terça-feira, 15 de novembro de 2011

II - O DESCONHECIDO CONHECIDO






O Desconhecido conhecido

– o nosso conhecimento do Desconhecido


Tu Não És Como O Tenho Imaginado

Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.
Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.

Thomas Merton



O Deus segundo as Escrituras é Aquele que, Livre, utilizou-se da linguagem humana para comunicar-se. Contudo, não está legado à mente humana, em um livro. A revelação precisa ser revelada. A letra mata. Pois sem Revelação, a revelação ainda usa véu. Deus é ativo, revela-se a Si mesmo na e através da Bíblia. E enviou o Seu Filho, que se tornou um de nós. Jesus é a linguagem viva. É o Verbo de Deus na forma humana. É Emanuel, Deus conosco. Ele é a “imagem do Deus invisível”. Entretanto: sem aquela bem aventurança, do Pai que está no céu, e que Se revela (Mateus 16.17), ninguém chegaria aí. Carne e sangue algum, jamais, alcançaria[1].
O Verbo, em algumas situações, chora sua “impotência”. Quem, pois, chorava? Não é o Pai que chora, e sim, o Filho que se tornou homem. O Pai não se limitou, não nasceu entre os homens, não morreu na cruz. É uma sutileza do paradoxo da Revelação de Deus.
Os Calvinistas, comprometidos mais filosoficamente que biblicamente[2], dizem em sua tranqüilidade: foi o Jesus homem que chorava. E a questão acaba aí, na imobilidade de Seu ídolo imóvel e impassível.
Mas tal especulação [sobre o Imutável e o Impassível] não pode ser uma verdade sobre a natureza de Deus? Pode. Quem o saberá? Conquanto a Bíblia afirme a imutabilidade de Deus, de modo algum, Deus se revela como impassível. Esse não é o Emanuel. Aquelas lágrimas (“Jerusalém, Jerusalém” Mateus 23.37), em nome de que filosofia se anulará?
O Deus em Jesus é o Deus que se revela “como quem chora”. É solidário. E ativamente misericordioso. Não há da parte Dele, absolutamente, indiferença alguma. Ele conta até os fios de cabelo de nossa cabeça!
Nas lágrimas de Jesus, conquanto não sabemos se lágrimas de Deus, sabemos que, em lágrimas, Deus comunica Sua compaixão e solidariedade. Sua não Indiferença. Se Deus, o Pai, realmente chora? Essa é uma pergunta da presunção filosófica, a qual Deus não atenta. Deus não alimenta a presunção, ele a desfaz[3]- abatendo os altivos e elevando os humildes.
Esse Deus é achado dos pequeninos, e se esconde dos especuladores. É certo que com especulação ninguém agrada a Deus[4]. Isso só é feito com fé. Ele é achado dos que O buscam de coração. Especulação, contudo, não é o que a Bíblia quer dizer por busca.
O problema do Calvinismo é que não se opôs suficientemente ao escolasticismo, sendo ele mesmo, um de seus filhotes. Herdando a ‘maldição’ lógica de Aristóteles, em nome de uma suposta exaltação do poder de Deus, é que O tornam domesticável e, portanto, fraco. A Bíblia pergunta: quem conheceu a mente do Senhor? Os Calvinistas, com o Livro-Deus aberto, riem com ‘sensação eleita’[5]. Calvinismo é a presunção escolástica escondida por trás de uma Bíblia. Calvinismo é Deus no divã. Psicanalisado, dissecado. É a especulação prevalecendo pela fé. Esse ‘Deus’ é o “Totalmente no Livro”. O “Totalmente na mente”. Não é o “Outro” suficientemente. Não é misterioso suficientemente[6]. Esse é o NÃO-Deus. Como também o é, qualquer “Deus” encontrado. Como o é qualquer outro “fora de Jesus”. Senão veja.
Diz um Calvinista: “O inferno glorifica a Deus. Como? Simples: tudo glorifica a Deus. Tudo. Portanto, o inferno também O glorifica. E devemos nos alegrar com a glória de Deus. Logo, o inferno deve nos alegrar”.
