quarta-feira, 6 de julho de 2011

Amor e Conhecimento



Confesso-lhes: tenho pensado sobre casamento! E do mais próprio do meu espírito, numa amostra escolhida aleatoriamente, ou pelo menos não tão planejada e controladamente, eu extraí o seguinte recorte:

Parafraseando a Sabedoria das Escrituras: o amor tem cobrir uma multidão de erros, equívocos, incompreensões, personalismos, chateações. O amor é um sobrevivente! O amor é o que faz sobreviver!

O amor não pensa em si mesmo, e, talvez, não pense tanto no outro, o amor pensa na relação.

Se, como dizia Sartre, o Inferno é o outro, também o Céu o é. 

A diferença, tão sutil quanto, em seus efeitos, é um abismo qualitativo insuperável, é que no Céu, entre "eu" e o "outro", há o amor.

Amor é, assim, o que permeia.

Amor é a relação.

Em fim, e resumidamente: Amor é a aliança!

Paralelamente, tenho desenvolvido a percepção da vida como um romance, e do Evangelho como um romance da vida. E o Chesterton, entre outros, tem me influenciado. Para ele, a fé é um romance. Acabei de ler a sua biografia de São Francisco. E um dos seus pontos era que o Francisco era um trovador: e a sua ética, era uma ética do amor. Aliás, por isso, o que poderia ser visto como excentrismos da parte dele, ganhava outros contornos se visto como impulsionado por amor. Também no texto - Sobre certos escritores modernos e a instituição da família, o Chesterton escreve um tanto sobre aventuras no cotidiano.

Eu sou filho do romantismo, que veio remanescente no pietismo pentecostal. Além do mais, fui despertado para as aventuras dos contos. E encontrei na Pessoa que é o Centro do Evangelho, um paradigma do Amor. Que vem me refazendo, me desconstruindo, me constrangendo.

No Evangelho encontro para o amor, parâmetros desconcertantes, pouco românticos. Um amor que, como eu gosto de me referir, lava os pés da sujeira da vida. Mas confesso também que no Evangelho há romance, há encanto. Mas o ponto é: Não encontrei eu uma perspectiva de equilíbrio. Vou explicar melhor isso.

Querendo seguir o caminho do amor, quando vi os mendingos que dormiam próximo ao Itão do Centro Comercial - que era meu caminho diário, eu tinha a perspectiva que seja lá o que fosse, o amor tinha algo para fazer. E passamos a fazer. Nos reuníamos aos sábados, eu e mais dois amigos. Levávamos comida, roupas, cobertores, e coisas que eles pediam, e cultuávamos. A perspectiva mudou: meu conflito era que precisava da motivação certa. O dilema foi complexo como o descrito maestralmente pelo Doistoeviski na citação logo abaixo. Eu fazia, mas achava que ainda não estava amando. E mesmo enquanto fazia: a vontade era de não fazer. Ademais eu conseguia notar aqueles distantes, ao mesmo tempo que ignorava carências vizinhas. Isso me desconcertava. Aqui, mais uma vez, o texto do Chesterton foi relevante. E espero digeri-lo bem.

No mais, esse texto me foi enviado por uma amiga, pedindo opiniões. Foi aí que me lembrei de uma continuação de um comentário que eu vinha fazendo da frase do Millor Fernandes. Adpatei e enviei. 

É o que segue.

I
 
E, por fim, minha viagem na frase o Millor[1], aterrissa numa dualidade complexa que eu subscrevo em suas relações: 
 
 
conhecimento/realismo/amor
 
e
 
ignorância/idealismo/paixão- admiração
 
 
Eu a leio: são amáveis as pessoas que não conhecemos muito bem.
 
E as novelas representam bem: as amantes são também mais amáveis. Mas melhor seria dito: mais apaixonantes. Aliás, mais são os links entre o ideal novelesco da amante e a idéia desenvolvida por Chesterton. A amante, na novela, é uma miragem. E aí reside a sua amabilidade. É apaixonante enquanto miragem. Na verdade, “ama-se” a liberdade que é própria do “caso causal”. E, na maioria das vezes, “ama-se” apenas isso. A amante é o não vizinho: e é por isso que ela mais facilmente passa-se com verdadeiro objeto do amor.
 
Nos conselhos populares parece que o casamento é o antídoto contra a paixão: Casar é conhecer! Talvez por isso que dizem que o melhor do casamento é o seu início, onde claro, há mais ignorância.
 
Por trás de tudo, dizia-se o tempo todo: o amor só existe na ignorância, no desconhecimento, ou na fantasia idealista...
 
Quanto mais concreto e real: menos se ama. O amor existe na fantasia.
 
Lembro-me de ler em Os irmãos Karamasovi do Doistoeviski:
"O amor ativo? Eis um novo problema - e que problema, que problema! Veja: eu amo a humanidade a tal ponto que, às vezes, penso em abandonar Lise e tornar-me irmã de caridade. Nestes momentos, fecho os olhos, penso e sonho, sentindo em mim uma força invencível. Nenhuma úlcera, nenhuma chaga supurada poderiam assustar-me. Eu cuidaria dessas feridas com as minhas próprias mãos e seria capaz de beijar as úlceras (...) Sim, mas seria possível para mim suportar, durante muito tempo, tal vida? Eis a questão principal, a mais torturante das minhas questões! Muitas vezes fecho os olhos e pergunto a mim mesma: poderias tu prosseguir sempre neste caminho? E se o doente, cujas feridas lavarias, não denotasse nenhuma gratidão e, pelo contrário, passasse a torturar-te com seus caprichos, não desse nenhum apreço ao teu esforço humanitário, gritasse contigo, fizesse exigências em voz rude e chegasse até a queixar-se aos teus superiores (isto acontece frequentemente com quem sofre muito) - o que farias então? Poderias conservar o teu amor? Pois bem, confesso: cheguei à terrível conclusão que, se existe algo que possa diminuir meu amor ativo à humanidade, este algo será unicamente a ingratidão alheia. Em uma palavra, quero trabalhar para ser paga, exijo uma recompensa imediata, louvores ao meu esforço, um amor em troca do meu amor. Sem esta compensação; eu sou absolutamente incapaz de amar! (...) Isto é absolutamente idêntico ao que me contou há muitos anos um médico (...) Eu, dizia ele, amo a humanidade, mas acho estranho este meu sentimento, pois, se amo a humanidade em geral, cada vez mais detesto os homens em particular, isto é, como seres isolados, como indivíduos. Muitas vezes, sonhei apaixonadamente servir à humanidade com todo o meu ser. Poderia até deixar-me crucificar pelos homens, se isto fosse necessário para a sua salvação, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de partilhar com alguém meu quarto por dois dias seguidos. Quando sinto a outrem perto de mim, a sua personalidade afeta o meu amor próprio e limita minha liberdade. Em vinte e quatro horas, sou capaz de chegar a odiar o melhor homem do mundo. A uns odeio porque levam muito tempo a almoçar, a outros porque estão resfriados e se assoam continuamente. (...) Não obstante, enquanto crescia este ódio ao homem em particular, tornava-se cada vez mais ardente meu amor à humanidade."
 
 
II
 
Quando eu andava entre as ruas que já recebiam brisas divinas, coletei alguns de seus Contos: pensando que como os ditos usados por uma nação marcam seu caráter, assim os Contos da Ante Sala do Céu demonstram a natureza da sabedoria humana inspirada melhor que qualquer descrição de construções e trajes.
 
Minhas paráfrase de William Blake
 
 
 
Conto I
 
Diz-se que um homem foi tão apaixonado que viciou sua mulher.
 
O tempo passou, e a paixão não se susteve. Paixão é sentir. E humano algum fixa-se num sentir. Humano sente, dissente, sente de novo.
 
Contudo, o amor que ele sentia por ela, crescera com o tempo.
 
Mas, viciada, a mulher sentia-se não tão satisfeita. E culpava-lhe ao homem de sua primeira impressão.
 
A lenda não explica como foi possível, mas o homem amante teve a oportunidade de encontrar-se consigo mesmo, isto é, voltar no tempo e encontrar-se com sua versão apaixonada. Foi aí que o disse as seguintes palavras:
 
“Sei que está convencido de que ama sua mulher e que ninguém lhe provaria o contrário: você não está errado. “Mas você conhece pouco sobre ela. É mais apaixonado do que amante: e talvez ela prefira mais o apaixonado do que o amante. O amor requer conhecimento. Só se ama o que se conhece. E você a conhece tão pouco! Sim, já a ama, mas o tempo lhe dará a oportunidade de mostrar que a ama de verdade. Mas entenda e se esforce para fazê-la entender: paixão é coisa que até o Ricardão pode oferecê-la. Não há virtude nela. Ela não aperfeiçoa. Mas o amor é o que a pessoa é. Só pode oferecer quem é. Do amor, nasce e renasce a paixão. Mas paixão nenhuma pode gerar o amor. Se possível, explique isso a ela. Você é apaixonado por ela, tem razão. Eu, contudo, a amo. Você sente. Eu sou. Você desconhece, eu digo sim: mesmo sabendo dos defeitos dela. Ela pode até exigir algo mais, mas o amor é suficiente, porque o amor é tudo. Admiração pode ser coisa de ego. O amor, contudo, é aceitação. Não que não haja em mim admiração, mas é que essa lenha, eu não coloco, sob pena de desvalorizar o amor. Se amo, aceito. Se aceito estou dizendo SIM para pessoa toda: com acertos e erros. Admiração só tem olhos para o que é bom”.
 
 
 
Conto II
 
 
Naquelas ruas, contavam-se também histórias pela metade. Ou menos ainda! Histórias cujos contextos haviam se perdido. Em que apenas algumas falas haviam sobrevivido. Algumas delas ainda faziam sentido. Como essas:
 
“Entendo que tinha de haver mudanças. Entendo que a vida não tem a covardia (e a irrealidade) dos contos: que congela o tempo numa imagem feliz e diz: foram felizes para sempre. Não, na vida é melhor. Na vida a felicidade não é artificial. Não é uma cena congelada. É dinâmica. O amor é realista e real, é cotidiano. O amor tem que aprender a cobrir uma multidão de pecados. Tem que perdoar. Tem que lavar os pés. Tem que suar. O amor tem que se reafirmado, redescoberto, reconquistado. Portanto, o príncipe de plástico da branca de neve não me oprime, mas o amor sangrento de Cristo me constrange”.
 
 
***
 
Por essas e outras histórias que ouvi, aprendi que naquelas bandas, a verdade era que:
 
O amor pelas pessoas é um tanto mais amor quanto mais as conhecemos...

 

[1] A frase foi essa: "São admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem".
 
Eric Brito Cunha

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