terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A pobreza é uma maldição?






Um amigo meu me fez questionamentos sobre esta frase do Felipe Almada:

"Se Jesus fosse neopentecostal,  o texto seria assim: 'Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um pobre entrar no reio dos céus'"

Sua questão era sobre a perspectiva bíblica sobre a pobreza. Segue minha resposta.




***

O Felipe Almada estava retratando uma construção neopentecostal. E acho que ele foi feliz. A Bíblia do Cerullo, que o Malafaia vende sob o slogan "não tem igual no mercado" - Batalha Espiritual e Vitória Financeira, por exemplo, encara a pobreza como "falta de Deus", de "fé" ou com "demonizações".

Acho mesmo que o título e o tema central dessa Bíblia de Estudo é uma traição ao espírito das Escrituras. Como se a Bíblia fosse um livro para se ensinar ter sucesso, ou para ter vitória financeira. 

Antes, a vitória proposta pelo Evangelho é sobre as finanças: amando a Deus, Criador tudo, e Provedor, sobre  todas as coisas. O que, necessariamente, significa aborrecer ao dinheiro, conforme as palavras do próprio Jesus:

"Ninguém pode servir a dois senhores [dois donos]; porque ou há de aborrecer-se [odiar; rejeitar] de um e amar ao outro, ou se devotará [dedicará - será leal] a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas [Mamon, Dinheiro]". MATEUS 6.24

Ademais, "a piedade", diz Paulo, é suposta por alguns como "fonte de lucro", ou em nossa linguagem: um grande negócio. O que é impróprio da verdadeira piedade! E diz mais ele: "Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína".

E assim conclui: "Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.  Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas..."

Ora, Lutero falando sobre o tema geral das Escrituras, diz: a Bíblia como um todo, é sobre Cristo. Diz ele: "Da mesma forma como vamos até o berço tão somente para encontrar um bebê, também recorremos às Escrituras apenas para encontrar Cristo".

Assim, pergunto: que espécie de Bíblia é essa cujo tema central (slogan comercial) é a vitória financeira?

Sobre a pobreza, eu acho mesmo que ela seja uma maldição - mas uma maldição estrutural: fruto da Queda, mas - e por isso mesmo -  também do egoísmo humano. Ou seja, todos somos co-responsáveis por ela. E a forma da igreja combatê-la não é no nível do discurso, mas com real envolvimento na realidade do outro. Conforme o modelo encarnacional de Cristo, assim deve ser nossa missão. E ela deve ser integral: levando restauração para o homem todo, isto é, em todas as dimensões da vida humana: o que inclui a material.

A pobreza tem muitas causas. E concedo que ela também pode ser ação maligna. Ou maldição do próprio Deus (o que é um tema muito mais complexo - você verá isso nos pequenos profetas). Não duvido que o demônio destrua a dignidade humana também com pobreza. Mas meu problema com esses discursos é que, se leio bem a Bíblia (veja por exemplo o livro de Tiago), é mais demoníaco a omissão e indiferença de quem pode ajudar. 

Pobreza não é uma questão de fé. Pobreza não é incompatível com fé. Antes, tudo podemos naquele que nos fortalece. Ainda que a figueira não floresça...

A nossa fé centra-se naquele que sendo rico, fez-se pobre. E vivendo entre nós, não tinha onde pousar a cabeça.

Sim, acredito que o propósito criacional de Deus para o homem envolve o shalom: "prosperidade, saúde integral, bem-estar material e espiritual, harmonia com Deus, com o próximo e com a criação". Mas no mundo subjugado pelo Maligno, individualista, consumista, com desigualdades abismais, com bilhões padecendo de um mínimo para sua subsistência, esse discurso religioso só reflete o ethos do sistema.

A forma como lutamos contra tudo isso é encarnando os valores do Reino. Sinalizando o Reino de Deus. De modo individual isso assim se traduz: 

- lutando contra essa força que quer se apoderar de nós - o Mamon. 

- sendo ricos em generosidade. 

- sendo moderados.

- "tendo sem possuir", isto é, tendo como se não tivesse. 

- tendo em Cristo o Intermediador, Aquele por meio do qual nos relacionamos com tudo o mais: pessoas e coisas. Ou seja, não há relação direta e imediata com o que quer que seja. Santificamos tudo o que temos com ações de graças - o que, de alguma forma, é devolver ao governo de Deus o que dEle recebemos. E isso equivale a compartilhar e chamar de nosso o pão da Sua provisão. 

- tendo a Deus como o ainda dono de tudo o mais, e nos vendo apenas como administradores, mordomos. 

- trabalhando.

Eric Brito

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