quinta-feira, 5 de abril de 2012

Bem-Aventurados os que choram





Pessimista, mas nem tanto. 

Um niilista: não fora o Amor de Deus. 

Semi-calvinismo: sem maiores otimismos em relação à natureza e a sociedade humana. 

Protestante: não como Lutero, mas como Jó. Leio o livro de Jó, e vejo ali um homem inteiro, pregando na porta dos céus teses contra a existência, chamando o Criador para debater.


É por tais adjetivos que me descrevo. E então, mereço um divã?

É assim que normalmente se reage: o triste está errado sobre a vida. Deve estar com alguma doença de ordem psicológica que altere sua percepção. 

Mas há algo de errado com esse a priori.

Um exemplo.

A medicina é pró-vida, e, assim, tem que manter vivo a qualquer custo. E alguns dos resultados é a vida humana vegetal. Mas a morte também é parte da vida. Em alguns casos é flagrante que o lema pró-vida da medicina é contradito. Não respeitar a morte quando é a sua hora, também é não respeitar a vida.

Sobre isso, escreveu o Rubem Alves:

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. 
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me". 
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. 


Não, não tenho tido problemas excepcionais na minha vida pessoal. Meu "problema" é, talvez, ver. Isso mesmo. Ver dói. Ver é sofrer. O segredo das lágrimas é sentir. É não ser indiferente.
O impulso desse protesto, sinto como vindo do próprio Espírito de Vida: NÃO!
Meu amor pela Vida, é, não rara às vezes, o teor do meu protesto contra a atual existência. É o Não que percorreu a garganta de Jó, de Asafe, de Jeremias, de Habacuque...

Não, não é algum impulso de destruição, nem algum ódio oculto contra a vida. Não é alguma tendência depressiva. Pelo menos não considero assim.

Antes, pode ser o penhor do Reino - como um aguilhão na minha alma. Um suspiro por Justiça. Um apetite, uma aspiração, uma fome. A fome é algo que se dá na ausência. O que tem fome de justiça é o que se apercebe da injustiça. 

Se há em mim alguma causa secundária atuante na minha eleição, isto é, alguma tendência que me fora implantada e que me empurrou ao Evangelho, com certeza, essa causa são as lágrimas. As lágrimas me aproximaram do Reino. É a identificação do Reino em mim. Feliz, abençoado, bem aventurado, diz Jesus, é o que chora. Porque não há como não chorar num mundo manchado pelo mal.

Feliz é o que sabe que não deveria ser assim. Feliz é o que sabe da Justiça, e a almeja mesmo quando isso se demonstra como indignação diante da sua falta.

Jesus chorou. Foi, conforme o espírito da profecia - homem de dores, esmagado, moído, um servo sofredor.

Num mundo de Injustiça, quanto mais justo se é, mas se sofre. 

A lágrima é um protesto. 

A lágrima é própria do justo.

John Stott chega a batizar um tipo específico de lágrimas: “A verdade é que existem lágrimas cristãs e são poucos os que as vertem”.

Detalha ele:

Jesus chorou pelos pecados de outros, pelas amargas conse­qüências que trariam no juízo e na morte, e pela cidade impenitente que não o receberia. Nós também deveríamos chorar mais pela maldade do mundo, como os homens piedosos dos tempos bíblicos. "Torrentes de águas nascem dos meus olhos", o salmista podia dizer a Deus, "porque os homens não guardam a tua lei". Ezequiel ouviu o povo de Deus descrito como aqueles que "suspiram e gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio (de Jerusalém)". E Paulo escreveu sobre os falsos mestres que perturbavam as igrejas do seu tempo: "Pois muitos andam entre nós ... e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo."

“Os que choram” – escreve Bonhoeffer, “são os que não sintonizam com o mundo”. “Choram sobre o mundo, sua culpa, seu destino e sua felicidade”.

Diz: “O mundo sonha com o progresso, com o poder, com o futuro - os discípulos sabem do fim”. 


O santo, além disso, enxerga a imperfeição do mundomas continua encontrando razões para amá-lo, ou seja, continua encontrando seus ideais lá fora, na banalidade imperfeita dos outros” (Contardo Calligaris).


Como seria diferente? Amar é sofrer! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário