sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Evangelho nos Salva do tédio





O Evangelho nos Salva do tédio

– O Eclesiastes à Luz do Evangelho


O livro escriturístico de Eclesiastes é um livro sapiencial, de sabedoria. Sabedoria existencial - àquela adquirida de vivências e experimentações. Não obstante, quase sempre é tardia. “Experimentado” certamente é um adjetivo que se possa qualificar com propriedade o seu escritor. Assim, o Experimentado diz que não há novidade nessa existência de ciclos: o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.

Esse ano que adentra, certamente, será igual ao que passou. Pois a existência é rotina.

Ano novo, homem velho.

Velho em seu pecado – que é velho como sua condenação. “Nós pecamos” – diz Chesterton – “e nosso Pai é mais jovem do que nós”. O pecado envelheceu a alma do homem, tirando seu apetite e vivacidade.

O homem - este mesmo de sempre, está desprotegido, e logo choverá:

“Não há guarda-chuva contra o tédio:
o tédio das quatro paredes,
das quatro estações,
dos quatro pontos cardeais”.

João Cabral de Melo Neto

Ano mesmo, homem velho, homem em tédio.

O tédio é a condenação do homem.

Ao longo da história bíblica o homem jamais foi privado da experiência do tédio. O que de novo havia era o fator inspirativo da Promessa. O termo da Promessa era o Poder e o Caráter Fiel do Prometedor. Ele prometia dias melhores, e renovo:

Naquele dia, o Renovo do SENHOR será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno para os de Israel que forem salvos.

As aspirações pelas Promessas eram, pois, a cura para o tédio do homem, e o motor para que vivessem em esperança. Só um Poder de fora, um Poder Criativo, seria capaz de quebrar o ciclo e de soprar a novidade sobre o mundo dos homens:

Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra.

O Experimentado ateve-se ao horizonte. Ele quase não olha para cima, apenas para o homem em si mesmo. E o que ele encontra não poderia ser senão tédio. A Esperança não tem haver com o homem, e suas produções: não pode ser fabricada.

Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.

A Esperança tem haver com eternidade - o mesmo Experimentado reconhece, embora não tenha dado os termos da Esperança. Mas o que para o Experimentado era um insight, no Evangelho era um chão comum. A Esperança e a vida por Fé, no Evangelho, ganha substância e corpo. O Evangelho é uma sobreposição – e um pouco mais. No Eclesiastes, o homem em si mesmo, se enxerga como desespero. No Evangelho, a Alegria da Graça, em cada medida de necessidade da alma humana, superabunda.

O Experimentado fez a pergunta, fez induções da experiência comum dos homens. E, em seu horizonte, só viu condenação. Viu que tudo o que há é um grito por Salvação.

O Eclesiastes é o homem, se vendo a partir de sua condenação em forma existência tediosa. O Evangelho é a Boa Novidade de Deus. Um frescor - é o fundamento da Esperança. É Salvação dos ciclos, das relações de causa e efeito, das leis da reciprocidade. O Evangelho é o Renovo, é o Poder de Deus para Regeneração da existência dos homens: é o Poder da Re-criação de Deus.

O Evangelho é tudo o que o homem queria e precisava.

O Evangelho é o fundamento exclusivo da existência esperançosa.

No Eclesiastes, o grito por Redenção tem reclamações específicas: o absurdo, o vazio, a fugacidade, a injustiça que, daquela perspectiva, era tudo o que se via.

O Experimentado protesta sua constatação, como quem exigia que, para ser o contrário, deveria que se ter um poder para vencer o absurdo da morte, da finitude e da fugacidade da existência. Algo como o poder de uma Ressurreição.

O Evangelho é, pois, Vida. E sob a Luz da Ressurreição – se vence os medos e os condicionamentos do Cronos.

Deveria haver – reclama ainda - uma Lei mais abrangente, que justificasse a insuficiência da Lei das Causas e Efeitos como compreensão de Justiça.

E o Evangelho se revela como Plena Gratuidade.

Deveria que se ter Alívio para os fardos da existência.

E o Evangelho se revela suave e doce.

Deveria – em fim, que haver um Significado, que justificasse a aparente vacuidade (vaidade) de tudo.

E, no Evangelho, o Pai é o tecelão, fundo do fundo, Realidade de realidades, de onde tece – com linhas de Amor e Sangue, a história de Seu encontro.

O Evangelho inverte os fundamentos da existência. Com muita razoabilidade, se aceita que o Experimentado escritor de Eclesiastes seja o Rei Salomão - a insígnia da Sabedoria. E diz-se que essa seria sua obra tardia, fruto da velhice. A este, é que diz o Evangelho: “nem mesmo Salomão...” - o “sábio dos sábios”, “no ponto áureo da sua maturidade” visualizou com o gozo devido o caminho da esperança proposta.

O Evangelho do Reino despiu o maior nascido de mulher, despe, também, o sábio dos sábios. Ele diz:

Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.

No Reino, qualquer pequenino a quem o Pai se revela, é mais sábio que Salomão.

A Boa-Novidade é algo que habita no coração crente:

Aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória.

Para quem é habitado pela Boa-Nova todo ano é bom, e novo. A Boa Nova, nunca é fato passado. “Ele vive!”. A Boa Nova nos renova na alegria da Esperança e na certeza da Fé de que já vencemos as antigas mesmas moléstias da existência.

Eric Brito, 
Itabuna-BA, 30 de Dezembro de 2011

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