terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Sermão da Montanha



As sentenças de Jesus reunidas no Sermão do Montanha não pretendem fazer pesar sobre os discípulos um jugo legalista; nem como se dissessem: "Deves fazer tudo isso para seres feliz"; nem como se significassem: "Deves fazer tudo isso, mas vê quanto és miserável"; nem mesmo num terceiro sentido: "Reúne tuas forças, trata-se do combate final".

Estas palavras de Jesus descrevem a fé vivencial. Elas querem dizer: "Estás perdoado, és filho de Deus, pertences ao Reino. Sobre tua vida também se levantou o sol da justiça. Não te pertences mais, é da Cidade de Deus, cuja luz ilumina as trevas. Agora podes fazer mais esta experiência: da gratidão do filho de Deus remido, brota o fruto de uma vida nova".

J. Jeremias 

O Evangelho não é Lei


O sermão do monte não é lei, mas sim Evangelho. Pois, efetivamente, esta é a diferença entre lei e Evangelho: a lei deixa o homem entregue às suas próprias forças e o desafia empregá-las a máximo. o Evangelho, porém, coloca o homem diante do dom de Deus e lhe pede que faça deste dom inefável o verdadeiro fundamento de sua vida. São dois mundos diferentes. Para frisar bem a diferença, seria conveniente, na teologia do Novo Testamento, evitar as expressões "ética cristã", "moralidade ou moral cristã": este vocabulário profano é inadequado e pode dar margem a confusão. Seria melhor falar de "fé vivencial": assim claramente se exprimiria que o dom de Deus precedeu suas exigências.

J. Jeremias.

domingo, 22 de outubro de 2017

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica III


Parte II
Parceiro de Caminhada: Alister McGrath
Segundo Passeio



2 A filosofia por trás desse inerrantismo foi posta a descoberto, e questionada, pela Bíblia mesma.
2.1 Teólogos inerrantistas, com versículos nas mãos, precisam agora falar de sua filosofia: e, afinal, percebê-la.
2.1.2 A Filosofia, e todo conjunto de pressupostos, condicionam o modo de interpretar a Bíblia. Nenhuma ingenuidade nesse sentido passa mais despercebido, nem se justifica mais. Reconhecer isso é um primeiro dever.
2.1.2 Os inerrantistas de hoje tem mais possibilidades de enxergar isso.
2.2 A maior percepção da fundamentação pré teórica do pensamento é uma tendência da filosofia atual, contudo, a crítica parte incisivamente de considerações bíblicas.
2.2.1 A tradição evangélica que se amarrou ao inerrantismo, e, por ele, achou que colocou todas as tradições sob o juízo da Bíblia, precisa se explicar perante a Bíblia.
2.2.2 É preciso nos perguntar sobre pressuposições biblicas, sua possibilidade e mesmo a revisão de outras pressuposições à lua da Bíblia.
2.3 Essa tradição inerrantista mais monolítica é geralmente associada ao fundamentalismo evangélico. Há, contudo, inerrantistas não exclusivistas.
2.4 Há uma certa localização desse tipo de teologia mais racionalistas, muitos autores tem apontado os EUA como o lugar de maior profusão desse tipo de teologia. A teologia americana, como se sabe, é exportada. E tem uma influência especial na teologia brasileira. É importante conhecer os nomes dos autores associados a essa teologia racionalista. Quanto mais um jovem estudante for capaz de identificar as teologias, mais livre ele será para afirmar sua própria identidade de fé.
2.4.1 Essa importação condiciona, as vezes determina. O racionalismo teológico é geralmente exclusivista, isto é, não reconhece as alternativas como legítimas.
2.5 Embora não seja verdade que todo inerrantista é exclusivista, a luta contra o exclusivismo (que é predominante entre os inerrantistas) é uma luta de qualidade evagélica: uma luta pela liberdade, valor e importância das Escrituras.
2.6 A filosofia por trás desse racionalismo teológico reduziu distorcivamente a verdade da revelação bíblica a seu aspecto proposicional.
2.6.1 Associada ao reacionarismo, que é cego, deixaram de perceber nuances da verdade expressas por outras teologias. Por exemplo, a verdade bíblica como relação.
2.6.2 É comum para essa expressão de racionalismo, rejeitar taxativa e preconcebidamente teologias sem uma análise de mérito séria, honesta e comprometida mais com a Bíblia que consigo mesma.
2.7 As brigas pela “verdade” da Bíblia se mostram um tanto briga por si mesmos. Os pscicanalistas estão dizendo que um fundamentalista tem uma ideia de Deus muito proxíma do seu “eu”.
2.7.1 O resultado é esse tipo de defesa bíblica, aprisiona a bíblia mesma. Cercam-na do eu, da nossa interpretação. Reduz sua mensagem. E toda redução é distorciva.

