sábado, 29 de março de 2014

A beleza de Deus





A beleza de Deus
A teologia da graça e a graça da teologia

Juan Stam
Tradução: Eric

Desde muitos anos me sinto convencido, com cada vez mais convicção, de que a teologia evangélica, como teologia da superabundante graça de Deus, deve superanbundar também com graça em seu estilo teológico. O paradigma cristológico para todo teólogo é o Verbo encarnado, que veio "cheio de graça (inclusive em seu aspecto estético) e de verdade (aspecto ético) de modo que nele "vimos à glória de Deus" (João 1.14). Além da lei – ou de nossa seca teologia sistemática --, Cristo mostrou a graça e a verdade de seu Pai, "e temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça" (1.16s).

A graça é mais que um conceito teológico abstrato; implica amabilidade, beleza, encanto. Segundo o professor H. H. Esser, "os termos da raiz grega char indicam o que produz agrado" (Coenen 2:236). Em grego clássico, muitas vezes charis era intercambiável com chara (gozo) e chairó (gozar), para referir-se ao que deleita no belo. Usava-se da formosura de uma mulher bela, como a esposa de Hefaisto, ou das “sete Graças” que repartiam a beleza, a elegância e o encanto entre os seres humanos. Às vezes descrevia uma maneira charmosa e agradável de falar, uma linguagem encantadora (Lc 4.22; Col 4.6; Ef 4.29).

O teólogo contemporâneo que mais refletiu sobre a beleza de Deus, e por isso da teologia, foi Karl Barth, sobretudo em sua exposição da glória de Deus (Church Dogmatics II/1 640-677). Barth vê a beleza de Deus subordinada a sua revelação, como "a figura e forma" de sua auto-manifestação, "com a qual nos ilumina e nos convence e nos persuade" Em sua revelação, "Deus é belo, divinamente belo, belo à sua própria maneira" (650). "Deus atua como aquele que dá prazer, cria e premia com o gozo do desejado" (651). Deus se revela assim e atua assim, porque é assim, porque é belo e desejável, cheio de gozo (ibid).

Séculos antes de Karl Barth, Santo Agositnho expressou esta verdade em um testemunho comovedor, citado por Barth em sua exposição: 

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora de mim. Como um animal buscava as coisas belas que tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Mantinham-me atado, longe de ti, essas coisas que, se não fossem sustentadas por ti, deixariam de ser. Chamaste-me, gritavas-me, rompeste minha surdez. Brilhaste e resplandeceste diante de mim, e expulsaste dos meus olhos a cegueira. Exalaste o teu Espírito e aspirei o seu perfume, e desejei-te. Saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e abrasei-me na tua paz (Confissões).
Aqui encontramos a razão mais profunda, fundamentada na própria pessoa de Deus, para a estética do discurso teológico evangélico. Como reflexão sobre a graça e a glória de Deus – e oxalá, reflexo delas – a teologia deve ser a mais bela de todas as disciplinas intelectuais. Tradicionalmente se tem descrito como "a rainha das ciências", mas quase sempre pela coerência e a simetria de seu sistema racional. Com todo apreço pelo valor estético de uma boa argumentação (cf. Anselmo, Cur Deus homo 1.1), é um erro ver "o sistema" como o fim e meta do teologizar ou de ficar embelezado só pelo brillo racionalista dessa forma tradicional de teologizar. Acima de tudo, sua beleza deve refletir a formosura da graça e da glória de Deus sobre quem reflete e a quem adora.

A teologia, sem perder seu rigor intelectual, é chamada a ser um ato de adoração. Desde o dia de Pentecostes, nós teólogos temos a tarefa, com os carismas que o Espírito reparte, de explicitar ante as nações "as maravilhas de Deus" (magnalia dei, Atos 2.11). A teologia também é chamada a adorar e servir a Deus "na formosura da santidade" (Sal 29.2; 96.9; 110.3). O anelo, a tarefa e o privilégio dos teólogos é o de "estar na casa de Yahvéh...para contemplar a formosura de Yahvéh, e para inquirir em seu templo" (Sal 27.4). A teologia deve viver em contínua atitude de adoração.

A seriedade acadêmica da teologia, sua veracidade e sua criticidade, não devem apagar o aspecto de assombro e maravilha no teologizar. Tem-se afirmado, creio que com razão, que tanto a filosofia como a teologia nasceram do assombro: a filosofia, com Tales de Mileto, ante o mistério do céu e as estrelas; a teologia, com a fé, ante o mistério de Deus e a salvação. Por outro lado, a modernidade, a partir de Descartes, suplantou esse ponto de partida por outro, a dúvida. Mesmo se esse método cartesiano da dúdivda sistémica possa ter muito valor para outras disciplinas, para a teologia é uma armadilha fatal. A boa teologia parte da fé (Agostinho, Anselmo), depois sujeita seus conceitos aos fogos do mais rigoroso exame crítico até forjar convicções  firmes, e termina de novo no assombro e na adoração.

Em última análise, o teologizar autêntico nasce do amor – um profundo amor a Deus, a Cristo, ao próximo, ao evangelho, às escrituras, à igreja, ao reino de Deus e (em nosso caso) a América Latina. Teologizar é obedecer ao mandato do Senhor, de amar a Deus com toda a mente (Mt 22.37) e de "levar cativo todo pensamento à obediência a Cristo" (2 Co 10.5). A motivação suprema do teólogo segue sendo a do grande teólogo missionário do primero século: "O amor de Cristo se tem apoderado de nós" (2 Co 5.14). Para adaptar a descrição que fez Santo Agostinho do filósofo, podemos afirmar que verus theologus amator Dei est. O antigo pai expressou com profunda emoção e transparente sinceridade sua própria motivação teológica:

“Amo-Te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a Tua palavra, e eu amei-Te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que Te ame... Quando amo o meu Deus amo uma certa luz, e uma certa melodia, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, melodia, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus”.
Todo teólogo é um amator Dei, um enamorado de Deus, e não tem vergonha de confessá-lo mas realiza todo seu fazer teológico desde esse poço profundo de amor.

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