domingo, 22 de outubro de 2017

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica III


Parte II
Parceiro de Caminhada: Alister McGrath
Segundo Passeio



2 A filosofia por trás desse inerrantismo foi posta a descoberto, e questionada, pela Bíblia mesma.
2.1 Teólogos inerrantistas, com versículos nas mãos, precisam agora falar de sua filosofia: e, afinal, percebê-la.
2.1.2 A Filosofia, e todo conjunto de pressupostos, condicionam o modo de interpretar a Bíblia. Nenhuma ingenuidade nesse sentido passa mais despercebido, nem se justifica mais. Reconhecer isso é um primeiro dever.
2.1.2 Os inerrantistas de hoje tem mais possibilidades de enxergar isso.
2.2 A maior percepção da fundamentação pré teórica do pensamento é uma tendência da filosofia atual, contudo, a crítica parte incisivamente de considerações bíblicas.
2.2.1 A tradição evangélica que se amarrou ao inerrantismo, e, por ele, achou que colocou todas as tradições sob o juízo da Bíblia, precisa se explicar perante a Bíblia.
2.2.2 É preciso nos perguntar sobre pressuposições biblicas, sua possibilidade e mesmo a revisão de outras pressuposições à lua da Bíblia.
2.3 Essa tradição inerrantista mais monolítica é geralmente associada ao fundamentalismo evangélico. Há, contudo, inerrantistas não exclusivistas.
2.4 Há uma certa localização desse tipo de teologia mais racionalistas, muitos autores tem apontado os EUA como o lugar de maior profusão desse tipo de teologia. A teologia americana, como se sabe, é exportada. E tem uma influência especial na teologia brasileira. É importante conhecer os nomes dos autores associados a essa teologia racionalista. Quanto mais um jovem estudante for capaz de identificar as teologias, mais livre ele será para afirmar sua própria identidade de fé.
2.4.1 Essa importação condiciona, as vezes determina. O racionalismo teológico é geralmente exclusivista, isto é, não reconhece as alternativas como legítimas.
2.5 Embora não seja verdade que todo inerrantista é exclusivista, a luta contra o exclusivismo (que é predominante entre os inerrantistas) é uma luta de qualidade evagélica: uma luta pela liberdade, valor e importância das Escrituras.
2.6 A filosofia por trás desse racionalismo teológico reduziu distorcivamente a verdade da revelação bíblica a seu aspecto proposicional.
2.6.1 Associada ao reacionarismo, que é cego, deixaram de perceber nuances da verdade expressas por outras teologias. Por exemplo, a verdade bíblica como relação.
2.6.2 É comum para essa expressão de racionalismo, rejeitar taxativa e preconcebidamente teologias sem uma análise de mérito séria, honesta e comprometida mais com a Bíblia que consigo mesma.
2.7 As brigas pela “verdade” da Bíblia se mostram um tanto briga por si mesmos. Os pscicanalistas estão dizendo que um fundamentalista tem uma ideia de Deus muito proxíma do seu “eu”.
2.7.1 O resultado é esse tipo de defesa bíblica, aprisiona a bíblia mesma. Cercam-na do eu, da nossa interpretação. Reduz sua mensagem. E toda redução é distorciva.