Há uma percepção crescente dentro do evangelicalismo de que a posição de Princeton está em última análise dependente de suposições e normas extrabíblicas. A vista da determinação do evangelicalismo de não permitir que qualquer coisa de fora do material bíblico assuma um papel normativo ou fundamental no pensamento cristão, tem-se provado necessário questionar esse modo particular de expressar e defender a autoridade das Escrituras – mas não por em dúvida essa questão em si. Por fim, o evangelicalismo está simplesmente no processo de substituir uma abordagem a autoridade biblica (que é vista agora sendo baseada em axiomas filosóficos) com outra (baseada em considerações mais bíblicas)” (p. 99, Paixao pela verdade).
Há uma necessidade real de resgatar a Bíblia do fundamentalismo”, (Introdução ao Protestantismo, pag 54).
Nos Estados Unidos, a tendência para aderir ao racionalismo dentro dos círculos evangélicos foi acelerada durante fins do século XVIII e começo do século XIX pela ampla adoção do que se tornou conhecido como o “realismo escocês” ou filosofia “do senso comum” … O resultado é que formas do evangelicalismo estado-unidense que tem sido especialmente influenciado por racionalismo, como aquela associada com Carl Henry, tem colocado ênfase demais na noção de uma revelação bíblica puramente proposicional” (p. 90, Paixao pela verdade).
A tendência geral de tratar a Bíblia puramente como um livro-fonte de verdades puramente proposicionais pode ser argumentada de maneira a encontrar base especialmente na antiga escola de Princeton, em particular nos escritos de Charles Hodge e Benjamin B. Walfield, em que tendências das pressuposições do Iluminismo é especialmente fácil de ser notada.” (p. 146, Paixao pela verdade).
Reduzir a revelação a princípios ou conceitos é suprimir o elemento de mistério, santidade e maravilha na automanifestação de Deus” (pag 9, Paixao pela verdade).
Alguns evangélicos como Carl F. H. Henry e R. C. Sproul, são fundamentalistas em suas abordagens...” (Nota 37 p. 210, Paixao pela verdade).
Donald G. Bloesch já argumentou que um espírito fortemente racionalista pode ser discernido mesmo dentro dos escritos desses evangélicos modernos estado-unidenses, como Carl F. H. Henry, John Warwck Montgomery, Francis Shaerffer e Norman Geisler.” (p. 142, Paixao pela verdade).

Leiam o  Primeiro Passeio.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica II


Parte I
Parceiro de Caminhada: Alister McGrath

Primeiro Passeio

Cremos e discordamos: cremos e por isso podemos discordar


1. Uma coisa é a afirmação da autoridade das Escrituras. Outra é a “maneira precisa” de traduzi-la no mundo conceitual.
1.1 A fé, crê. A mente reflete, tenta entender e explicar.
1.2 Há um modo de conceituar que se tem traçado até Benjamim B. Warfield e Charles Hodge (Old Princeton). Esse modo geralmente é monolítico: aqui vamos entender como “não aceita alternativas”, se coloca como única alternativa possível. Podemos chamar essa abordagem simplesmente de inerrantista.
1.3 Hoje começamos a perceber os condicionamentos dessa abordagem inerrantista, isto é, suas raízes sociais e culturais no solo Iluminista.
1.4 Por conta dessa vinculação cultural: é possível analisar a abordagem, dando seus créditos e apontando suas deficiências. O debate, portanto, é legítimo. Digo isso porque se tem dado contornos de (homens crentes e fieis X infieis e liberais), quando na verdade o debate é entre homens que buscam a fidelidade. A identificação cultural com a verdade é sempre um risco de infidelidade.
1.5 A base dessa abordagem é racionalista.


