sábado, 9 de julho de 2011

A Grande Paz



Pé de Serra e a Grande Paz do Verão


Lendo e relendo Rachel de Queiroz, deparei-me com a expressão “A grande paz do verão” em uma de suas maravilhosas crônicas: Um Alpendre, uma rede, um açude e comecei a refletir sobre esse aparente paradoxo: a paz e o verão na caatinga. Ora, o verão na caatinga vem junto com a estiagem avassaladora. De súbito eu diria que a paz no sertão deveria vir com o inverno, com as chuvas e o verde das plantações e a fartura de alimento... Mas, não. A paz de fato vem juntamente com o verão, “com a perspectiva de não fazer nada o dia inteiro”, como ela mesma disse. Uma paz que é companheira das poucas expectativas. Um certo conformismo... Melhor dizendo, uma satisfação com o pouco que se tem, sem murmurações aos céus, apenas um balanço de rede, ou um servicinho aqui e acolá: uma cerca para se reparar, uma rês que se perdeu no gerais, uma ou outra coisa a se fazer, pois, diante do verão a força dos braços humanos é pouco eficaz. O que resta é esperar que o gadinho não morra e o tanque não seque. Uma calmaria, um silêncio gostoso paira sobre a caatinga durante essa época.
            No inverno é só trabalho: gado para mudar de pasto, cultivo do solo, carpir a terra plantada, colher na época certa, vender o excedente, cuidar das ninhadas de cocás e galinhas... Uma trabalheira só. Mas, mesmo quando o ano não é bom de chuva e tem como conseqüência a perda do roçado, não se houve lamentos. Meu pai sempre dizia: “É assim mesmo. Ano que vem eu planto de novo”. É impressionante! Mas, voltando ao verão, ah, o verão! Eu costumo falar com minha mãe que a seca é a época que o sertão mais me encanta. Parece-me que nesse período todas as peculiaridades da caatinga se mostram, pois durante o inverno o sertão fica verde e se parece com qualquer outro lugar do mundo. Mas, na seca o espírito do homem da roça está pacificado com Deus e com a Terra. O sertanejo sempre tem saudades quando deixa sua Terra, por maiores que sejam as privações pelas quais tenha passado, ele sempre se lembra de seu pé de serra, seu recanto onde tudo se parece com ele... A caatinga é um universo à parte. Tanto é assim que a riqueza cultura emanada dali é tão intensa que nem o próprio Câmara Cascudo deu conta de retratar todas as suas nuances.
            Da varanda dos casebres contempla-se a vastidão da caatinga. A brisa rara vem trazendo de longe os cheiros de lugares ermos; poucos peixes no tanque, cácados, carcarás, gaviões e muitos urubus... É o que se vê. O gadinho miúdo se refugia na sombra de alguma árvore e as nuvens ralas passam lentamente pelo céu azulado. Um cigarro de palha aceso após o almoço enquanto os pensamentos trôpegos vão dançando junto com a fumaça cansada. Nada de projetos, de desenhos, de orçamentos... O sertanejo faz planos materiais de acordo com os acontecimentos no mundo espiritual. A desconfiança presente cede lugar à fé quando se empreende algo. Coisas simples, singelas, mas sempre devagar, sem ousadia, sem ansiedade. Tudo acontece no tempo certo. E essa certeza conforta os corações mesmo diante da morte e das perdas financeiras.
            O balanço na rede, ou mesmo o olhar perdido, debruçado na janela da cozinha após o meio dia, sempre faz os maus presságios irem embora. Para quem tem poucas esperanças, poucas são as decepções.
Lagartixas sacodem a cabeça nas paredes de adobe e os teiús se esconde do sol abrasador. Poucos tatus, raros jacus, uma ou outra codorna, juriti e nhambu. Marrecas e frangos d’água só onde ainda restam aguadas. Qualquer coisa complementa a refeição. A farinha sempre presente à mesa. Como diz meu irmão: “Ela esfria o que está quente, engrossa o que está ralo e aumenta o que está pouco”. Nada mais propício para a mesa do caatingueiro pobre.
A indumentária a dona de casa de encarrega de coser. Nenhum luxo, apenas a simplicidade e o conforto. Bolsos fundos para não perder dinheiro, camisa com “gibeira” para os documentos e o pente pequeno, embornal bordado com ponto de cruz. Essa é a roupa de ir para a feira ou para algum casamento. No campo não precisa disso. Roupas remendadas, botinas costuradas ou sandálias gastas. Não há desperdício. Tudo é aproveitado.
À noite, a janta, geralmente as sobras do almoço. E posso afirmar com propriedade que nunca provei comida melhor que os “mexidos” que meu pai fazia lá em casa. Mistura-se tudo numa panela e por cima alguns ovos fritos com um caldo de cebola e açafrão. Tomate, pimenta e farinha. Depois um cafezinho torrado na torradeira de casa mesmo. Não pode haver melhor refeição, principalmente quando os ovos são fritos com torresmo.     
Depois, uma visita à casa de algum parente ou amigo. Um gole de cachaça e de volta para casa pensando apenas no colchão forrado de palha de bananeira... Mais nada. Um sono leve e tranqüilo. Antes do sol nascer a vida recomeça.

Um texto de meu amigo Rovilson Ribeiro
Vitória da Conquista, 07 de julho de 2001.


***
Uma interação

          Eu cresci no litoral, beirando sempre Iguaí: fonte de beber água.
No litoral, a água é sempre um pouco mais salobra do que a que desce da torneira. Água com gosto e cor. E, principalmente, água salgada.
O mar foi cenário de muitas das minhas fantasias infantis. Ainda sofro por imaginar grandes peixes me perseguindo.
Ele era misterioso, infinito, indomável. Era o todo, e eu a parte. Nunca fui navegador, mas desde que criança sempre tomava banho no mais fundo que podia. E o bom mesmo era pegar jacaré nas ondas. Eu não velejava, eu vivia na fronteira entre sua "superfície" e seu profundo: o mar era um limite, mas eu estava nele, ele aprendia a lidar com ele, eu brincava com ele, e, aos poucos, avançava, me inserindo cada vez mais. Era como se inserir no todo. Era como conhecer um pouco mais dos mistérios.
A maior parte das minhas fantasias, eu brigava com o mar, dava soco nas ondas. Mas em fim, a luta terminava com marcas de bênçãos. Eu era um Jacó naquelas águas.
Essencialmente: o mar me cansava, o mar me dava sede.
O mar é uma ironia para quem está com sede.
O litoral, fundamentalmente, me marcou com insaciedades.

          Em Iguaí, eu me saciava.
Iguaí é terra das cachoeiras, dos pequenos paraísos de água doce.
Lembro de experiências com as piabas me bicando: elas não lembravam os grandes peixes de minhas perseguições. Eu até me divertia com elas.
O rios eram tranquilos.
Gostei muito do seu texto: principalmente porque ele me deixou com sede.
A sede é, possivelmente, um fio que consegue unir sertão e mar.
Mas bom mesmo são os gostos da nossa formação. Tudo é possivelmente como o sertão se tem gosto de lar.
Um fazendeiro tem roça no sangue. A cidade seria uma morte dele. Varreria os chãos de sua casa, mas querendo mesmo capinar.
O concreto não tem o cheiro das roças. Mas para o citadino, as roças não têm o cheiro de plástico dos shoppings.
O que é crescer senão buscar em outro lugar aquilo do qual estamos nos afastando?
O pré-desenho da alma humana estabeleceu que seríamos movidos pela saudade.
E isso não é romantismo. Aliás, nada há tão anti-romântico. Porque a verdade subjacente é que o homem foi destinado a ser expulso do paraíso, a crescer.
É por isso que o Reino é das crianças, ou dos que conseguirem nascer de novo.
Eu, que busco o mar nas coisas, outra coisa não faço que buscar nascer de novo.
Forte abraço, belíssimo texto!
Seu amigo,
Eric

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