito isso, até pela ênfase negativa, acredito que o Washer e toda a teologia que ele representa, está equivocada.

***
O cristianimo sustenta-se na afirmação de um paradoxo absoluto: Deus se fez homem, e sem deixar de ser Deus, continuará sendo homem. 

Antropologicamente também mantém tensões: o homem é a tragédia de sucesso da boa criação de Deus. O homem é uma mistura de pó e glória. Qualquer desmedida, o desumaniza. E se o humanismo o exalta despropocionalmente, a tentação do cristianismo é desprezá-lo. 

O homem nao pode esquecer de que é pecador, mas não pode fixar-se nesse aspecto da verdade sobre ele. 

Jonathan Edwards é famoso pelo seu sermão Pecadores  nas  mãos  de  um  Deus  irado. Conta-se que seu sermão deixou o gosto de inferno na boca dos ouvintes - pessoas em agonia agarravam-se onde podiam. Sentiam se, conduzidos pelo sermão, empendurados sobre a boca do inferno. 

Até o Packer tenta defender a finalidade evangelística desse sermão. 

Mas ali o inferno era tão ruim quanto as pessoas - era um espelho. O inferno era o que o homem é, e merece.

Aqui penso estar diante de uma desproporção. E ela é tao comum quanto o sermão de Edwards é elogiado e defendido. 

O homem-para-o-inferno é anti mensagem evangélica. 

Aqui, nesse sentido, o anti-cristo é o anti-homem. 


***
"Sem dúvida o cristianismo afirmou que todo homem é concebido e gerado em pecado, e no insuportável cristianismo superlativo de Calderón essa idéia foi mais uma vez atada e entrançada, de modo que ele ousou o mais estapafúrdio paradoxo nestes versos conhecidos: 

a maior culpa do homem 
é a de ter nascido",  

escreve Nietzsche. 

E para quem acha que esse diagnóstico é exagerado ou localizado, Agostinho é quem contesta:

"Assim, são dignos de JUSTA condenação  os que por ela  (a graça) não são libertadas ... quando pela idade não poderia ouvir (as crianças). Isso porque levam consigo o pecadom o qual contraíram pela origem", Agostinho.

Para Agostinho, mandar uma criança pagã para o céu, é desprezar o evangelho. O evangelho até mesmo para Agostinho, acolhe crianças que merecem o inferno. Calvino repetiu isso. 

Para sustentar todo o edifício do evangelho, a graça imerecida, a justiicação pela fé, os méritos da obra de Cristo - defendiam, a criança precisa merecer o inferno. 

Tudo isso, faz de Nietzsche, gostemos ou não, um profeta:

"O cristianismo esmagou e despedaçou o homem por completo, e o mergulhou como num lodaçal profundo: então, nesse sentimento de total abjeção, de repente fez brilhar o esplendor de uma misericórdia divina, de modo que o homem surpreendido, aturdido pela graça, soltou um grito de êxtase e por um momento acreditou carregar o céu dentro de si. Sobre este excesso doentio do sentimento, sobre a profunda corrupção de mente e coração que lhe é necessária, 56 agem todas as invenções  psicológicas do cristianismo: ele quer negar, despedaçar, aturdir, embriagar...". 

***
As pessoas não podiam suportar o peso das palavras do cristianismo de Edwards. Penso eu se a experiência foi tão traumática que moldou, pelo temor que impede a alegria e a paz, a vida daquelas pessoas para sempre. 

Li um texto do Nelson Rodrigues, e nao pude deixar de fazer a relação. Eis o que ele diz:

"Eu teria o que? Uns 17, 18 anos. Naquela época, conheci Osvaldinho. ... Coisa curiosa. Nao se conhecia um defeito ou virtude em Osvaldinho que o distinguisse dos demais. Nunca vi ninguém mais parecido com todo mundo. ... Osvaldinho era um homem comum até no diminutivo... um dia vou dobrando uma esquina e esbarro no Osvaldinho. 

Agarra-me e cochicha: - Seja bom, Nelson, seja bom". Instala-se em mim um sentimento de culpa. Pergunto: - "Mas como? Por que bom?" Olha para os lados e fala mais baixo: - "Só a bondade resolve." ... fiz, ali mesmo, em cima da calçada, um rápido exame de consciência. E conclui, para mim mesmo: - "Posso não ser dos melhores, mas também nao sou dos piores." E eu: - Mas escuta, Osvaldinho, o que é que houve? O que é que há?" Fez mistério, fez suspense: - "Não se esqueça, Nelson. A bondade é tudo". E partiu. 

