quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Paz que engaja





Uma pessoa, comentando sobre um perfil evangélico notadamente dinheirista, me mandou a seguinte mensagem.

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Eric,
O maior problema é de achar que a felicidade só será encontrada quando tivermos MUITO dinheiro...
Huberto Rohden, em O Sermão da Montanha, comentando a passagem - "Bem-aventurados os pacificadores", escreve:
"Quanto maior é o ser de uma pessoa, menor é o seu desejo de ter; e, como toda a falta de paz nasce do desejo do ter, e ter cada vez mais, é lógico que o homem que reduziu ao mínimo o seu desejo de ter, não tem motivo para perder a paz."
É lógico que trabalho para me sustentar e querer ganhar dinheiro, mas nunca me vi, desesperada, a ponto de procurar uma igreja pedindo que alguém intercedesse por mim, para me fazer rica! E olhe que já passei por momentos muito, mas muito difíceis em minha vida, mas jamais perdi a minha paz. Sabe por quê? Porque nunca pedi a Deus dinheiro, casa, carros, jóias, etc... todas as vezes em que me ajoelhei, foi para agradecer o que Ele estava me dando "naquele momento" porque o que Ele colocava à minha disposição, era o que era necessário para mim naquela hora...
Vou continuar procurando SER, pois o que conseguirei ganhar com isso é o que levarei comigo quando for para o outro plano...
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Minha Resposta

Embora – à parte da consideração sobre a exposição, eu simpatize levemente com a idéia do Rohden, não acho que ela seja, de fato, uma exposição da idéia do próprio texto do sermão do monte.

Ademais, desejar pode ser legítimo, humano e saudável. O problema é que, sendo animais, movidos por estímulos, fabricamos um mundo minado de provocações para o consumo. Desejos nos são injetados por todos os lados. São artificializados. Vendem-nos a idéia que, antes de tudo, desejamos – à qualquer custo, o objeto de sua propaganda. Na sociedade do consumo, os desejos são absolutizados – onde sua realização é o grande símbolo de felicidade e paz.

A idéia do Rohden, implicitamente, sugere um deslocamento: “ter” e “desejo de ter” são coisas diferente. Aqui, uma observação que faço em concorde é que a pobreza e as demais dificuldades da vida não geram, necessariamente, pessoas humildes, pacificadas e contentadas. Mas, ao contrário, pode gerar pessoas ambiciosas, extravagantes. A extravagância muito freqüentemente é uma compensação por uma falta.

Jesus fala muito sobre os efeitos do desejo anormal de ter (possuir ou consumir), mas ele também diz muito sobre outras preocupações igualmente desnecessárias e nocivas ao ser. Diz até sobre ansiedades mais legítimas: àquelas por conta da subsistência.

Para Ele, a Paz consiste em descansar na Fé: em Deus como Pai e Provedor, que cuida até de pardais. Para Ele, é essa confiança a promotora da Paz na alma humana. E mais: é pecaminosa a desconfiança do cuidado de Deus. E essa desconfiança – aqui é que tá coisa toda - às vezes, se manifesta como auto-suficiência.

O “ser demais” – para me remeter à linguagem do autor citado acima –, ser para si, ser suficiente em si mesmo, para Jesus, também é pecaminoso. Então, a divisa ser e/ou ter ainda é insuficiente para caracterizar a alma pacificada. Ademais, nas próprias bem-aventuranças ouvimos Jesus abençoar os pobres de espírito, isto é, àqueles sem recursos em si mesmos. Aqueles que não têm em si mesmos, muito a oferecer. E, por isso, dependem de Deus. Eles acham em Deus, pela fé, esses recursos que precisam. E o recebem com o alargamento do coração: como o pão nosso vindo do Pai nosso. Essa Paz requer ser partilhada. Quem recebe dela torna-se um pacificador, um promotor da Paz.

Ainda no quadro de dependência de Deus, para Jesus, pedir pode ser algo tão natural quanto o é para nós pedirmos algo ao nosso pai terreno quando precisamos dele. “Pedir a” é “precisar de”. O problema, geralmente, é a natureza do pedido. Nesse sentido, Tiago diz: não são respondidos por Deus porque pedem mal, pedem para esbanjar-vos nos vossos desejos. São egoístas e ensimesmados. E diz se pedirmos conforme à vontade de Deus, Ele nos atenderá. Jesus mesmo diz para pedirmos, e em Seu nome, para que a nossa alegria nEle fosse completa.

Para o filho, não há pudor em pedir. Para o Pai, a alegria é ser Pai. Isto também significa ser o Provedor.

Receba meu carinho,

 Eric Brito Cunha

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