terça-feira, 15 de novembro de 2011

I - DEUS, O OUTRO



                                                              
Não existe isso de “o Deus dos cristãos”. O que há é Deus. Ele não é um Deus entre outros. Só há um. Ninguém jamais O viu. Dele não se pode fazer imagem. Ele fala, Ele revela-se: o fez nas Escrituras e em Jesus Cristo. Revelando-se, ainda permanece oculto. De modo que, quando não de todo, em parte não O conhecemos (I Co 13.9).
Mas entre os homens, há muitas imagens de Deus. Deus feitura: um ídolo. Um ídolo religioso ainda é um ídolo. E um ídolo filosófico – é preciso que se diga - é também um ídolo. Ídolo: feitura de mãos; ídolo: imaginado na mente. Ídolo!
O homem está preso ao homem. E dele não sai nada que não seja homem, isto é, pecado. É certo que do homem, não se pode chegar a Deus. Do homem, chega-se apenas ao homem, isto é, ao ídolo. Especular sobre o Outro é, por conseguinte, já pecar.
Deus é o Deus nas alturas, o Altíssimo. O Outro, inteira e Totalmente. E assim permaneceria se não fosse o Soberano da Graça. Não revelar-se, diria Kierkegaard, é a morte do amor.
Ele, Deus, é Altíssimo. Torre alguma da pretensão humana - filosófica, religiosa ou científica - jamais chegaria até Ele. Ele é o Caminho a Ele. E é O que quis se aproximar. É o Deus que se revela. “Deus conforme a Revelação cristã” – Esse Revelado nas Escrituras e em Jesus Cristo. A Este, não se chega por filosofia, e nem se poderia fazê-lo. A fé cristã O recebe. Ela não especula. Entende que sobre Esse Revelado, ou se aceita ou não. E é, ela mesma, o caminho do Caminho[1].
Em Cristo, nas Escrituras, pelo Espírito - conhecemos o Desconhecido. Mas a Filosofia desconhece o Desconhecido. Desconhece O quanto dEle desconhece: e é assim que está destinada a produzir ídolos - ainda que os chamem de “Deus”.
“Sabemos que Deus é o Deus que não conhecemos, e que esta ignorância é, simultaneamente, o nosso problema e a origem do nosso conhecimento” – diz Barth. Mas o contrário é o que poderia ser dito da Filosofia: a ignorância de saber que Deus é o Deus que não conhecemos é que é a própria Ignorância.
A Fé não se sujeita a Filosofia tão quanto o “Deus conforme a Revelação cristã” não está para ser explicado filosoficamente. Permaneça Deus, pois, para os gregos, como loucura. Um tanto mais – e originalmente, quanto estes empreendem devolver o pejorativo “loucura”.
Não há o que barganhar: não há trocas; a Fé, em nada, seria acrescentada. Não há explicações a serem dadas (não nos termos da Filosofia[2]). A fé é tanto Fé quanto é indiferente à Filosofia. Já negociar já seria – em algum grau – não ser Fé[3].
A Fé, definitivamente, não se submete. Cativo a essa Fé foi que Barth disse: “Minhas experiência pessoal com filósofos é que eles me notaram e, um pouco forçados, me respeitaram na medida em que eu pude dar-lhes uma demonstração prática de que, como teólogo, não me sinto na obrigação de dar satisfações a nenhum deles”.
No máximo, sendo generoso, e tendo-se em mente unicamente o ethos[4] prevalecente no mundo, a Filosofia seria, grosso modo, para alguns poucos, um Aio à Fé[5].