Pela primeira vez Osvaldinho deixava de ser como todo mundo. ... A coisa foi numa progressão alarmante... O clínico da família, consultado, mandou levá-lo ao psiquiatra. Este o recebeu e começou: - "O que é que você está sentindo?" ... Osvaldinho responde: - "Doutor, eu não sou bom, o senhor não é bom, ninguém é bom."

... Durante toda a consulta, Osvaldinho repetiu: - "O senhor não é bom, doutor, o senhor não é bom". E, realmente, aquele psiquiatra famoso cometera uma açao que ainda o envergonhava e havia de envergonha-lo aé o fim de seus dias. Eis o episódio: - examinava uma louca, quando esta lhe cospe na cara. E o psiquiatra, furioso, agride a doente, a sapatadas. Ora, tal fato acontecera, por coincidência, na véspera. E o Osvaldinho com o estribilho crudelíssimo: - "O senhor nao é bom, doutor, nao é bom!" O psiquiatra já queria chorar". 

Penso até onde a culpa é uma marca que se pode curar, até onde a consciência cristã encontra paz, paz real, até onde o nosso mal não é uma fixação insalubre. 

***
Tais palavras foram escritas não para negar a ambiguidade humana. Mas para manter o homem tal qual ele é visto pelo evangelho. 

O Pascal já havia dito - “o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar”. 

Só se conhece o homem, quando ele visto a partir do evangelho. 

É nesse sentido que o Karl Barth vai dizer que "existe, por assim dizer, um conhecimento infrutífero do pecado, do mal, da morte e do demônio, que consegue tornar difícil para um ho­mem ter uma fé feliz e confidente no Pai Todo-Poderoso e Criador...".

E as palavras dele nos coloca diante da única perspectiva correta para olharmos para esse problema:

"Para olhar atentamente para dentro desse abismo, tão longe quanto for possível para nós o fazer por nós mesmos, amedrontador é este abismo! Quão amedrontador ele é que nenhum homem nunca pode compreende-lo com o profundidade de si mesmo.

Esta miséria é "precondiçào negativa desta reconciliação que tornou acessível precisa, enfática e seriamente quanto possível o abismo entre Deus e o homem que foi trans­posto por intermédio de Jesus Cristo com o reconciliador.

Jesus Cristo é o último plano a partir do qual a miséria e o desespero do homem recebem as suas luzes e não vice-versa."

A miséria e o desespero do homem... dá a luz através da qual está para ser reconhecida o que a graça é e Quem Jesus Cristo é".



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Santo gênio



Leonardo Boff é um gênio, um gênio e um santo. O que não é um pecado contradizê-lo por ser gênio, é pecado porque é santo. É um santo para quem os pobres ainda hão de rezar - e nao há uma explicação justa porque já não o fazem!

Todo homem tem uma uma obsessão, e todo santo tem, para além de outras, uma obsessão santa. Fui atrás das obsessões do santo Boff e encontrei também uma anti obsessão. Uma anti obsessão seria um desapego exagerado.

Fui ver o que o Boff estava a dizer recentemente, o que estava preenchendo sua santa mente e qual a luz divina que sua genialidade tinha a compartilhar. Me saltou essa:

"Marina Silva não aprendeu nada da história" - começa.

De pronto: a aula é de história. É sempre uma aula quando ele fala. Não uma aula qualquer, uma aula de uma mente genial. Que expectativa!

"Quer o impeachment colocando-se de novo ao lado errado. Assim não se limpa o país" - diz em seguida.

Frustração perdoável. Mas ainda ele finaliza: "Não basta rezar".

Repito - "rezar"!, eis aí uma anti obsessão. 

A análise é política, do momento atual de impeachment, mas envolve Marina Silva, uma religiosa. Daí a sacada, que só uma grande mente, obsessiva, relacionaria - "rezar". 

O Boff quando pensa na posição política de Marina, pensa na reza. Coisa de Gênio. 

Mas Boff, gênio, engana: se o leitor se prende na construção lógica, ele vai dizer que Boff não está dizendo que não se deve rezar, apenas que não "basta" rezar. E quem creditaria má fé a um santo?

Mas é a mente dele que traz a imagem, como um menosprezo - ela só reza! 

Não era o assunto, mas ele queria desqualificá-la: e para tanto, o faz falando de sua religiosidade.

O que poderia diminuir mais uma pessoa do que a sua imagem, rezando?

Marina, religiosa praticante. Que ofensa! - imagina o Boff. 

Pois religião é coisa que se quer pode ser dita em público. 

E por mais que em público, não se diga ou pratique a religião, se a pessoa é religiosa, é suspeita. O erro não é "misturar" as esferas. O erro é ser religioso, e praticante! A mente genial e indecifrável do Boff, se mostra.

Vou atrás das recentes manifestações de Marina. Vejo opiniões políticas, agendas, posicionamentos. Mas não encontro nada da grandeza da "reza" que o Boff vê. Não sou gênio, óbvio.

E mais fundamentalmente: quem acompanha a sua agenda, jamais a descreveria com uma imagem estática, passiva... para Boff - "inútil".

Sua imagem política não tem nada da imagem da reza, mas o Boff insiste. 

O grande pecado de Marina não era "apenas" rezar. Não! Era rezar... "Ela reza", e isso ofende o Boff.

Grandeza é sutileza. 

Mas o Boff está obsessivo. E toda obsessão é, por definição, repetitiva. Vou no Google, no rastreio dessa obsessão, e digito: Santo Leonardo Boff + Marina Silva.

Achei toda uma entrevista dele sobre Marina Silva. Empolgado, suspiro: mais história!

"O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa" - diz o Boff. "O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus".

Minhas anotações crescem: "papa", "autoridade"... - é preciso grifar!

A entrevista diz que os pobres perderam uma aliada. Por que? Palavras dele: "quase não fala mais nos pobres...". "Fala" - anoto. O problema é a fala. Não pode deixar de falar. 

Mas algo me chama mais atenção: "...ela, fundamentalisticamente obedece". "Fundamentalisticamente"... Veja, a primeira vista, não é tão apropriado o termo. Não é comum aí, onde ele se encontra. E, tenho minhas dúvidas, na própria exposição das ideias, não me parece tão natural. Poderia ter dito - "ela, sem questionar, obedece...". Ou ainda: "ela, apressadamente...". Mas foi "fundamentalisticamente". 

Mas o que é fundamentalismo? Boff, que já escreveu um livro sobre isso, responde. É exterminar raças, é achar que é o único certo, etc. Mas Marina não chega a tanto, alivia. E ficamos querendo saber em que parte das descrições Marina se encontra. Ele deixa em aberto, de propósito. O importante é que ela é, ponto. 

Alguém lança a questão - "Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas".

Boff não se demora: "O que Marina pratica é o fundamentalismo".

É isso aí, a consulta a Bíblia!

"Reza", e, agora, "a consulta a Bíblia", isto é, a própria prática da religião é o que incomoda Boff.

E, em outro lugar, deixa mais claro onde quer chegar - e diz algo que resume toda a entrevista: "Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado  para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente". 

A equação da sua tática não poderia ser mais clara. A intenção do desmerecimento, e para isso o uso da palavra FUNDAMENTALISTA, é político. Mesmo que Marina não seja o que ele descreve como fundamentalista, ela precisa ter essa diminuição política. 

Uma vez que chegamos aqui, preciso trazer um diagnóstico. Não cito o autor para que inicialmente, o leitor se atenha as ideias unicamente:


"O uso que ela faz dos termos para descrever situações e personagens não corresponde nunca à realidade objetiva, mas a um enfoque pré-calculado para produzir determinadas reações públicas.

Processo análogo sofre o termo "fundamentalista". Essa palavra designava os adeptos de uma interpretação literalista e legalista da Bíblia. Pouco a pouco, a classe jornalística passou a empregá-lo para rotular qualquer pessoa que seja fiel a uma religião tradicional. Isto significa que a quota de fidelidade religiosa admitida na sociedade “decente” vai se estreitando cada vez mais. É um estrangulamento progressivo, lento e calculado.

Tudo isso é manipulação cínica, voluntária e consciente. Quem molda a linguagem popular domina a alma do povo.

