sábado, 14 de julho de 2012

A tirania do Dinheiro e o caminho do que ama a Deus






***

Deixo essas pinceladas do que apreendi de uma porção dos evangelhos, sobre um tema relevante para o discípulo: o coração do que ama a Deus. E este sob a perspectiva da relação desse coração com o dinheiro.
As palavras de Jesus nos põe nessa condicional: se você ama a Deus, deve pensar sua relação com o dinheiro. 
Conforme eu entendo, na Bíblia, o dinheiro não é um problema apenas de ricos. Antes, é um problema para o coração humano. 

***

É estranho: mas amar a Deus é aborrecer o dinheiro. O que ama a Deus, inequivocamente, aborrece ao dinheiro. Ou, de outra forma  - e mais exatamente: a consequência de se amar a Deus é odiar o dinheiro, e a consequência de se amar ao dinheiro é odiar a Deus. Numa aplicação mais próxima: a dedicação ao dinheiro é o desprezo por Deus - e vice-versa.

"Ninguém pode servir a dois senhores [dois donos]; porque ou há de aborrecer-se [odiar; rejeitar] de um e amar ao outro, ou se devotará [dedicará - será leal] a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas [Mamon, Dinheiro]". MATEUS 6.24

Mas o que é o dinheiro? O dinheiro, como o entendemos hoje, é uma abstração comercial - e isso nos diz muito pouco.

Dinheiro/Riqueza/Mamon é a personificação de uma força: que exerce poder sobre os homens. Exerce domínio. Domínio tal que Jesus sugere uma disputa: uma relação excludente entre se dedicar a Deus e se dedicar ao dinheiro.

Entenda: a Bíblia nada sugere de dualismo - de uma força igual e oposta a Deus. Deus é o absoluto, soberano. O diabo, dizia Lutero, é o diabo de Deus. Contudo, o coração humano insere o palco de uma disputa. E o extraordinário é que do lado de lá da disputa, Jesus coloca o dinheiro e não o diabo. Sim, é uma força personificada por Jesus: Mamon. O diabo, portanto? Eu diria: também. Algo como um "dinheiro endiabrado". Mas quando Jesus se referia ao diabo-diabo, o fazia sem essa ambiguidade - e isto me sugere o seguinte: Jesus tomava uma qualificação própria de um diabo e aplicava ao dinheiro. De fato, a relação diabo/dinheiro é estreitada por Jesus, misturando-as - sem, contudo, igualá-las. O dinheiro, eu diria, é a nova maçã da antiga serpente do Éden...

Dinheiro/Riqueza/Mamon - como víamos, é a força que exerce domínio sobre os corações dos homens. Domínio tal que o amor ao dinheiro, diz, é a raiz de todos os males. Por tais palavras, poderíamos também propor: o desprezo a Deus é a raiz de todos os males. Sim, porque amar o dinheiro é desprezar a Deus.

Mas o que seria, em termos práticos e cotidianos, uma dedicação ao dinheiro?
Ou o que seria esse desprezo/ódio ao dinheiro? Como é a vida do que se dedica ao dinheiro? 

O Piper formula:

Com se serve ao dinheiro? Não se ajuda o dinheiro. Não se enriquece o dinheiro. Não se faz o bem ao dinheiro. Então, como se serve ao dinheiro?
Continuando, responde ele:

O dinheiro exerce certo controle sobre nós porque parece trazer tantas promessas de felicidade. Ele sussurra com muita convicção: "Pense e aja para estar em condições de receber meus benefícios". Isso pode incluir roubar, emprestar ou trabalhar. O dinheiro promete felicidade, e nós o servimos crendo na promessa e andando por essa fé. Assim, não servimos o dinheiro colocando nosso poder à sua disposição para o seu bem; nós o servimos fazendo o que é necessário para que o poder do dinheiro esteja à nossa disposição para o nosso bem.

Folheando o capítulo 6 de Mateus, tive alguns insights próprios.

Para entender melhor as palavras de Jesus “servir ao dinheiro”, prestemos um pouco mais de atenção no seu contexto imediato no capítulo. Após falar sobre abscondicidade da piedade cristã (jejum), Jesus inicia, no vs 19, a fala sobre tesouros que são ajuntados. Não há uma mudança de assunto, porque quando falava de jejum - e também antes sobre a oração, ele falou em recompensas para elas, provindas do Pai. Agora ele fala em ajuntar tesouros e termina com o vs 21: Onde estiver o teu coração, aí estará o teu tesouro. Ora, nos dois versículos antecedentes ele falara sobre as duas possibilidades de investimentoO saldo, diz, dirá a direção em que esteve o seu coração. Em quê a vida fora empreendida? “Onde está meu tesouro, ali está a minha confiança, minha segurança, meu consolo, meu deus (BONHOEFFER)”. Não nos esqueçamos disso: ele vem falando sobre onde pode está o coração humano o tempo todo.

