domingo, 19 de maio de 2013

Pecado original ou bondade original?




Pecado original ou bondade original?

 Juan Stam

Tradução: Eric Brito

Há duas doutrinas da tradição reformada que não são muito populares no mundo de hoje. Uma se chama "pecado original" (para alguns, até a palavra "pecado" é de mau gosto) e a outra é "depravação total". Esta última ainda por cima figura como primeiro dos famosos "cinco pontos" do Calvinismo clássico: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. De fato, essa fórmula reducionista é uma crua caricatura do próprio pensamento de Calvino, nos termos de uns ultra-calvinistas do século dezessete.  

Cada uma dessas doutrinas expressa uma verdade, mas costumam ser mal entendidas. Que horrível designação – Depravação Total! Parece sugerir que nos seres humanos não há nada de bom, só corrupção, mas isso não é o sentido original da expressão. O adjetivo “total” não significava originalmente uma total ausência de valor moral nos seres humanos. 

Teve a intenção de refutar a antropologia medieval tricotomista, com raízes gregas, da “alma apetitiva” localizada entre a concupiscência do corpo e a pureza moral da “alma racional” (o espírito). A isso se devia o otimismo racionalista do escolasticismo medieval. Os reformadores respondiam que toda a pessoa humana, inclusive o raciocínio, está afetada pelo pecado. Nossa única esperança é a revelação da graça do Criador.

O "pecado original" significa que por trás de nossas ações pecaminosas ("pecados atuais") está algo maior, que vem desde as origens da humanidade. Nele participamos todos, mas em outro sentido todos somos vítimas dessa história. É importante notar que em Gênesis 3 o pecado não tem origem humana; entrou no paraíso desde fora, de forças demoníacas externas à humanidade. Nesse aspecto, o conceito de pecado original implica uma nota de compaixão e solidariedade.

Por outro lado, ambos os conceitos clássicos, pecado original e “depravação” total, nos obrigam a tomar com devida força e seriedade a realidade da maldade em nós e na história. Reinhold Niebuhr, em uma expressão famosa, afirmou que o pecado original é a única doutrina cristã sujeita a verificação empírica.  

No começo do século XX foi fundada uma revista religiosa que foi batizada "Christian Century" (século cristão), já que no fim do século XIX prevalecia a doutrina do progresso inevitável da humanidade. Mas esse “século cristão” trouxe duas guerras mundiais, campos de concentração e bombardeios aéreos de populações civis, inclusive com bombas atômicas. 

Muito me tem inspirado o pensamento do marxista Ernst Bloch, criador da filosofia da esperança. Quando esteve estudando em Tubinga no início dos anos 70, o corpo docente em peso nos convidava a compartilhar seus colóquios teológicos. Em um desses, o professor Herbert Haag (editor do Diccionario Herder de la Biblia), apresentou um erudito argumento refutando a existência do diabo, tema a que havia dedicado muitos anos de sua vida. Depois dessa conferencia se levantou Bloch, com seus noventa e tantos anos e sua voz quebrada, apenas audível, para comentar, “Que raro isto! Meu colega crê em Deus, a que não tem visto, mas não crê no diabo. Eu creio no diabo, porque o vejo por todos os lados!”.  

Tudo isso é certo, mas esta tradição clássica não diz toda a verdade. É óbvio do relato bíblico que, em sentido estrito, o pecado não é “original”, pois há algo mais “original” que o pecado e isso é a imagem e semelhança de Deus em todos os seres humanos. O pecado não é nem a primeira palavra nem a última; não é nem o alfa nem o ômega da história humana. E essa semelhança divina não ficou totalmente apagada, como alguns equivocadamente pensam. É claro de passagens como Gênesis 9:6 que todos os seres humanos seguem sendo imagem e semelhança de Deus. 

Pecado original? Sim e não. Nobreza original? Sim, original e final também.  Eis aqui as bases para um autêntico humanismo evangélico em lugar de uma teologia pessimista e misantrópica.

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