Há uma percepção crescente dentro do evangelicalismo de que a posição de Princeton está em última análise dependente de suposições e normas extrabíblicas. A vista da determinação do evangelicalismo de não permitir que qualquer coisa de fora do material bíblico assuma um papel normativo ou fundamental no pensamento cristão, tem-se provado necessário questionar esse modo particular de expressar e defender a autoridade das Escrituras – mas não por em dúvida essa questão em si. Por fim, o evangelicalismo está simplesmente no processo de substituir uma abordagem a autoridade biblica (que é vista agora sendo baseada em axiomas filosóficos) com outra (baseada em considerações mais bíblicas)” (p. 99, Paixao pela verdade).
Há uma necessidade real de resgatar a Bíblia do fundamentalismo”, (Introdução ao Protestantismo, pag 54).
Nos Estados Unidos, a tendência para aderir ao racionalismo dentro dos círculos evangélicos foi acelerada durante fins do século XVIII e começo do século XIX pela ampla adoção do que se tornou conhecido como o “realismo escocês” ou filosofia “do senso comum” … O resultado é que formas do evangelicalismo estado-unidense que tem sido especialmente influenciado por racionalismo, como aquela associada com Carl Henry, tem colocado ênfase demais na noção de uma revelação bíblica puramente proposicional” (p. 90, Paixao pela verdade).
A tendência geral de tratar a Bíblia puramente como um livro-fonte de verdades puramente proposicionais pode ser argumentada de maneira a encontrar base especialmente na antiga escola de Princeton, em particular nos escritos de Charles Hodge e Benjamin B. Walfield, em que tendências das pressuposições do Iluminismo é especialmente fácil de ser notada.” (p. 146, Paixao pela verdade).
Reduzir a revelação a princípios ou conceitos é suprimir o elemento de mistério, santidade e maravilha na automanifestação de Deus” (pag 9, Paixao pela verdade).
Alguns evangélicos como Carl F. H. Henry e R. C. Sproul, são fundamentalistas em suas abordagens...” (Nota 37 p. 210, Paixao pela verdade).
Donald G. Bloesch já argumentou que um espírito fortemente racionalista pode ser discernido mesmo dentro dos escritos desses evangélicos modernos estado-unidenses, como Carl F. H. Henry, John Warwck Montgomery, Francis Shaerffer e Norman Geisler.” (p. 142, Paixao pela verdade).

Leiam o  Primeiro Passeio.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica II


Parte I
Parceiro de Caminhada: Alister McGrath

Primeiro Passeio

Cremos e discordamos: cremos e por isso podemos discordar


1. Uma coisa é a afirmação da autoridade das Escrituras. Outra é a “maneira precisa” de traduzi-la no mundo conceitual.
1.1 A fé, crê. A mente reflete, tenta entender e explicar.
1.2 Há um modo de conceituar que se tem traçado até Benjamim B. Warfield e Charles Hodge (Old Princeton). Esse modo geralmente é monolítico: aqui vamos entender como “não aceita alternativas”, se coloca como única alternativa possível. Podemos chamar essa abordagem simplesmente de inerrantista.
1.3 Hoje começamos a perceber os condicionamentos dessa abordagem inerrantista, isto é, suas raízes sociais e culturais no solo Iluminista.
1.4 Por conta dessa vinculação cultural: é possível analisar a abordagem, dando seus créditos e apontando suas deficiências. O debate, portanto, é legítimo. Digo isso porque se tem dado contornos de (homens crentes e fieis X infieis e liberais), quando na verdade o debate é entre homens que buscam a fidelidade. A identificação cultural com a verdade é sempre um risco de infidelidade.
1.5 A base dessa abordagem é racionalista.


Os evangélicos estão assim concordes em sua afirmação da autoridade das Escrituras na vida e pensamento cristãos; querem gozar de liberdade, no entanto, de maneira precisa em que essa autoridade foi articulada ou conceituada, permitindo à abordagem com Benjamim B. Warfield e Charles Hodge ser colocada ao lado de outras, contanto que a autoridade fundamental e inalienável da Escritura seja mantida” (pag 21, Paixão pela Verdade).
Se há uma crise, esta diz respeito à maneira em que essa autoridade é articulada e formalizada no nível teológico, com certas abordagens mais antigas sendo agora vistas como respostas condicionadas a evoluções culturais gerais, particularmente na época do Iluminismo. A compreensão que Benjamin B. Warfield tem da autoridade da Escritura, por exemplo, é moldada por pressões e influências da filosofia escocesa do senso comum, que se tornou de muita importância em Princeton durante o século XIX. Com o decréscimo do apelo dessa filosofia, aliado a um reconhecimento cada vez maior da inadequação de suas bases racionalistas, a abordagem diferente que Warfield deu a questao da autoridade da Escritura realmente se viu em “crise” - não por causa de nenhuma diminuição do respeito evangélico pela Escritura, mas por causa de crescentes dúvidas com respeito à maneira particular de basear e expressar essa autoridade” (p. 49, Ibiden).
Cada vez mais, os evangélicos estão expressando receios com respeito às abordagens da autoridade bíblica associadas à escola da Old Princeton, vendo o uso continuado das ideias deste educandário contribuindo para a escravidão prolongada do evangelicalismo às ideias e pontos de vistas do racionalismo Iluminista.” (p.99, Ibiden).
E Princeton era para ser o cadinho no qual as grandes teorias evangélicas de inspiração e autoridade bíblica eram forjadas. O resultado? As teorias de escritores como Charles Hodge (1797-1858) são profundamente influenciadas pelos preconceitos do Iluminismo.” (p. 142, Ibiden).
O tom fortemente racionalista dessa filosofia é particularmente evidente nas obras de Benjamin B. Warfield, mas é claramente evidente nas dos primeiros tempos de Charles Hodge.” (p. 142, Ibiden).