Nos versículos 22 e 23 aparenta haver uma quebra no raciocínio, um desvio do assunto, e, no vs 24, uma retomada. Contudo, sugiro que ainda esses versículos 22 e 23 é parte do mesmo raciocínio. Stott sugere o seguinte:

Com bastante freqüência, o "olho" nas Escrituras é equiva­lente ao "coração". Isto é, "colocar o coração" e "fixar os olhos" em alguma coisa são sinônimos.

Logo,

A argumentação parece ser esta: exatamente como nossos olhos afetam todo o nosso corpo, a nossa ambição (onde fixamos nossos olhos e nosso coração) afeta toda a nossa vida.

O Bonhoeffer diz: “A luz do corpo são os olhos, a luz do seguidor é o coração”. “Para onde está orientado o coração do discípulo?”

Imediatamente após o versículo em questão - o 24, Jesus parece responder uma de minhas perguntas: como é a vida do que se dedica ao dinheiro?
Isso é sugerido pelo "portanto" com que inicia o versículo 25. E o que ele passa a falar? De uma ansiedade existencial, pecaminosa, incrédula. De fato: sintomas de um ser em desconfiança

Parece-me que essa conexão tem sido negligenciada: mas a vida dedicada ao dinheiro não é apenas a vida avarenta, egoísta. Mas também a vida ansiosa, desconfiada, e, para usar o termo de Agostinho, desordenamente preocupada com a sobrevivência. E, pelo menos nessa sequência, me parece que Jesus dedica mais palavras a este modo de servir ao dinheiro. 

Aqui, quase que se pode ouvi-Lo: o que ama a Deus não pode viver demasiadamente preocupado com sua sobrevivência. Tal preocupação presta um serviço ao dinheiro. Mostra que nossa segurança está nele – e isso é contra o amar a Deus. O convite para o que ama a Deus é o da entrega total, o andar por fé, por confiança. O justo – na sugestão de tradução do Barth, vive da fidelidade de Deus.
  
Como dissemos o dinheiro não é só um problema para os que o tem, para os ricos. Ele exerce influência mesmo à distância, mesmo em sua falta. Seduz o coração de longe. Muito frequentemente vejo pessoas pobres economicamente que tem o seu coração voltado para suas faltas: para o dinheiro. 

O serviço ao dinheiro tem muitas faces...

E Jesus, no seu sermão mais conhecido - o sermão do monte, dedica um espaço enorme para falar de algumas outras faces do serviço ao dinheiro.

Feito essa importante observação, fazemos coro: servir ao dinheiro também é conforme a conotação mais convencional: é o capital do pecado estrutural, sistêmico.

Os evangelhos, em seu quadro geral, lhe dão maior importância. Em Lucas, por exemplo, João Batista detalha – o que nenhum outro evangelho fez - em termos práticos o que significa “produzir frutos digno de arrependimento” (Lucas 3.8) e o faz em termos de relações econômicas (Lucas 3.10-14).

Também em Lucas, em 16.20s na história do mendigo Lázaro, o dinheiro havia cegado aquele homem para o outro em suas necessidades - que poderia facilmente suprir. A insensibilidade e indiferença era tal que Lázaro se tornara invisível para o rico. Quem ignora esse efeito cegador da religião sobre seus fiéis? Sim, a cegueira se esconde – e é muito bem justificada - debaixo de uma fachada religiosa, de uma áurea “piedosa”. Jesus provoca quando faz do levita e do sacerdote, na parábola do Bom Samaritano, os indiferentes por “priorizar” o serviço a Deus. Em Marcos 7.11, é dito:

Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor,

Ora, os efeitos da cláusula Corbã é explicada no restante dos versículos: era usada como justificativa religiosa para não se fazer o bem devido.

Muitas outras são as imagens. Todas elas com retratos bem nítidos do que serve ao dinheiro e, por isso, não ama a Deus verdadeiramente.

Há em Lucas uma proposta alternativa para os riscos: de reconciliação com a mensagem de Jesus e o seu modo de vida. E Zaqueu parece ser o paradigma de tal proposta. Todos devem cantar conforme uma canção popular: “[quero ser] como Zaqueu, quero subir...”. Mas a música parece não fazer justiça ao testemunho de Zaqueu: parece omitir dele o que há de mais concreto de sua transformação e valoriza o que é pra nós sintomas de uma espiritualidade contemplativa-apaixonada, deficiente - sem a verdade do amor verdadeiro. Oxalá quiséssemos mesmo ser como Zaqueu!
  
Continuarei acrescentando à meditação, mas por hora é isso.

Pense! Medite! Ore!

Recomendo a leitura do Livro de Tiago, o texto de Isaías 58.6, as passagens do livro de Lucas pertinentes ao dinheiro e um texto de Calvino intitulado: COMO SE DEVE FAZER USO DA PRESENTE VIDA E DE SEUS RECURSOS.


Eric Brito Cunha

Nenhum comentário:

Postar um comentário