terça-feira, 15 de novembro de 2011

III - O CONHECIDO DESCONHECIDO






O Conhecido desconhecido

- o nosso desconhecimento do Conhecido



Deus! Ao dizermos Deus, não sabemos o que dizemos e quem verdadeiramente crê, compreende essa afirmação pois, quem crê ama, como Jó, ao Deus que em sua inacessível altura só pode ser temido [mas não pode ser observado, apalpado ou visto se não pela fé]; quem crê ama, como Lutero, ao Deus ABSCONDITUS.
BARTH

Sabemos que Deus é o Deus que não conhecemos, e que esta ignorância é, simultaneamente, o nosso problema e a origem do nosso conhecimento.
BARTH

“Deixem Deus ser bom”, clamava Erasmo. “Deixem Deus ser Deus”, replicava Lutero.


O Paradoxo da Revelação de Deus em Cristo é esse: totalmente humano – e por isso comunicável, mas também ainda totalmente Deus.
Conquanto ele seja “imagem do Deus invisível”, sobre ele prevêem os profetas: “não se pensará que seja ele ... será uma pedra de escândalo contra a qual muitos se chocarão”.
Conquanto nele habite a plenitude da divindade (Col 2.9), há ainda que se falar em um desconhecimento. Pois, mesmo revelando-se, em parte não O conhecemos (I Co 13.9).
Lutero foi quem falou sobre o Deus Revelatus (Deus revelado) e, a despeito deste, sobre um misterioso Deus, o Deus Absconditus (Deus oculto). “Em algumas passagens ele até fala do Deus Revelado como ainda um Deus Oculto, em vista do fato de que, mesmo através da Sua revelação especial, não podemos conhecê-lo plenamente” (OLSON).
Não a despeito do Mistério, mas em sua consideração é que se considera que talvez não se possa dizer de forma absoluta: não existe o Deus não reconhecido em Jesus.
Este era o problema para Lutero: Deus decide se revelar de modo soberano sob uma forma contrária à Sua[1] (na humanidade de Jesus Cristo). E ainda sobre essa condescendência de Deus em sua auto-revelação, pergunta-se: Como Deus pode ser Deus e passar por tudo isso?

Olson explana bem isso:

“O sentido mais enigmático da qualidade oculta de Deus tem a ver com a afirmação de Lutero de que alguma forma, além da auto-revelação de Deus no evangelho existe um poder misterioso quase totalmente desconhecido pelos seres humanos. Deus se revela em Jesus Cristo como irmão e amigo amoroso e, no evangelho, como graça e misericórdia. No evangelho, Deus é só compaixão e bondade perfeita, sem o menor indício de arbitrariedade ou capricho. Deus está “a nosso favor”. Este é o único lado ou aspecto de Deus do qual devemos nos ocupar. O Deus revelado pelo evangelho opõe-se ao pecado e ao mal e procura vencê-los derrotando o pecado, a morte e Satanás por meio da cruz. Deus a nosso favor no evangelho é a nossa única função na proclamação. Segundo Lutero, devemos dirigir a nossa atenção a esse Deus, que é muito semelhante ao pai disposto a perdoar na parábola de Jesus sobre o filho pródigo.
Ainda que de modo paradoxal, Lutero queria nos avisar que esse não é o único aspecto de Deus. Por trás do Deus que nos espera, com rosto sorridente e braços estendidos, encontra-se o Deus oculto, obscuro, misterioso, com poder para determinar tudo, que é a causa de todas as coisas boas da natureza e da história. Embora essa força divina e obscura tenha pouca relação com a mensagem do evangelho, Lutero a apontava como o contexto necessário para a toda a história. Absolutamente nada pode existir ou acontecer que não faça parte diretamente do plano e causalidade de Deus. Nesse ponto, o monergismo vai além até de Agostinho: “O diabo é o ‘diabo de Deus’”. Deus opera tudo em todos, até mesmo em Satanás e nos ímpios e por meio deles. “Devemos saber, portanto, que, em todo mal que nos acontece, é o próprio Deus que opera por meio de seus instrumentos”. (...) Uma idéia tão terrível como essa parece contrária ao evangelho, mas é inevitável. (...) Sem a menor intenção de esclarecer as contradições aparentes dessa doutrina, Lutero simplesmente falou do aspecto oculto de Deus e conclamou os cristãos a reconhecê-lo, sem deixar de manter o enfoque na auto-revelação de Deus em Cristo”.

É uma inevitável do Paradoxo: e não é tema do evangelho, que é o poder de Deus para Salvação. Nesse contexto, não se pode ser mais categoricamente convincente: quem crê, ama como Jó, ao Deus de Jó. É o que a Fé cristã tem a dizer juntamente com o Judaísmo. E é onde ela estaria, não tivesse o Verbo se feito carne.
Agora, sem negar o Deus Absconditus, é que talvez melhor se entenda a já citada frase do Barth: “Ao falarmos de Deus, nós precisamos imediatamente pensar em Jesus Cristo. Sem o qual Deus seria um outro, um Deus estranho; de acordo com o conhecimento cristão, ele nem seria Deus.” Porque Deus é Absconditus que Jesus é Único Caminho[2].
Ele é o Caminho que, com Deus, chegamos a Deus. E O conhecemos. Subestimar isso, proclamar o Oculto a despeito do Revelado[3], é também um outro modo de não aceitar a graça de Deus em Jesus Cristo. Fé é enxergar na luz que nos foi dada. “As coisas encobertas” – diz as Escrituras, “pertencem ao Senhor nosso Deus”.
O Totalmente Outro é o que se fez conhecido em Jesus. “Quem vê a mim, vê o Pai” - disse Jesus. Retratando-se de seus rigores já não tão necessários, num artigo sobre a humanidade de Deus, Barth escreve: “Quem e o que Deus é, justamente isto, em especial, é o que devemos reconhecer melhor e com mais exatidão na nova reviravolta necessária do pensar e falar evangélico-teológico, olhando retrospectivamente para aquela reviravolta anterior. Entretanto, se hoje quisermos chegar a uma resposta melhor, a nossa pergunta tem que ser: quem e o que é Deus em Jesus Cristo?”. E se propondo a responder, diz “Ele é, muito antes, sua liberdade ... de se impor mas também de se entregar, de ser bem elevado mas também bem baixo, de ser não só todo-poderoso mas também misericórdia onipotente, não só senhor mas também servo, não só juiz mas também, ele próprio, o julgado, o eterno aí do ser humano mas também seu irmão no tempo. Tudo isso sem nada perder de sua divindade! Pelo contrário, tudo isso justamente na maior confirmação e manifestação de sua divindade!”.
A resposta de Jesus é: como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces?

Leia a Parte 1: AQUI!
     Leia a Parte 2: AQUI!



[1] Deus escolhe o que lhe é alheio e até mesmo o que é profano (o abandono de Jesus Cristo por Deus na cruz, porque Jesus levava sobre si os pecados do mundo) para ir de encontro à humanidade.
[2] É porque Ele foi revelado que, sendo Deus – e não sendo completamente comunicável à mente humana, que O sabemos como Absconditus.
[3] Que é o que o Calvinismo faz. Catequizando sobre Este oculto. 

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