Leia aqui a INTRODUÇÃO.

Bíblia: em busca de uma elaboração teórica



Primeiros passos



                 "Pega e lê: ouvi, cri, por isso li"


Nesse espaço, estarei me esforçando para dar pistas da minha elaboração teórica sobre a Bíblia, na minha identidade evangelical. 

Evangélico, historicamente, queria dizer: nem liberal, nem fundamentalista. Hoje parece que a equidistância originária se perdeu, especialmente por uma aproximação ao polo fundamentalista.

Como evangelical, creio na autoridade das Escrituras por causa de Jesus Cristo. Minha identidade não é com o texto, mas não o prescinde em função de seu testemunho acerca de Jesus Cristo.

"Testemunho", como pretendo trabalhar, é uma palavra adoecida justamente no contexto desse debate teológico. Mas a pronuncio com toda paz.

Como evangelical, logo cedo percebi que o ambiente intelectual do evangelicalismo brasileiro é majoritariamente anti inteclecutal. Ou é racionalista. 

"Nem liberal, nem fundamentalista", quer dizer: não formulo minha crença conforme o MODERNISMO.

Hoje podemos dizer que já estamos conscientes da infidelidade e distorção por trás do modo de expressar a crença nos termos do modernismo.

E só para clarear um pouco mais:  um "deus" do modernismo, já percebido e denunciado, é o objetivismo. O liberalismo e o fundamentalismo são "idólatras" em certo sentido. E digo isso, e assumindo isso qualifico minha fala, sabendo que "a reflexão teológica nunca ocorre em um vácuo social ou cultural", como diz o Mcgrath. Pois, se há uma luz lançada pela minha cultura é a percepção desse pertencimento cultural e social. Essa percepção já é uma "superação latente" da modernidade.

Usarei esse espaço, a princípio, trazendo minhas fontes de caminhada, para esse passeio público. Gente que nesse assunto me influenciou de modo significativo. Dos quais, cito o Mcgrath, o N. T. Wright, o George Ladd, o Bernard Ramm, Oscar Cullmann, Ratzinger, Lutero, Vanhoozer, etc.

Para aqueles que decidirem me acompanhar nessa caminhada é fundamental entender minha distinção (não digo que são completamente separáveis) da ideia de crença e sua formulação teórica, e da fé mesma. A fé é um dom, é indisponível, envolve o "ser todo". Os racionalistas inventaram um nome - para e por eles amaldicoado - "fideísmo": com o qual obscurecem a origem e natureza mística da fé. A fé é suficiente, a crença é um desenvolvimento precário. Vamos conversar melhor sobre isso. 

Para esses passos, escolhi carregar comigo três valores: honestidade, fidelidade e criatividade. A honestidade me obriga a estudar e a vencer minha própria ignorância, por ela assumida. É a honestidade também que me dá liberdade para pesquisa, para transitar nas tradições, para pensar a questão sem restrições. A honestidade é que qualifica a fidelidade. A fidelidade deve ser honesta. A fidelidade é o meu cuidado com a Tradição, com a fé comum, com um Pertencimento, e com a relação da reflexão com a Fé. Não resolvi caminhar sozinho. Exatamente por isso resolvi trazer como companhia teólogos qualificados. A fidelidade desconfia de si, e do "nós" mais próximo: nossa cultura, nossa confissão, nossos pressupostos... A criatividade não é inovadora, mas a qualidade que melhora as demais.

Tentarei limitar o tamanho dos textos para que o passeio seja agradável.