Os evangélicos estão assim concordes em sua afirmação da autoridade das Escrituras na vida e pensamento cristãos; querem gozar de liberdade, no entanto, de maneira precisa em que essa autoridade foi articulada ou conceituada, permitindo à abordagem com Benjamim B. Warfield e Charles Hodge ser colocada ao lado de outras, contanto que a autoridade fundamental e inalienável da Escritura seja mantida” (pag 21, Paixão pela Verdade).
Se há uma crise, esta diz respeito à maneira em que essa autoridade é articulada e formalizada no nível teológico, com certas abordagens mais antigas sendo agora vistas como respostas condicionadas a evoluções culturais gerais, particularmente na época do Iluminismo. A compreensão que Benjamin B. Warfield tem da autoridade da Escritura, por exemplo, é moldada por pressões e influências da filosofia escocesa do senso comum, que se tornou de muita importância em Princeton durante o século XIX. Com o decréscimo do apelo dessa filosofia, aliado a um reconhecimento cada vez maior da inadequação de suas bases racionalistas, a abordagem diferente que Warfield deu a questao da autoridade da Escritura realmente se viu em “crise” - não por causa de nenhuma diminuição do respeito evangélico pela Escritura, mas por causa de crescentes dúvidas com respeito à maneira particular de basear e expressar essa autoridade” (p. 49, Ibiden).
Cada vez mais, os evangélicos estão expressando receios com respeito às abordagens da autoridade bíblica associadas à escola da Old Princeton, vendo o uso continuado das ideias deste educandário contribuindo para a escravidão prolongada do evangelicalismo às ideias e pontos de vistas do racionalismo Iluminista.” (p.99, Ibiden).
E Princeton era para ser o cadinho no qual as grandes teorias evangélicas de inspiração e autoridade bíblica eram forjadas. O resultado? As teorias de escritores como Charles Hodge (1797-1858) são profundamente influenciadas pelos preconceitos do Iluminismo.” (p. 142, Ibiden).
O tom fortemente racionalista dessa filosofia é particularmente evidente nas obras de Benjamin B. Warfield, mas é claramente evidente nas dos primeiros tempos de Charles Hodge.” (p. 142, Ibiden).

Leia aqui a INTRODUÇÃO.

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica



Primeiros passos



                 "Pega e lê: ouvi, cri, por isso li"


Nesse espaço, estarei me esforçando para dar pistas da minha elaboração teórica sobre a Bíblia, na minha identidade evangelical. 

Evangélico, historicamente, queria dizer: nem liberal, nem fundamentalista. Hoje parece que a equidistância originária se perdeu, especialmente por uma aproximação ao polo fundamentalista.

Como evangelical, creio na autoridade das Escrituras por causa de Jesus Cristo. Minha identidade não é com o texto, mas não o prescinde em função de seu testemunho acerca de Jesus Cristo.

"Testemunho", como pretendo trabalhar, é uma palavra adoecida justamente no contexto desse debate teológico. Mas a pronuncio com toda paz.

Como evangelical, logo cedo percebi que o ambiente intelectual do evangelicalismo brasileiro é majoritariamente anti inteclecutal. Ou é racionalista. 

"Nem liberal, nem fundamentalista", quer dizer: não formulo minha crença conforme o MODERNISMO.

Hoje podemos dizer que já estamos conscientes da infidelidade e distorção por trás do modo de expressar a crença nos termos do modernismo.

