domingo, 1 de abril de 2012

O JUSTO SOFREDOR




Não sei, e duvido que qualquer estudioso saiba, se o livro de Jó teve um grande efeito, ou mesmo algum efeito, sobre o desenvolvimento posterior do pensamento judeu. Mas se ele teve qualquer efeito, deve ter sido o de salvá-los de um enorme colapso e decadência. Neste livro a questão que é realmente formulada é se Deus invariavelmente pune o vício com castigos terrenos e recompensa a virtude com prosperidade terrena. Se os judeus tivessem respondido erradamente a essa pergunta, eles poderiam ter perdido toda a sua influência na história humana. Eles poderiam ter afundado ainda mais que a instruída sociedade moderna. Pois uma vez que as pessoas comecem a acreditar que a prosperidade é a recompensa da virtude, a sua próxima calamidade é óbvia. Se prosperidade é considerada como recompensa da virtude, ela será considerada sintoma da virtude. Os homens abandonarão a difícil tarefa de fazer dos homens bons, homens de sucesso. Eles adotarão a tarefa mais fácil de estabelecer que são bons os homens de sucesso. Isso, que tem acontecido atualmente no comércio e no jornalismo, é a Nêmesis última do mau otimismo dos amigos de Jó. Se os judeus precisassem ser salvos disso, o livro de Jó os teria salvado.

O livro de Jó é principalmente importante, como tenho insistido, pelo fato de que ele não termina da maneira que possa ser considerada satisfatória. Não é afirmado a Jó que suas misérias tenham sido devidas a seus pecados ou uma parte de algum plano para seu aprimoramento. Mas no prólogo, vemos Jó atormentado, não porque ele fosse o pior dos homens, mas porque ele era o melhor. Essa é a lição de todo o livro, que o homem é mais bem confortado por paradoxos. Aqui está o mais obscuro e estranho dos paradoxos; e ele é, por todos os testemunhos humanos, o mais encorajador. Não preciso sugerir que elevada e estranha história estava reservada a esse paradoxo, do melhor homem com a pior sorte. Não preciso dizer que, num sentido mais livre e filosófico, há uma figura no Antigo Testamento que é verdadeiramente um modelo; nem tampouco preciso dizer o que está prefigurado nas feridas de Jó.

G.K. Chesterton, Introdução ao LIVRO DE JÓ. Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Nenhum comentário:

Postar um comentário