É sempre mais gratificante partilhar a fé! Preciso de um esforço maior para que a partilha da crença me dê algum tipo de satisfação. Mas é justamente acreditando em uma continuidade entre ambas, que acho animo para esse empreendimento. Essa continuidade não será a ênfase aqui: mas ela é a base de tudo. Tudo aqui é feito pela Fé.

Avante!


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quinta-feira, 14 de setembro de 2017


Só os eruditos lêem livros antigos, e nós já demos tal jeito neles que, de todos os homens, eles são os menos capazes de adquirir sabedoria ao ler os tais livros. Conseguimos isso ao inculcar neles o Ponto de Vista Histórico. O Ponto de Vista Histórico, grosso modo, significa que sempre que um homem culto deparar com qualquer afirmação de um autor antigo, ele jamais irá se perguntar se a afirmação é verdadeira. Ele se pergunta quem influenciou o autor, o quanto essa afirmação contradiz o que ele disse em outros livros, que fase ela representa na evolução desse autor ou na história geral do pensamento, como ela afetou os autores posteriores, com que freqüência ela é mal compreendida (especialmente pelos próprios colegas do leitor erudito), qual é a crítica geral feita a essa afirmação nos últimos dez anos e qual é a "atual conjuntura do problemà'. Enfim, considerar esse autor antigo como uma possível fonte de sabedoria - antever que o que ele disse poderia talvez modificar os próprios pensamentos e o comportamento do leitor - é rejeitado como um ato puramente ingênuo. E já que não conseguimos enganar toda a raça humana o tempo todo, é de grande importância para nós separar cada geração de todas as outras, pois sempre que o aprendizado permite a livre troca entre as gerações, há o perigo de que os erros característicos de uma sejam corrigidos pelos acertos característicos da outra. Mas, graças ao Nosso Pai e ao Ponto de Vista Histórico, os grandes eruditos se baseiam tão pouco no passado quanto o mecânico mais ignorante, daquele tipo capaz de afirmar que "a história é uma besteirà'. Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO.

C. S. Lewis, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.

Teologia e Física Moderna





CUIDADO COM OS BURACOS–NEGROS


A Ciência e a Teologia mantêm um relacionamento delicado desde a época de Galileu e Copérnico. Em alguns aspectos, o cristianismo não conseguiu recuperar–se por completo da revolução cosmológica que retirou a humanidade do centro do Universo e a confinou a uma posição insignificante.

Talvez seja em decorrência desta postura de resistência aos avanços científicos, mas poucos pensadores cristãos da atualidade parecem beneficiar–se com o notável desenvolvimento da física moderna. A sua maneira, Einstein e Bohr empreenderam uma revolução tão espetacular quanto a de Copérnico, embora em direções novas, chocantes para muitos.

Para começar, não apenas a humanidade, mas cada indivíduo, homem ou mulher, recuperou, através da física moderna, sua posição de figura central na história do Universo. Porque, se extrairmos apenas um ensinamento da física moderna, será este: o indivíduo consciente é um componente essencial de, bem... de tudo.

Na física de Newton, os indivíduos não ocupam lugar especial no Universo, exceto como participantes ocasionais no fenômeno estabelecido de causa e efeito. Mas alguns cientistas do século XX defendem que a própria realidade da ocorrência de um evento depende da existência de um observador. 

Como disse Bernard D’Espagnat na revista Scientific American: 

A doutrina que afirma ser o mundo formado por objetos cuja existência independe da consciência humana acaba por entrar em conflito com a mecânica quântica e com os fatos verificados por experiências.

Em outras palavras: ele questiona até mesmo a existência das coisas fora da consciência humana. Apesar das opiniões contrárias, o indivíduo importa muito, e o observador desempenha papel essencial. Os físicos com a alma um pouco mais poética repetem ditados como: "Corte uma folha de grama e você abalará o Universo." O leigo rapidamente perde a confiança no Reino Encantado da relatividade e da física quântica.

Alguém nos ensina que nossa poltrona favorita é formada por grandes espaços vazios preenchidos por alguns átomos que giram a toda velocidade. Ainda assim, nós a vemos como objeto sólido e assentamo–nos nela. Aprendemos que o tempo varia, dependendo da força da gravidade e do movimento, e que um astronauta que parra para o espaço poderá retornar à Terra trinta e seis anos mais novo do que seu irmão gêmeo que aqui permaneceu.Apesar disto, continuamos a olhar para o relógio de pulso, confiando em que ele nos informará a hora certa de entrar no serviço.