E só para clarear um pouco mais:  um "deus" do modernismo, já percebido e denunciado, é o objetivismo. O liberalismo e o fundamentalismo são "idólatras" em certo sentido. E digo isso, e assumindo isso qualifico minha fala, sabendo que "a reflexão teológica nunca ocorre em um vácuo social ou cultural", como diz o Mcgrath. Pois, se há uma luz lançada pela minha cultura é a percepção desse pertencimento cultural e social. Essa percepção já é uma "superação latente" da modernidade.

Usarei esse espaço, a princípio, trazendo minhas fontes de caminhada, para esse passeio público. Gente que nesse assunto me influenciou de modo significativo. Dos quais, cito o Mcgrath, o N. T. Wright, o George Ladd, o Bernard Ramm, Oscar Cullmann, Ratzinger, Lutero, Vanhoozer, etc.

Para aqueles que decidirem me acompanhar nessa caminhada é fundamental entender minha distinção (não digo que são completamente separáveis) da ideia de crença e sua formulação teórica, e da fé mesma. A fé é um dom, é indisponível, envolve o "ser todo". Os racionalistas inventaram um nome - para e por eles amaldicoado - "fideísmo": com o qual obscurecem a origem e natureza mística da fé. A fé é suficiente, a crença é um desenvolvimento precário. Vamos conversar melhor sobre isso. 

Para esses passos, escolhi carregar comigo três valores: honestidade, fidelidade e criatividade. A honestidade me obriga a estudar e a vencer minha própria ignorância, por ela assumida. É a honestidade também que me dá liberdade para pesquisa, para transitar nas tradições, para pensar a questão sem restrições. A honestidade é que qualifica a fidelidade. A fidelidade deve ser honesta. A fidelidade é o meu cuidado com a Tradição, com a fé comum, com um Pertencimento, e com a relação da reflexão com a Fé. Não resolvi caminhar sozinho. Exatamente por isso resolvi trazer como companhia teólogos qualificados. A fidelidade desconfia de si, e do "nós" mais próximo: nossa cultura, nossa confissão, nossos pressupostos... A criatividade não é inovadora, mas a qualidade que melhora as demais.

Tentarei limitar o tamanho dos textos para que o passeio seja agradável.

É sempre mais gratificante partilhar a fé! Preciso de um esforço maior para que a partilha da crença me dê algum tipo de satisfação. Mas é justamente acreditando em uma continuidade entre ambas, que acho animo para esse empreendimento. Essa continuidade não será a ênfase aqui: mas ela é a base de tudo. Tudo aqui é feito pela Fé.

Avante!


Ir para Parte I.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017


Só os eruditos lêem livros antigos, e nós já demos tal jeito neles que, de todos os homens, eles são os menos capazes de adquirir sabedoria ao ler os tais livros. Conseguimos isso ao inculcar neles o Ponto de Vista Histórico. O Ponto de Vista Histórico, grosso modo, significa que sempre que um homem culto deparar com qualquer afirmação de um autor antigo, ele jamais irá se perguntar se a afirmação é verdadeira. Ele se pergunta quem influenciou o autor, o quanto essa afirmação contradiz o que ele disse em outros livros, que fase ela representa na evolução desse autor ou na história geral do pensamento, como ela afetou os autores posteriores, com que freqüência ela é mal compreendida (especialmente pelos próprios colegas do leitor erudito), qual é a crítica geral feita a essa afirmação nos últimos dez anos e qual é a "atual conjuntura do problemà'. Enfim, considerar esse autor antigo como uma possível fonte de sabedoria - antever que o que ele disse poderia talvez modificar os próprios pensamentos e o comportamento do leitor - é rejeitado como um ato puramente ingênuo. E já que não conseguimos enganar toda a raça humana o tempo todo, é de grande importância para nós separar cada geração de todas as outras, pois sempre que o aprendizado permite a livre troca entre as gerações, há o perigo de que os erros característicos de uma sejam corrigidos pelos acertos característicos da outra. Mas, graças ao Nosso Pai e ao Ponto de Vista Histórico, os grandes eruditos se baseiam tão pouco no passado quanto o mecânico mais ignorante, daquele tipo capaz de afirmar que "a história é uma besteirà'. Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO.

C. S. Lewis, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.

Teologia e Física Moderna





CUIDADO COM OS BURACOS–NEGROS


A Ciência e a Teologia mantêm um relacionamento delicado desde a época de Galileu e Copérnico. Em alguns aspectos, o cristianismo não conseguiu recuperar–se por completo da revolução cosmológica que retirou a humanidade do centro do Universo e a confinou a uma posição insignificante.

Talvez seja em decorrência desta postura de resistência aos avanços científicos, mas poucos pensadores cristãos da atualidade parecem beneficiar–se com o notável desenvolvimento da física moderna. A sua maneira, Einstein e Bohr empreenderam uma revolução tão espetacular quanto a de Copérnico, embora em direções novas, chocantes para muitos.

Para começar, não apenas a humanidade, mas cada indivíduo, homem ou mulher, recuperou, através da física moderna, sua posição de figura central na história do Universo. Porque, se extrairmos apenas um ensinamento da física moderna, será este: o indivíduo consciente é um componente essencial de, bem... de tudo.

Na física de Newton, os indivíduos não ocupam lugar especial no Universo, exceto como participantes ocasionais no fenômeno estabelecido de causa e efeito. Mas alguns cientistas do século XX defendem que a própria realidade da ocorrência de um evento depende da existência de um observador. 

Como disse Bernard D’Espagnat na revista Scientific American: 

A doutrina que afirma ser o mundo formado por objetos cuja existência independe da consciência humana acaba por entrar em conflito com a mecânica quântica e com os fatos verificados por experiências.

Em outras palavras: ele questiona até mesmo a existência das coisas fora da consciência humana. Apesar das opiniões contrárias, o indivíduo importa muito, e o observador desempenha papel essencial. Os físicos com a alma um pouco mais poética repetem ditados como: "Corte uma folha de grama e você abalará o Universo." O leigo rapidamente perde a confiança no Reino Encantado da relatividade e da física quântica.

Alguém nos ensina que nossa poltrona favorita é formada por grandes espaços vazios preenchidos por alguns átomos que giram a toda velocidade. Ainda assim, nós a vemos como objeto sólido e assentamo–nos nela. Aprendemos que o tempo varia, dependendo da força da gravidade e do movimento, e que um astronauta que parra para o espaço poderá retornar à Terra trinta e seis anos mais novo do que seu irmão gêmeo que aqui permaneceu.Apesar disto, continuamos a olhar para o relógio de pulso, confiando em que ele nos informará a hora certa de entrar no serviço.

Parece melhor deixar de lado este mundo estonteante da física moderna, com suas equações tão longas que vão de uma ponta a outra do quadro–negro e com seus termos amedrontadores como antimatéria, espuma quântica e buraco–negro. Com algumas poucas exceções, na maioria dos casos é melhor depender do bom e velho Newton.

Mas os cristãos não devem voltar as costas à física moderna com tanta facilidade, porque muitos de seus princípios sobre a natureza do tempo e do espaço foram provados por cientistas empreendedores que lançaram raios–laser até à lua, fotografaram estrelas durante eclipses do sol e fizeram com que relógios atômicos viajassem em torno do globo terrestre levados por aviões a jato.

Além disto, as descobertas notáveis que as pessoas comentam com espanto infantil apresentam novos caminhos para a compreensão de algumas doutrinas teológicas mais complicadas. Pensemos em uma destas doutrinas: Deus não está preso ao tempo. Os cristãos vêm repetindo, há muitos e muitos anos que "Aos olhos de Deus mil anos são como um dia", expressando sua convicção de que a visão de Deus sobre tempo é diferente da nossa.

Dizemos que Ele está além do tempo e do espaço. Para nós, a história humana é uma seqüência de quadros fixos, apresentados um após o outro, como em um filme. Mas Deus vê o filme inteiro de uma só vez.

