quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Amor e o Tempo




Trechos do sermão de Vieirinha

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Refletindo sobre o trecho: “Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 31,1)” – O Pe. Antônio Vieira descreve ao Senhor como o “enfermo de amor”. O amor é uma enfermidade, e em Cristo ela é incurável. E é, essa mesma enfermidade dEle, a nossa saúde.

E, falando do amor como enfermidade, fala sobre alguns “remédios” contra essa enfermidade. Entre eles, o tempo. Diz ele:

“Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!”

O tempo remedia o amor, ou seja: combate-o, tende a eliminá-lo.

Continuando, diz ele:

“Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

Contudo, é este é o amor humano: falho e imperfeito: desgastável. É, nesses mesmos termos, exaltado o amor de Cristo: o amor irremediável - cujo tempo – e tudo o mais! - nada pode fazer contra. Diz:

“O amor perfeito, e que só merece o nome de amor, vive imortal sobre a esfera da mudança, e não chegam lá as jurisdições do tempo. Nem os anos o diminuem, nem os séculos o enfraquecem, nem as eternidades o cansam... Aquele que é amigo é-o em todo o tempo (Prov. 17,17), disse nos seus Provérbios o Salomão da Lei Velha; e o Salomão da Nova, Santo Agostinho, comentando o mesmo texto, penetrou o fundo dele com esta admirável sentença: Quis-nos declarar Salomão — diz Agostinho — que o amor que é verdadeiro tem obrigação de ser eterno, porque, se em algum tempo deixou de ser, nunca foi amor. Notável dizer! Em todas as outras coisas o deixar de ser é sinal de que já foram; no amor o deixar de ser é sinal de nunca ter sido. Deixou de ser? Pois nunca foi. Deixastes de amar? Pois nunca amastes. O amor que não é de todo o tempo, e de todos os tempos, não é amor, nem foi, porque se chegou a ter fim, nunca teve princípio. É como a eternidade, que se, por impossível, tivera fim, não teria sido eternidade”.

E, ao concluir o artigo, diz triunfando no amor de Cristo:

“Tão isento da jurisdição do tempo é o verdadeiro amor. Porém um tal amor, onde se achará? Só em vós, Fênix divino, só em vós. (...) “Em vez de o tempo diminuir o amor, o amor foi o que diminuiu o tempo”.
 

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