quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

VOCÊ É FEIO!





Lutero insistiu no papel da Lei no processo da Salvação: a Lei abate, faz o homem se enxergar, e desesperar-se. A Lei, pois, precede a Graça. 


A minha constatação de todos os dias é que as pessoas se acham boas. Ainda quando não confessam. 


O mundo está errado – certo, mas não por causa delas.

Coisa mais difícil: convencer o homem de seu estado pecaminoso. 


Palavra mais inusual e carregada: pecado.

Eu sou um moderno. E sou um pessimista: isto é, um sub-calvinista: eu vejo o homem, e enxergo o pecado. E, como moderno, tento expor minha visão.

  
***
As aulas teóricas mais divertidas que eu já tive foram as de História, nos tempos de ginásio. Professor Durval tinha uma didática diferente, as aulas eram participativas, dinâmicas. O conteúdo da aula era passado previamente, e, durante as aulas, eram feitas perguntas valendo ponto. Toda aula tinha perguntas. E, num registro geral, nossos pontos eram computados. A competição era gostosa. Principalmente para mim, que disparava. O professor Durval fez então uma regra de contenção: eu só podia responder, em regra, 3 perguntas por dia.


Assim, aprender História sempre foi divertido. 


Desde àquele período, eu ficava impressionado com uma coisa: a normalidade das guerras entre os homens. Na História, a não-guerra era a exceção.


Em tempos mais humanistas - com o mito da evolução moral, e o mito da bondade humana, as guerras passaram a ser esteticamente reprováveis. A guerra é feia. 


Quer ofender uma religião? Já sabe...


Claro: nem por isso elas não deixaram de ocorrer. E ocorreu em fartura, das mais terríveis e avassaladoras. 

O mal, claro, é sempre o outro. O demônio é o outro. E, no ponto central da última grande guerra, o mal era Hitler: e ninguém questiona isso. Mas há algo inatural nesse dualismo: o mal, também não sou eu? Nem um pouco? Hitler é um "astro" assim tão autônomo, tão auto-produzido na constelação da existência coletiva do homem?

O Hitler desde então foi o Bode Expiatório. Guerra, portanto, não é coisa minha, de gente como eu. É coisa de "Hitler", de "gente" como ele.

Auschwitz, também tem lá seus efeitos expiatórios. A minha identificação com os "coitados" e a minha óbvia reprovação dos carrascos, de alguma forma, me faz do time dos bons.

Homens religiosos são ainda homens. Essencialmente homens, e invariavelmente homens. E homens guerreiam. Homens sempre fizeram guerras. Homens não concordam. Homens dominam. Homens não partilham. O homem é a guerra. 


A religião não pode impedir o homem de ser homem: e eles são das armas. 


Auschwitz deveria ter sido um espelho. E não um retrato dos bons e dos maus. 


"Hitlers" sempre existiram.


A espada e cruz não poderiam nos parecer contraditórios: afinal, a cruz é um instrumento de morte.

A cruz nos lembra que somos homens: e que matamos. 

A cruz e a espada só nos são contraditórios porque somos bons, claro.


Auschwitz não foi único: e provavelmente não foi o pior. O homem é que insiste em não se enxergar!



Em Auschwitz o mal foi banalizado: o niilismo normalizou o terror. Mas já se matou por motivações mais manifestadamente escusas: como no caso do Encobrimento da América Latina. Quem lê os relatos, chora. 


Ó, homens, vós sois maus. Sois feio. E, para usar uma palavra politicamente incorreta: pecadores. Por que ainda se enganam? Onde está a tua Salvação, ó perdido?

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