Embora os cristãos repitam esta crença e quase todos os teólogos, desde Agostinho, hajam–se ocupado dela, ninguém consegue entender por completo.Aparece a física moderna. Hoje nos ensinam que o tempo depende do movimento e da posição relativa do observador. Tomemos um exemplo bem primitivo. Olhando para o céu, às 15h 12min, vejo uma estrela brilhante, o sol, que paira no espaço a uma distância de aproximadamente 150 milhões de quilômetros.

Na verdade, a luz que vejo partiu da estrela há 500 segundos, e viajou à velocidade de 300 000km/s, embora eu não me dê conta de estar enxergando o resultado do que aconteceu no astro às 15h 4min (horário da Terra).Se o Sol subitamente desaparecesse em face de um ataque furtivo de um buraco–negro voraz, eu só saberia oito minutos depois, quando o céu ficaria escuro e eu gritaria: O Sol foi embora! – e me prepararia para a extinção da vida na Terra.Imagine agora uma pessoa muito grande, quero dizer, muito grande, cuja abertura entre os pés medisse, digamos, 150 milhões de quilômetros. Esta pessoa põe o pé esquerdo na Terra e o direito, com um sapato de amianto, no sol.

Subitamente, bate o pé direito. Imediatamente, as labaredas solares espalham–se em todas as direções e o sol expele gases. Oito minutos depois eu, aqui na Terra, percebo a mudança dramática do Sol.Mas estou preso na Terra. A pessoa imensa existe parcialmente aqui e parcialmente no Sol, sua consciência abarca os dois lugares.Embora parte de seu ser esteja na Terra, tem pleno conhecimento do movimento do pé direito oito minutos antes de todas as outras pessoas na Terra.Pergunta–se, então, o que é o tempo para esta pessoa imensa. Depende da perspectiva. Faça um esforço mental ainda maior e imagine um Ser tão grande quanto o Universo, que existe ao mesmo tempo na Terra e na estrela Andrômeda, numa galáxia a bilhões de quilômetros de distância. Se uma estrela explode na galáxia, o Ser sabe no mesmo instante, e mesmo assim ainda verá o evento na Terra, milhões de anos depois, como se houvesse acontecido naquele instante. A analogia não é exata, porque tolhe este Ser no espaço, embora o liberte do tempo. Mas pode dar–nos uma idéia quanto à perspectiva limitada do conceito de tempo adotado em nosso planeta, no qual se afirma que "primeiro acontece A e depois B".

Deus, acima tanto do tempo quanto do espaço, pode ver o que acontece na Terra de um modo que só nos cabe tentar imaginar. Esta linha de pensamento joga nova luz sobre debates muito antigos sobre a onisciencia, presciência, livre–arbítrio e determinismo. Um termo como "presciência" só tem sentido quando considerado do nosso ponto de vista limitado à Terra, pois presume que o tempo é uma seqüência de fatos, um após o outro. Do ponto de vista de Deus, que engloba todo o Universo de uma só vez, o significado da palavra é consideravelmente diverso. Falando com precisão, Deus não "prevê" os acontecimentos. Ele simplesmente os vê, em um presente eterno.

A eternidade é apenas uma das muitas doutrinas esclarecidas pela física moderna. Os novos teólogos agiriam bem se estudassem a teoria dos Universos paralelos, usando–a para investigar o problema do mal. A teoria da interconexão de toda matéria e energia seria útil para abordar as palavras bíblicas sobre a união entre os que crêem. A teoria que trata de como a consciência afeta a matéria poderia trazer esclarecimentos sobre o poder da oração.

A maioria de nós precisará de cientistas qualificados que nos orientem na compreensão de todos estes mistérios. Os zen–budistas aproveitaram a oportunidade e publicaram obras sobre como suas crenças se adaptam aos modelos contemporâneos do Universo. Espero que não fiquemos atrasados demais em relação a eles. A fé religiosa, assim como a matéria, enfrenta constantemente o perigo de ser engolida por um buraco–negro.

— Philip Yancey.