Um dos mais notáveis mentores intelectuais da esquerda mundial, o filósofo americano Richard Rorty, teve até o cinismo de enunciar a regra que orienta essa gente: não devemos,dizia ele,tentar convencer as pessoas expondo nossa convicção com franqueza, mas ao contrário, “inculcar nelas gradualmente os nossos modos de falar”. É o maquiavelismo lingüístico em estado puro.

João Paulo II e Bento XVI nunca estiveram efetivamente entre os conservadores. Foram transformados nisso por essa obra de engenharia verbal que, deslocando o eixo da linguagem cada vez mais para a esquerda, deforma as proporções da realidade para ludibriar a opinião pública".*

O Ratzinger também foi certeiro:

"...os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas".

Boff, gênio e santo, cabe na exata definição que Nelson Rodrigues faz de D. Helder: "só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva". Se ele ajunta as mãos - é porque alguém faz aniversário.

* O autor é Olavo de Carvalho.


Texto: Eric Brito Cunha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Calvinismo e o sentido da oferta universal





O Calvinismo e o sentido da oferta universal


O teólogo luterano Wolfhart Pannenberg, em sua Teologia Sistemática, diz o seguinte:

“Em uma compreensão “absoluta” do ato da predestinação, para a qual a eleição OU NÃO-ELEIÇÃO divina não é condicionada por nenhum fato previamente observado da parte dos envolvidos, a ABERTURA da vocação emitida na história por meio do evangelho tenha de se torna problemática: Será que então a promessa da salvação para os fiéis, EM VISTA DE TODOS A QUE SE DIRIGE a proclamação do evangelho, ainda pode ter uma intenção igualmente séria?”.

Vamos ver qual a resposta que Calvino deu, e, por ela, tirar algum posicionamento sobre o Calvinismo.


Ensino de Calvino [i]


A questão, antiga, tem formulação própria nas seguintes palavras de Calvino: “Deus seria contrário a si mesmo se a todos, universalmente, convide a si, porém admita a poucos”.

Em sua resposta, Calvino cria a distinção entre vocação exterior e interior (ou geral/universal e particular):

“...mediante a pregação exterior, são todos chamados ao arrependimento e à fé, entretanto, nem a todos é dado o espírito de arrependimento e fé”. E: “Deus destina as promessas de salvação especificamente aos eleitos”.

O que dizer quando Deus chama para si àqueles a quem sabe que não haverão de vir?” – pergunta-se Calvino. E responde citando Agostinho: Oh, profundidade!’.

Em outro momento, tem uma reação semelhante – onde também cita Agostinho:

“Deus poderia”, diz Agostinho, “converter para o bem a vontade dos maus, porque ele é onipotente. Obviamente que poderia. Então, por que não o faz? Porque não quis. Porque não quis, está nele.

Mais adiante ensaia sua própria resposta:

“...há a vocação universal, pela qual, mediante a pregação externa da Palavra, Deus convida a si a todos igualmente, ainda aqueles aos quais a propõe como aroma de morte e matéria da mais grave condenação. A outra é a vocação especial, da qual digna ordinária e somente aos fiéis, enquanto pela iluminação interior de seu Espírito faz com que a Palavra pregada se lhes assente no coração”.

Então, para Calvino, Deus estende o convite àqueles predestinados (ou, como ele se refere, “aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte”) à não aceita-lo não porque fosse falso o convite, mas para que, sendo recusado, aumentasse os motivos de sua condenação.

A lógica é tal que Calvino não deixa dúvidas de que Deus mesmo providencia de que neguem o convite e rejeitem a mensagem:

“aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte, a fim de que venham a ser instrumentos de sua ira e exemplos de sua severidade, para que atinjam a seu fim, ora os priva da faculdade de ouvir sua palavra, ora mais os cega e os endurece por meio de sua pregação”.

E, finalmente: “Certamente não se pode pôr em dúvida que o Senhor envia sua Palavra a muitos cuja cegueira quer que aumente”.

Calvino ainda diz que Crisóstomo tergiversa ao situar a distinção entre salvos e condenados no arbítrio dos homens e não unicamente no juízo de Deus.

Calvino cita passagens como Ezequiel 33-11 - “Deus o quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva” - onde admite: “Deus parece negar que, por sua ordenação, aconteça que os iníquos pereçam, a o ser até onde, contra seu querer, eles pessoalmente engendram deliberadamente para si a morte”.