Parece melhor deixar de lado este mundo estonteante da física moderna, com suas equações tão longas que vão de uma ponta a outra do quadro–negro e com seus termos amedrontadores como antimatéria, espuma quântica e buraco–negro. Com algumas poucas exceções, na maioria dos casos é melhor depender do bom e velho Newton.

Mas os cristãos não devem voltar as costas à física moderna com tanta facilidade, porque muitos de seus princípios sobre a natureza do tempo e do espaço foram provados por cientistas empreendedores que lançaram raios–laser até à lua, fotografaram estrelas durante eclipses do sol e fizeram com que relógios atômicos viajassem em torno do globo terrestre levados por aviões a jato.

Além disto, as descobertas notáveis que as pessoas comentam com espanto infantil apresentam novos caminhos para a compreensão de algumas doutrinas teológicas mais complicadas. Pensemos em uma destas doutrinas: Deus não está preso ao tempo. Os cristãos vêm repetindo, há muitos e muitos anos que "Aos olhos de Deus mil anos são como um dia", expressando sua convicção de que a visão de Deus sobre tempo é diferente da nossa.

Dizemos que Ele está além do tempo e do espaço. Para nós, a história humana é uma seqüência de quadros fixos, apresentados um após o outro, como em um filme. Mas Deus vê o filme inteiro de uma só vez.

Embora os cristãos repitam esta crença e quase todos os teólogos, desde Agostinho, hajam–se ocupado dela, ninguém consegue entender por completo.Aparece a física moderna. Hoje nos ensinam que o tempo depende do movimento e da posição relativa do observador. Tomemos um exemplo bem primitivo. Olhando para o céu, às 15h 12min, vejo uma estrela brilhante, o sol, que paira no espaço a uma distância de aproximadamente 150 milhões de quilômetros.

Na verdade, a luz que vejo partiu da estrela há 500 segundos, e viajou à velocidade de 300 000km/s, embora eu não me dê conta de estar enxergando o resultado do que aconteceu no astro às 15h 4min (horário da Terra).Se o Sol subitamente desaparecesse em face de um ataque furtivo de um buraco–negro voraz, eu só saberia oito minutos depois, quando o céu ficaria escuro e eu gritaria: O Sol foi embora! – e me prepararia para a extinção da vida na Terra.Imagine agora uma pessoa muito grande, quero dizer, muito grande, cuja abertura entre os pés medisse, digamos, 150 milhões de quilômetros. Esta pessoa põe o pé esquerdo na Terra e o direito, com um sapato de amianto, no sol.

Subitamente, bate o pé direito. Imediatamente, as labaredas solares espalham–se em todas as direções e o sol expele gases. Oito minutos depois eu, aqui na Terra, percebo a mudança dramática do Sol.Mas estou preso na Terra. A pessoa imensa existe parcialmente aqui e parcialmente no Sol, sua consciência abarca os dois lugares.Embora parte de seu ser esteja na Terra, tem pleno conhecimento do movimento do pé direito oito minutos antes de todas as outras pessoas na Terra.Pergunta–se, então, o que é o tempo para esta pessoa imensa. Depende da perspectiva. Faça um esforço mental ainda maior e imagine um Ser tão grande quanto o Universo, que existe ao mesmo tempo na Terra e na estrela Andrômeda, numa galáxia a bilhões de quilômetros de distância. Se uma estrela explode na galáxia, o Ser sabe no mesmo instante, e mesmo assim ainda verá o evento na Terra, milhões de anos depois, como se houvesse acontecido naquele instante. A analogia não é exata, porque tolhe este Ser no espaço, embora o liberte do tempo. Mas pode dar–nos uma idéia quanto à perspectiva limitada do conceito de tempo adotado em nosso planeta, no qual se afirma que "primeiro acontece A e depois B".