Concedamos, o “Deus” dos filósofos é um ídolo na mesma medida em que não é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Ou seja, na medida em que é o Deus que se Revela, Ele não é uma construção humana. Dele, se pode apreender algo de verdadeiro[6].
Não sem razão, Paulo diz “Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas”. Mas leia-se antes: “Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou”. Ou seja, são apenas “claramente vistos” porque “Deus lhe manifestou”, isto é, revelou-se.
Concede também Barth: “Quando se especula bem, chega-se a idéia de Deus, e a sua pergunta”.
Em Romanos 1.19-20, conquanto que o texto afirme sobre a manifestação do Deus invisível, na Sua criação visível, diz também da insubmissão humana. E esse é o ponto. A insubordinação também é permanecer na insuficiência desse conhecimento, em que estão todos que não acolhem o Dom de Deus.
A razão deve, nessa luz mínima, submeter-se à Fé. E a sua não subordinação é um contenção da verdade (Rm 1.18). Lutero sintetiza: “Em sua esfera legítima, a razão é o mais elevado dom de Deus, mas no momento em que excede para a teologia, torna-se a ‘prostituta do diabo’”.
Os insights são legítimos. É só quando insistem (ou se acomodam) no Deus-Hipótese é que permanece sobre eles a ira de Deus, culpando-os pelo “modo de ser que não aceita a graça de Deus em Jesus Cristo”. É assim – e só assim, que afirmamos um conhecimento natural de Deus[7], que é, também ele, um convite à Revelação de Deus em Cristo, desde sempre exaltado na criação. Não há esse conhecimento ‘natural’, sem este convite. Pois a Revelação de Deus impõe uma subordinação. “Tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus”.
À parte dessa Revelação ativa de Deus, alheios à Palavra, ou sem que se convirja para Jesus Cristo, não há que se falar de conhecimento natural de Deus. Em todo caso, fala-se apropriadamente da insubordinação do que rejeita o conhecimento de Deus.
Especula bem – em sua liberdade, e sem pecado, o que especula sobre o que não alcança. Especular, pois, quando nos é Revelado, é pecar contra a Graça. Posto que claro fica que amam mais as suas construções, que o Deus que É. “Nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” – diz Paulo. E mais profundamente: amando suas construções é que amam a si mesmos. Exaltando-as é que se exaltam. Mostram assim que não é a Deus que buscam. E é por isso que, especulando, não O encontram. Assim estabeleceu Deus. Esbarram no ídolo, e assim o querem. O ídolo é a sua própria elevação, o seu degrau para cima. O homem que é “Deus” de si, diz Barth, “precisa criar o ídolo [para representar a sua criação] pois, elevando o ídolo em honra, honrar-se-à a si mesmo como criador da [tão honrada] imagem [e portanto digno de honra ainda mais alta]”. “Adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador”.
A história da filosofia é a história dessa pretensão humana, mais que em qualquer outra manifestação desta pretensão, religiosa que seja! Ei-la:


Gênesis 11

1    Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2    E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3    Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa.
4    Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5    Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6    e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7    Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8    Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9    Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra.

Novamente: a história de “Deus” na filosofia é, também, a história da idolatria humana. “Porque pela filosofia sois salvos, por meio da especulação; e isto vem de vós, e não é dom de Deus”.
A 'torre’ é o tamanho da pretensão: “até os céus”. É o diagnóstico do seu quadro geral - não restrito ao dogmatismo filosófico racionalista nem à metafísica. É antes, o pecado original da Filosofia.
Há, em qualquer de suas correntes, uma tentativa ilegítima de extrapolamento e uma projeção pecaminosa: o domínio da verdade. E é um estado pecaminoso que não se cura sendo agnóstico[8]. Sendo, este mesmo, tão filosoficamente pretensioso quanto qualquer dogmático, só que mais convicto, menos honesto, mais indiferentemente preguiçoso, mais um sentir (frustração), do que uma idéia. Tão filha do dogmatismo quanto mostra repugná-lo.
Foi sobre todos estes, o decreto do Altíssimo: “chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra”. De modo que foram condenados a não se entenderem. Uníssono, do areópago, se houve: Legião é meu nome, pois somos muitos.
Não chegaram até o céu, mas não souberam medir bem a distância. De modo que, entre alguns dessas línguas espalhadas, o Projeto Babel nunca morreu.
Em outras regiões, a língua era outra. Não queriam mais construir uma torre para o céu. Ou porque acham que ele não existe, ou porque já acham estar no céu. “Não há o que subir. Não há nada acima”.
É assim que, de qualquer modo, ou com uma torre que nos una ao céu, ou quando o lugar mais alto é aqui, é que “Enfiamo-nos para junto dele [de Deus] atrevidamente e, assim procedendo o projetamos para a nossa proximidade. ... Ouvimos, primeiro, a profecia: ‘Sereis como Deus!’. Depois perdemos o senso do eterno. Primeiramente sobre-elevamos o homem e, em seguida, menosprezamos a distância que nos separa de Deus” (BARTH).
Muitas são as línguas, muitos são os seus céus, muitas são as suas torres[9] (construções metodológicas), mesmo é o pecado. E em nada tudo isso muda o fato de que o céu é sempre mais ali, inalcançável. E Deus, o Totalmente Outro.
Deus permanece Inalcançável. E não observa com neutralidade. Na Grécia, por certo, haveria de ter muitos altares. Deus os confunde[10].
Essa é a ira de Deus: Deus os abandona em suas pretensões. Isto é, Deus se esconde. “Querendo aparecer a descoberto aos que o procuram de todo o coração, e oculto aos que o evitam de todo o coração, tempera seu conhecimento, de sorte que deu marcas de si visíveis aos que o procuram e obscuras aos que não o procuram”(PASCAL).
É Barth quem fala sobre a verdade da limitação e anulação do homem pelo Deus desconhecido: “Ao deparar com a nossa limitação e com o fato de que quem nos cerceia é também quem suprime esse cerceamento, o raciocínio humano, desde a sua forma mais primitiva até a sua forma mais elaborada, cairá, repetidamente, em ‘desesperadora humildade’ e na ‘ironização da inteligência’”. Plutarco, diz, sorrindo, que, em Atenas, havia mais deuses do que homens.
A experiência de Babel deveria ser suficiente para que, de uma vez por todas, se soubesse da descontinuidade entre o divino e o humano. Deus é o Outro, inteira e Totalmente. “Deus é o Deus desconhecido […]. É Deus quem estabelece o relacionamento, não havendo caminho que se dirija da terra para o céu” – diz Barth.
O Deus que inviabiliza os outros caminhos – os nossos próprios, é, Ele mesmo, a Torre até o Céu, o Pontífice[11]. O Inalcançável: à Ele, por fé, pela graça: quando Ele se disponibiliza. Não há outro caminho. Sem Deus, ninguém vai até Deus. Todas as construções da filosofia e das religiões são pontes e torres destinadas ao não-céu.
"O conteúdo da Bíblia não é constituído de modo algum pelos corretos pensamentos humanos a respeito de Deus, porém pelos exatos pensamentos de Deus a respeito do ser humano. Na Bíblia não consta como nós devemos falar de Deus, porém o que ele nos diz, não como nós encontramos o caminho até ele, mas como ele encontrou o caminho até nós" (BARTH). 
“A Deus ninguém o viu jamais: o Filho único, que está no seio do Pai, Ele nos revelou” (Jo. 1,18). Jesus Cristo é Deus em sua manifestação ao ser humano. “Ao falarmos de Deus, nós precisamos imediatamente pensar em Jesus Cristo. Sem o qual Deus seria um outro, um Deus estranho; de acordo com o conhecimento cristão, ele nem seria Deus.” (BARTH).         



Leia a Parte 2: AQUI!
Leia a Parte 3: AQUI!


[1] Ou um caminho do Caminho? Ou o melhor caminho do Caminho?
[2] Alguns Pais, muito apropriadamente, defenderam a Fé de algumas acusações consideráveis (como a de imoralidade). Outros, comprometeram-se com àquilo para o qual não ser indiferente, já é errar.
[3] Isso tem muito pouco haver com o que a Filosofia se pretende dona da patente. Por exemplo: a razão humana.
[4] Espécie de síntese dos costumes, um valor de identidade social.
[5] Como a Lei foi para a Graça.
[6] Não independentemente de Deus.
[7] Sem autonomia, com protagonismo do Deus Soberanamente Livre para se Revelar pelos meios que julgar que deve, e, enfatizando-O como Agente indissociável da Revelação: qualquer que seja.
[8] Na falta de luz, o agnosticismo é até justificável e não pecaminoso. Porém, quando Deus revela-se, não se pode dizer ainda: “não posso saber”. Isso também é rejeitar a Graça.
[9] Meio de se alcançar o “céu”.
[10] Um “Deus” segue-se a outro. É concebido, e já não é. A mente humana diz se ele existe ou não. É conceitual. É demonstrável. É provado. É defensável. É o melhor da mente, isto é, o melhor que, em nosso pecado, produzimos. Este não é “O” Outro, é “Um” Outro, um ídolo.
[11] Construtor de pontes.

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