quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

MUNDO NA PERSPECTIVA BÍBLICA - Última Parte




b) O mundo hostil a Deus e escravizado pelos poderes das trevas. O uso mais claro do termo cosmos, no Novo Testamento, é predominantemente negativo. Ele se refere à humanidade, mas à humanidade em franca hostilidade contra Deus, personificada no inimigo de Jesus Cristo e em seus seguidores. A Palavra através da qual todas as coisas foram feitas veio ao mundo, mas “o mundo não O conheceu” (Jo 1:10). Ele veio como a luz do mundo (Jo 8:12, 9:5), para dar testemunho da verdade (Jo 18:37), mas “os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque suas obras eram más” (Jo 3.19). Foi uma rejeição coletiva. Mas foi a única atitude coerente com a natureza de um mundo alienado em relação a Deus – o mundo não pode receber o Espírito da verdade (Jo 14:17), o espírito carnal não pode submeter-se à lei de Deus (Rm 8:7). Essa é a tragédia do mundo, que se acha preso ao círculo vicioso de uma rejeição que o induz a odiar Cristo e seus seguidores (Jo 15:18, 24; 1 Jo 3:1, 13) e que, ao mesmo tempo, torna-o incapaz de reconhecer a verdade do Evangelho (Jo 9:39-41). A condição do mundo em sua rebelião contra Deus é tal que Jesus Cristo nem ora por ele (Jo 17:9).

Mas se explorarmos um pouco mais a fundo nossa análise do conceito de mundo nos escritos joaninos e paulinos, torna-se claro que por trás dessa rejeição de Jesus Cristo esconde-se a influência da forças espirituais hostis ao homem e a Deus. “O mundo inteiro jaz no maligno” (1 Jo 5:19). A “sabedoria do mundo”, caracterizada por sua ignorância de Deus, reflete a sabedoria doas “soberanos desta era”, os poderes das trevas, que crucificaram a Cristo (1 Co 1:20, 2:6, 8). A cegueira dos incrédulos ao Evangelho resulta da ação de Satanás, “o deus deste século” (2 Co 4:4). Apartados dessa fé, os homens ficam sujeitos ao espírito da época (zeitgeist), controlados pelo príncipe da potestade do ar (Ef 2:2). O mundo está sob a dominação dos espíritos rudimentares (Gl 4:3, 9; Cl 2:8, 20), os principados e potestades (Rm 8:38s; 1 Co 15:24, 26; Ef 1:21, 3:10, 6:12; Cl 1:16; 2:10, 15).

O retrato do mundo que emerge dos textos mencionados é confirmado pelo resto do Novo Testamento. Nele, como no Judaísmo do primeiro século, a presente era é concebida como o período em que Satanás e suas hostes receberam autoridade para governar o mundo. O universo não é um espaço fechado, em que se possa achar explicação para tudo, apelando às causas naturais. É antes a arena onde Deus – um Deus que age na História – empenha-se numa batalha com as potestades espirituais que escravizam os homens e bloqueiam sua percepção da verdade revelada em Jesus Cristo.

O diagnóstico da condição humana neste século não pode ser atirado, sem mais nem menos, na cesta de lixo, como se fora um derivativo de especulação apocalíptica comum entre os judeus da era neotestamentária. Como diz E. Stauffer: “No Cristianismo primitivo não há teologia sem demonologia”. E sem demonologia, a resposta para o problema do pecado tem de ser encontrada exclusivamente no homem, sem precisarmos tentar para o fato de que o homem é, ele próprio, a vítima de uma ordem que o transcende e que lhe impõe uma forma de vida perniciosa. O pecado (singular) não é a soma total dos pecados (plural) do homem. Pelo contrário: é uma situação objetiva que condiciona os homens e os força a cometer pecados. “Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34). A essência do pecado é a mentira (“sereis como Deus” – Gn 3:5), e a mentira procede do Diabo, o “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8:44). O pecado, então, é um problema social e até mesmo cósmico, e não apenas individual. Os pecados pessoais – aqueles que, de acordo com Jesus, vêm “de dentro, do coração do homem” (Mc 7:21-22) – são ressonâncias de uma voz que vem da criação, a criação que “está sujeita à vaidade”, e que “será redimida do cativeiro da corrupção” (Rm 8:20-21).

Infelizmente, tem-se quase sempre como certo que a manifestação concreta da ação satânica entre os homens ocorre principalmente, ou mesmo exclusivamente, nos fenômenos limitados à esfera da possessão demoníaca, ou do esotérico. De modo que perdemos de vista a natureza demoníaca de todo o ambiente espiritual capaz de condicionar o pensamento e a conduta do homem. O conceito individualista de redenção é a conseqüência lógica de um conceito individualista de pecado, que ignora “tudo que está no mundo” (não unicamente no coração do homem), a saber, “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2:15-16). Numa palavra: esse conceito ignora a realidade do materialismo, quer dizer, a absolutização da era atual em tudo o que ela oferece: bens de consumo, dinheiro, poder político, filosofia, ciência, classe social, raça, nacionalidade, sexo, religião, tradição, etc.; o “egoísmo coletivo” (para tomar emprestada a frase de Niebuhr) que condiciona o homem a procurar a realização nas “coisas desejáveis” da vida; a Grande Mentira que consiste em dizer que o homem deriva o seu significado do fato de “ser como Deus, independente dele”.

Sob o domínio dos poderes das trevas, o mundo acha-se ao mesmo tempo sob o juízo de Deus. Embora Deus não tivesse enviado seu Filho para condenar o mundo mas para que o mundo, através dele, fosse salvo (Jo 3:17, cf. 12:47), o mundo é julgado por sua própria rejeição da luz da vida que raiou entre os homens. “O julgamento é este: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más”(Jo 3:19, cf. 12:48).

Concluindo: o problema do homem no mundo não se resume nos pecados isolados que comete, ou em render-se à tentação de determinados vícios. O fato é que ele está preso a um sistema fechado de rebelião contra Deus; sistema esse que o condiciona a absolutizar o relativo e a relativizar o absoluto, sistema cujo mecanismo de auto-suficiência priva-o da vida eterna e submete-o ao juízo de Deus. É por essa razão que a evangelização não se pode reduzir à comunicação verbal de conteúdo doutrinário, sem referir-se a formas específicas do envolvimento humano no mundo.

É por essa razão também que a confiança do evangelista não pode ficar à mercê da eficiência de seus métodos. Como ensinava o apostolo Paulo, “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6:12). A proclamação do Evangelho tem de levar a sério a necessidade dos recursos divinos para a batalha.

(René Padilla em A missão da igreja no mundo de hoje. Digitalizado por Eric Brito)

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