O que Calvino diz é que embora pareça o contrário, os iníquos perecem por ordenação de Deus!

Ele argumenta: “Se agrada a Deus estender isto a todo o gênero humano, por que o induz ao arrependimento os muitos cujo espírito é mais flexivel à obediência que o espírito daqueles que, ante seus convites diários, mais e mais se endurecem?”.

Por tudo o que diz, a conclusão óbvia, é que não é verdade que “Deus o quer a morte do pecador”. Deus só não quer a morte daqueles pecadores que ele predestinou à vida. Fora isso: Deus quer, sim, a morte dos pecadores. Algumas traduções trazem a palavra: prazer. Para Calvino, Deus tem prazer na morte do pecador.

Qual então, o sentido desse dizer de aparência enganosa? “Não se deve dizer que por isso ele age enganosamente” – escreve. “porquanto, visto que pela voz externa tornas sem desculpas os que a ouvem”.

Uma vez que o sentido real do texto é tão diferente do que parece, a ponto de ser o contrário do que sugere, fica a questão da confiabilidade das promessas:

“Ora, pois, dirás, se é assim, mui pouca certeza oferecem as promessas do evangelho, as quais, em testificando da vontade de Deus, asseveram que ele quer aquilo que contrapõe a seu inviolável decreto”.

Mais uma vez Calvino explica que “ovo não é ovo”:
“Embora, até onde vai nossa percepção, a vontade de Deus seja múltipla, contudo, em si ele não quer isto e aquilo; ao contrário”. E diz que talvez possa nos ser concedido compreender que “Deus, de uma forma admirável, quer o que agora parece ser contrário à sua vontade”.



Fórmula de Concórdia [ii]

O Pannenberg nos faz lembrar que “A Fórmula de Concórdia condenou aqueles que afirmam que Deus não deseja seriamente a salvação de todos aqueles aos quais ressoa a proclamação do evangelho por meio da igreja”.

Nas próprias palavras da Fórmula:

“Esse Cristo chama a si todos os pecadores e lhes promete refrigério. Seriamente quer que todos os homens venham a ele e permitam se lhes ajude. A eles se oferece na Palavra e quer que a ouçam e não fechem os ouvidos ou a desprezem”.

Ela ensina que a doutrina da graciosa eleição de Deus para a vida eterna é ensinada de modo tal que é tratada “em harmonia com a razão e o impulso do abominável Satã”.

E, assim, rejeita expressamente, dentre outros, os seguintes erros decorrentes das distorções da doutrina da eleição para Vida:

1. Quando se ensina que Deus não quer que todos os homens se arrependam e creiam no evangelho.

2. Também, que Deus, quando nos chama a si, não quer, seriamente, que todos os homens venham a ele.

Pontos abertamente contrapondo-se aos ensinos de Calvino.

A Fórmula conclui chamando-os de “blasfemas e terríveis doutrinas errôneas, com as quais se tira aos cristãos todo o conforto que têm no santo evangelho”.


Advertência

“Deveríamos levar em conta as advertências de Barth”, escreve Pannenberg, “diante de ressalvas teológicas QUE FAZEM COM QUE A VONTADE DA GRAÇA DIVINA PAREÇA DUVIDOSA. A ira de Deus sobre os ímpios e a concepção do JUÍZO FINAL não devem ser imaginadas ASSIM QUE DELAS RESULTE UM MALOGRO DA VONTADE SALVADORA UNIVERSAL DE DEUS em Cristo”.





[i] Em sua abordagem da ELEIÇÃO nas Institutas, ler especialmente os textos sob os seguintes títulos:


8. duas espécies distintas de vocação: geral ou particular ou especial

10. A universalidade do convite divino à salvação o impugna o particularismo da eleição

12. Deus priva da graça salvífica os réprobos e os deixa entregues à cegueira moral e espiritual

13. Instrumentos da ira justa de deus, os réprobos se fazem ainda mais endurecidos com a pregação da palavra

15. A doutrina da reprovação o contradiz, como alegam os opositores, a ezequiel 33.11

17. Considerações em refutação de outras objeções suscitadas contra a doutrina da reprovação e conclusão final da matéria


[ii] Ler XI - DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS.