quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CRISTIANISMO PAGÃO



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 “A religião pagã” diz o Packer, “aparece como um duro mercantilismo, um modo de negociar com seus deuses e manipulá-los, usando um astuto suborno”.

Li essa descrição que o Packer faz do paganismo, e, por um momento, achei que ele descrevia uma crescente mentalidade “evangélica”. C. R. Brandão fala dessa, cada vez mais predominante, "lógica mercadológica no campo religioso brasileiro”. 
A fé genuinamente evangélica é uma protestante e histórica. Isto é, crer na justificação do pecador, unicamente pela graça. Mas não só a justificação, a graça de Deus sustenta toda nossa existência e é, por assim, dizer, a norma que regula todo nosso relacionamento com Deus.
O cenário evangélico brasileiro, contudo, é composto, em grande parte, por igrejas que se afastaram do evangelicalismo histórico, e adentrou num sincretismo esotérico e pagão. Nele, a relação com Deus não é permeada pela Graça. Antes, a lógica é a da troca. A sua persuasão é convencer de que é vantajoso contratar com Deus. Quase uma burrice, não investir em Deus. E de fato, a linguagem é econômica: “contrato da fé”.
No trecho abaxio, o Packer fala um pouco mais sobre essa idéia pagã da divindade.

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O príncipe Páris havia raptado a princesa Helena de Tróia. Os expedicionários gregos levaram um navio para resgatá-la, mas foram impedidos no meio do caminho por um persistente vento contrário. Agamenon, o general grego, mandou buscar sua filha em casa e em uma cerimônia ofereceu-a em sacrifício para acalmar a evidente hostilidade dos deuses. Essa ação deu bom resultado, o vento este começou a soprar e a frota alcançou Tróia sem mais dificuldades.

Esta passagem da lenda referente à guerra de Tróia, que data de cerca de 1000 a.C, reflete uma idéia de propiciação sobre a qual a religião pagã em todo o mundo e em todas as eras foi construída. A idéia é a seguinte: Há vários deuses; nenhum deles tem domínio absoluto, mas cada um tem poder para tornar a vida mais fácil ou mais difícil. O temperamento deles é uniformemente incerto, ofendem-se com as menores coisas ou sentem ciúmes porque acham que você dá mais atenção a outros deuses e a outras pessoas, e o modo de impedir que você aja desse modo é criar circunstâncias que possam feri-lo.
A PROPICIAÇÃO NO PAGANISMO
A única coisa a fazer nesses casos é alegrá-los e acalmá-los com uma oferenda cuja regra é: quanto maior, melhor. Os deuses são inclinados a suspender sua ação por qualquer coisa de bom tamanho que se lhes ofereça. São cruéis e sem coração neste ponto, mas estão com todas as vantagens, então o que se pode fazer? O sábio se inclina ao inevitável e cuida para que sua oferta seja bem expressiva para produzir o resultado desejado. O sacrifício humano, em particular, é muito dispendioso mas eficiente. Assim a religião pagã aparece como um duro mercantilismo, um modo de negociar com seus deuses e manipulá-los, usando um astuto suborno. De acordo com a propiciação do paganismo, o aplacar da ira celestial acontece regularmente como parte da vida, uma das maçantes necessidades das quais não se pode escapar.


J. I. Packer, O CORAÇÃO DO EVANGELHO In: O conhecimento de Deus

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