Este, não reconhecível em Jesus, é o ‘Deus’ dos calvinistas.
São assim: duvidam muito pouco de suas deduções. Idolatram a lógica[7]  e, com isso, de uma vez só, superestimam a mente humana, subestima uma de suas doutrinas (Depravação total e, em especial, os efeitos noéticos do pecado), blasfemam da revelação, se mostram filosoficamente escolásticos. Deveriam ouvir isso: “Fora de Jesus, não encontrariam Deus, mas um outro”. E se, verdadeiramente através da Bíblia, não teriam como encontrar um outro senão o Deus em Jesus. Ao qual ninguém vai se não por Jesus. Não há alternativas.
Deus, Deus mesmo, é indomesticável. Dele, não é permitido que se faça qualquer figura ou imagem[8]. Quem alcançaria os Seus pensamentos? Ele não cabe em livros e nem na Lógica. Como diz Kierkegaard: o Deus que se fez homem, totalmente Deus e totalmente humano, é o Paradoxo Absoluto. Lógica alguma alcançaria. Finitude alguma.
Revela-se, contudo, nas Escrituras e em Jesus, por graça, pela fé. Pela fé O conhecemos, mas O conhecemos em parte. Porque vemos em parte. O Deus que se Revela ainda é o Desconhecido. Ou Absconditus. Pascal diz: “Que dizem os profetas de Jesus Cristo? Que ele será evidentemente Deus? Não: mas que ele é um Deus verdadeiramente oculto; que será desconhecido, que não se pensará que seja ele; que será uma pedra de escândalo contra a qual muitos se chocarão, etc”.
Aprouve a Deus, o “Eu Sou o que Sou”, ser também o “Deus de Jacó, de Isaac, de Abraão”. Ele, certamente, é o Deus de Abraão, mas o é sendo também “um Outro”. Deus não é apenas como se revela, mas é ao que Ele revela sobre Si, que temos que nos apegar. Isso é Fé, a que especulação alguma deve ser acrescentada, sob pena construir um ídolo. “O Deus eterno deve ser conhecido em Jesus Cristo e não em outro lugar” (Barth).
Calvino cita: “as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que observemos todas as palavras desta lei”. Mas não soube ele, dos limites dessa fronteira. Andou muito calmamente em terrenos proibidos. Persiste a advertência do Barth: “e não em outro lugar”[9]. E da própria Escritura: “as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus”.
A Bíblia não é serva do dogma. E não se equivalem. “Nós não somos os juízes da fé, mas os servos felizes” - relembra Moltmann. A Bíblia não é a planta, enviada por Deus, para a construção da torre até o céu. Ela não é a legitimidade ou permissão para se construir tal torre. Antes, é o atestado definitivo de tal impossibilidade.
Outra relação com Deus que não aquela do caminho de Jó, não existe. Jó que conhecia Deus[10]; conhecendo-O mais ainda, conhecia-O como Desconhecido: Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem.

Leia a Parte 1: AQUI!
Leia a Parte 3: AQUI!


[1] Mesmo com o Livro em mãos.
[2] Embora se pretendam biblicamente (até reivindicam exclusividade).
[3] Ver Jó 38.
[4] Novamente: Mesmo aqueles com Bíblia na mão.
[5] Chegam ao ponto de ficarem à vontade para “decidirem” quais os primeiros decretos de Deus.
[6] Estou cônscio de que Calvino escreveu sobre isso.
[7] Sentem-se irresponsavelmente livres para dizer que: No Princípio era a Lógica. E a Lógica estava com Deus. E a Lógica era Deus. Outro diz: a lógica, logicamente, precede Deus.
[8] Êxodo 20.4.
[9] Citação completa acima.
[10] Ver o que é dito dele pelo próprio Deus – Jó 1.8.

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