Deus, acima tanto do tempo quanto do espaço, pode ver o que acontece na Terra de um modo que só nos cabe tentar imaginar. Esta linha de pensamento joga nova luz sobre debates muito antigos sobre a onisciencia, presciência, livre–arbítrio e determinismo. Um termo como "presciência" só tem sentido quando considerado do nosso ponto de vista limitado à Terra, pois presume que o tempo é uma seqüência de fatos, um após o outro. Do ponto de vista de Deus, que engloba todo o Universo de uma só vez, o significado da palavra é consideravelmente diverso. Falando com precisão, Deus não "prevê" os acontecimentos. Ele simplesmente os vê, em um presente eterno.

A eternidade é apenas uma das muitas doutrinas esclarecidas pela física moderna. Os novos teólogos agiriam bem se estudassem a teoria dos Universos paralelos, usando–a para investigar o problema do mal. A teoria da interconexão de toda matéria e energia seria útil para abordar as palavras bíblicas sobre a união entre os que crêem. A teoria que trata de como a consciência afeta a matéria poderia trazer esclarecimentos sobre o poder da oração.

A maioria de nós precisará de cientistas qualificados que nos orientem na compreensão de todos estes mistérios. Os zen–budistas aproveitaram a oportunidade e publicaram obras sobre como suas crenças se adaptam aos modelos contemporâneos do Universo. Espero que não fiquemos atrasados demais em relação a eles. A fé religiosa, assim como a matéria, enfrenta constantemente o perigo de ser engolida por um buraco–negro.

— Philip Yancey.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O ex-covarde
Nélson Rodrigues




Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.

O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.

Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.

Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".


RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10. 
A questão da hermenêutica

A hermenêutica bíblica, isto é, a arte ou ciência de interpretar a Escritura, tem se tornado, nestas últimas décadas, uma das principais preocupações dos estudiosos. Na verdade, todo cristão que lê a Bíblia acaba de confrontando com a questão de como entendê-la corretamente.

O problema surge com as extremas particularidades culturais do texto antigo e do intérprete moderno. Cada um tem um "horizonte" diferente, uma perspectiva ou um ponto de vista limitado, e o que se faz necessário é aquilo que Hans-Georg Gadamer chamou de "fusão de horizontes". "A compreensão ocorre", escreve Dr. Tony Thiselton em seu clássico e abrangente estudo Os Dois Horizontes, "quando dois conjuntos de horizontes são colocados em relação um com o outro, a saber, o horizonte do texto e o do intérprete."

Neste processo, a primeira tarefa do intérprete foi chamada por Gadamer de "distanciamento". Isto é, nós precisamos reconhecer "a identidade do passado", desligar-nos do texto e dar espaço para a sua própria integridade histórica, sem nos intrometermos nele nem decidirmos prematuramente como ele se aplica a nós.

Uma exegese cuidadosa do texto tem que estudá-lo em seus próprios termos linguísticos e culturais. Mas isso é apenas o começo. Se antes nós precisamos manter distância do texto, num segundo momento nós temos que tentar penetrar nele. "E preciso haver um envolvimento presente com o texto", escreve Thiselton, "como também um distanciamento crítico dele". Mas, como o intérprete também pertence a um contexto preciso e específico, embora diferente do do texto, isto não é fácil. É preciso um alto nível de imaginação, de empatia, se se quiser penetrar nesse estranho mundo. "Exegese histórica é essencial, mas não é suficiente. Nós precisamos distanciamento e também abertura para o texto, e os dois irão progredindo até a fusão dos horizontes."


Isto leva a uma ativa interação ou dialética entre texto e intérprete. Por mais que nos esforcemos para nos distanciar do texto, é difícil deixar de trazer para ele nossas pressuposições e nossa própria agenda de problemas e questões. Pode ser que a Escritura proveja algumas respostas para estes. Mas, já que ela tem a sua própria agenda, pode ser que não. Pelo contrário, é provável que ela nos desafie a irmos embora e a reformularmos as nossas questões, ou até a substituí-las por outras melhores. Então nós retornamos com a nossa nova agenda, e assim o diálogo entre nós continua. Isso faz parte daquilo que se chama "o círculo hermenêutico", embora certos estudiosos europeus e latino-americanos prefiram a expressão "espiral hermenêutica", pois o movimento é progressivo e ascendente.

John Stott