quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PAPO DE BÍBLIA - PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO ENTRE OS JUDEUS






PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO ENTRE OS JUDEUS[1]

A fim de apresentar algo completo, incluiremos um breve resumo dos princípios que os judeus aplicavam à interpretação da Bíblia. Devemos distinguir as seguintes classes:


1. OS JUDEUS DA PALESTINA. Estes tinham um profundo respeito à Bíblia como a Palavra infalível de Deus. Até suas letras eles consideravam como sagradas e seus copistas tinham o costume de contá-las, o que não significa que não esquecia alguma na sua transcrição. Ao mesmo tempo, tinham a lei em maior estima que os Profetas e os hagiógrafos[2]. Por isso que a interpretação da Lei fora seu grande objetivo. Distinguiam cuidadosamente entre o sentido meramente literal da Bíblia (tecnicamente chamado peshat ) e sua exposição exegética (chamada midrash). «O motivo e traço dominante do midrash era investigar e elucidar, por todos os meios exegéticos, todo possível significado oculto e aplicação prática da Escritura». Em sentido geral, a literatura midráshica pode ser dividida em duas classes:

(a) Interpretações de caráter legal, referentes a assuntos em que a Lei obrigava em um sentido estritamente legalista (Halakhah);

(b) Interpretações de uma tendência mais livre e edificante que se estendiam às partes não legais da Escritura (Haggadah). Esta última era mais homilética e ilustrativa que exegética.

Um dos grandes defeitos da interpretação dos escribas é que exaltava a lei oral (a qual, em última instância, era idêntica às interpretações dos rabinos) como apoio indispensável da lei escrita, a qual finalmente terminou por permanecer ao lado da lei escrita. Isto deu lugar a toda classe de interpretações arbitrárias. Veja-se o veredicto de Cristo sobre o particular em Marcos 7:13.
Hillel, um dos maiores intérpretes entre os judeus, nos deixou sete regras de interpretação pelas quais, pelo menos na aparência, a tradição oral poderia ser deduzida do texto da Escritura. Segunda sua versão mais breve, estas regras são as seguintes:

(a) leve e pesado (isto é A minori, ad maius[3], e vice-versa);
(b) equivalência;
(c) dedução do especial ao general;
(d) inferência deduzida de várias passagens;
(e) inferências deduzidas do geral ao especial;
(f) analogia de uma passagem com outra; e
(g) inferência adquirida do contexto.


2. OS JUDEUS DE ALEXANDRIA. A filosofia de Alexandria determinava em certo grau sua interpretação. Adotaram o princípio fundamental de Platão de que não deve crer-se nada que seja indigno de Deus. Portanto, cada vez que encontravam no Antigo Testamento coisas que não concordavam com sua filosofia, ou que ofendiam o sentido do decoro, recorriam a interpretações alegóricas. Filón foi o maior mestre deste método de interpretação entre os judeus. Não descartou de todo o sentido literal da Escritura, mas via como uma concessão aos débeis. Para ele só era símbolo de coisas mais profundas: O sentido oculto da Escritura era o mais importante. Também ele nos deixou alguns princípios de interpretação. «Pelo lado negativo, afirma que deve rejeitar-se o sentido literal quando a Escritura afirme qualquer coisa indigna de Deus, qualquer afirmação que implique uma contradição, e quando a Escritura mesma alegorize. Pelo lado positivo, assiná-la que devemos alegorizar o texto bíblico quando há expressões dobres, quando ocorrem palavras supérfluas, quando há uma repetição de fatos já conhecidos; quando se emprega uma expressão diferente, ou um sinônimo; quando se faz possível um jogo de palavras em qualquer de suas variedades, quando as palavras admitem uma leve alteração; quando a expressão é inusual; quando há algo anormal em número ou tempo verbal». Estas regras, naturalmente, davam lugar a toda classe de malas interpretações.


3. OS CARAÍTAS. Esta seita, designada por Farrar como «os protestantes do judaísmo», foi fundada por Anan ben David, cerca de 800 d.C. Com respeito a sua característica fundamental, podem ser considerados como os descendentes espirituais dos saduceus. Representavam um protesto contra o rabinismo que estava em parte influenciado pelo mahometismo. A forma hebraica da palavra «caraíta» é Beni Mikra, ou seja, «filhos da leitura». Eram assim chamados porque seu principio fundamental era considerar a Escritura como única autoridade em assuntos da fé. Isto significa que, por um lado, desdenhavam a tradição oral e as interpretações rabínicas, e, por outro, que faziam um novo e cuidadoso estudo do texto da Escritura. A fim de refutar-lhes, os rabinos empreenderam um estudo similar e o resultado deste conflito literário foi o texto Masorético. Sua exegese foi, em geral, muito mais sólida que a dos judeus da Palestina ou de Alexandria.


4. OS CABALISTAS. Este movimento do século XII foi bastante diferente. Representa o reductio ad absurdum do método de interpretação empregado pelos judeus da Palestina, ainda que também empregassem o método alegórico dos judeus alexandrinos. Procediam baseados no suposto de que toda a Masorah, até os versículos, palavras, letras, vocábulos, pontos e acentos, foram dados a Moisés no Monte Sinai, e que o número de letras, cada uma das letras, sua transposição ou substituição, teria um poder especial e sobrenatural. Em seu afã de decifrar os mistérios divinos, recorreram aos seguintes métodos:
(a) A gematria[4], segundo a qual podiam substituir uma palavra bíblica por outra que tivesse o mesmo valor numérico;

(b) O notarikon[5], que consistia em formar palavras pela combinação de letras que começavam e terminavam algumas palavras, ou considerando cada letra uma palavra como letra inicial de outras palavras;

(c) A Temurah[6], cujo método consistia em retirar novos significados do texto, intercambiando letras.

5. OS JUDEUS DA ESPANHA. Desde o século XII ao XV se desenvolveu um método mais sóbrio de interpretação entre os judeus da Espanha. Quando a exegese da Igreja cristã estava em seu mais baixo nível e o conhecimento do hebraico se havia quase perdido, uns poucos judeus cultos da península ibérica restabeleceram a luz no candelabro. Algumas de suas interpretações são citadas até hoje em dia. Os principais exegetas entre eles foram Abraham Ben-Ezra, Salomón Izaak Jarchi, David Kimchi,
  



[1] Traduzido do livro Principios de Interpretacion Biblica, Louis Berkhof.
[2] Hagiógrafo - Autor que narra a vida dos santos. Diz-se dos, ou os livros da última das três grandes divisões hebraicas do Velho Testamento, após a Lei e os Profetas, que compreende os Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.
[3] É uma forma de argumentação jurídica que estabelece que o que é proibido ao menos é, necessariamente, proibido para o mais.
[4] Gematria ou Guematria é o método hermenêutico de análise de palavras, atribuindo um valor numérico definido a cada letra. 
[5] A palavra Notariqon deriva-se do latim "Notarius", escrita resumida. Existem duas formas de Notaricon: na primeira forma, todas as letras de uma palavra qualquer torna-se a inicial ou abreviação de outra palavra, assim das letras de uma palavra, uma sentença será formada. 
[6] Temurah ou Temurá significa Permutação. De acordo com certas fórmulas, uma letra é substituída por outra precedente ou seguinte no alfabeto, desta forma outra palavra de ortografia totalmente diferente da primeira é formada. 

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