sábado, 15 de março de 2014

A Chave para o Apocalipse: entrevista com Juan Stam





Juan Stam: Leiamos o Apocalipse em perspectiva pastoral


Juan Stam é autor de diversos livros sobre o Apocalipse, entre eles: “Apocalipsis y profecía”, “Escatología bíblica y misión de la iglesia”, “Profecía bíblica y misión de la iglesia. Hasta el fin del tiempo y hasta los fines de la tierra”, y “Comentario del Apocalipsis” (4 tomos). É autor também de “La misión en el Apocalipsis”, em  Bases Bíblicas de la Misión,  René Padilla (ed.). Tem escrito numerosos ensaios e artigos de “Apocalipsis y el Imperio Romano”,  em Lectura Teológica del Tiempo Latinoamericano.


Pergunta. Tenho entendido que você tem ensinado muito sobre o Apocalipse. Muitos pensam que este livro é muito difícil e até aterrador... 

Resposta. Eu posso dizer que minha vida tem sido toda uma aventura emocionante com o Apocalipse, especialmente desde meus estudos com meu amado professor George Eldon Ladd, no Seminário Fuller. Estive escrevendo um comentário exegético de quatro volumosos tomos sobre esse livro. Estudei cada versículo no grego original, consultando às vezes até cem livros sobre um versículo (comentários, léxicos, dicionários bíblicos, textos de teologia bíblica e de teologia sistemática e livros de história antiga), lutando por captar o significado do texto. Comecei o comentário quando estava relativamente jovem e terminei já velho. Para concluir meu comentário cito a um copista antigo que ao fim de seu longo manuscrito escreveu, "O fim, graças a Deus".

Creio que o Apocalipse parece difícil e espantoso só porque o lemos mal. A chave para entender bem este livro é lê-lo da perspectiva pastoral. Definitivamente, João tinha coração de pastor. Desde o princípio se apresenta como "Eu João" (1;4), assim, simples, sem títulos, e como "irmão e companheiro de vocês" (1:9). Em seguida introduz sete cartas pastorais (Ap 2-3), algo sem paralelo na vasta literatura apocalíptica. Em cada capítulo, cada página, fala um pastor para suas ovelhas. Lido pastoralmente, é uma poderosa mensagem de esperança, não de medo.

Como pastor, João fala do que afeta e preocupa a sua congregação, em uma linguagem que eles pudessem entender. Até os simbolismos eram já conhecidos, fáceis de decifrar. Suspeito que para eles o Apocalispe era um dos livros mais fáceis de entender. É certo que hoje encontramos alguns detalhes difíceis, principalmente porque não temos algumas chaves de interpretação, mas me atrevo a dizer que não há nenhuma passagem (ou parágrafo) cujo significado não seja discernível hoje. No início de meu comentário escrevo que o Apocalipse é para os valentes mas também para os humildes, que sabem dizer “não sei” quando não sabem. Se alguém pretende entender tudo, melhor não dar-lhe crédito em nada porque não sabe que não sabe, e só inventa respostas.

É evidente no livro que um dos problemas que mais preocupava ao pastor João era o culto ao imperador romano. Éfeso, onde residia João, tinha em sua avenida central um enorme templo ao imperador, onde lhe adoravam, faziam sacrifícios, oravam e o adoravam em todo sentido. Faziam procissões com uma estátua do imperador, e as famílias devotas e patriotas colocavam mini-altares em frente a sua casa. Não participar em tudo isso acarretava grandes sacrificios e perigos. No caso do Apocalipse, contextualizar o livro significa buscar os livros de história romana e captar os argumentos políticos e econômicos que estão no Apocalipse.


Pergunta. Então, o livro do Apocalipse não é profético?

Resposta. É um erro entender "profecia" como equivalente exato de "predição" ou "vaticínio". Os escritos proféticos do Antigo Testamento (De Isaías a Malaquías) contêm algumas predições, mas é de fato muito pouco. O profeta é profeta não porque prediz o futuro mas porque traz uma palavra viva de Deus para o povo de Deus. O medular do ofício profético é denunciar o pecado e a injustiça e anunciar a promessa de Deus. Fee e Stuart, em seu livro muito valioso La lectura eficaz de la Biblia  (Editorial Vida), assinalam, com base em uma exegese cuidadosa dos textos proféticos, que só 5% desses livros tinham algo haver com o futuro, geralmente muito próximo, cumprido séculos antes de Cristo. Ademais, segundo Fee e Stuart, só 2% é messiânico e só 1% pode ser todavia futuro. O 95% que não tem nada haver com o futuro não é menos profético por não ser preditivo.

As visões do Apocalipse podem ser do futuro, mas não sempre nem necessariamente. Também podem ser do presente de João (as sete igrejas). Nas visões, os verbos estão em tempo passado, não futuro. No desenrolar de sua mensagem pastoral João passa do presente ao futuro (1:5-9), do futuro ao presente (1:10) mas também do futuro ao passado remoto (de 11:15-29 a 12:1-3 e seguinte). É um erro dar uma preferência a priori a interpretações futuras, como também é um erro começar com um pré-juizo contra elas. João não era nem futurista nem preterista, mas pastoral. Agora é nossa tarefa exegética decidir pelas evidências como entender cada passagem.


Pergunta. Deve ser difícil convencer as pessoas dessa interpretação do Apocalipse e mudar suas idéias sobre temas como o rapto. Como tem conseguido fazê-lo?

Resposta. O mestre bíblico tem que ser um "Cupido da Palavra", muito enamorado de Deus e sua Palavra e apaixonado por enamorar a outros. Isso é um grande desafio com um livro tão temido como o Apocalipse, que foi acostumado a ser lido com uma forte dose de "espantologia besta-cêntrica". Tenho visto muitíssimas vezes que quanto este livro é lido como uma mensagem pastoral cristocêntrica, as pessoas perdem esse medo mórbido e começam a vivê-lo como luta e esperança. E encantados pelo livro, sempre, praticamente sem exceção, terminam enamorados/as do Apocalipse.

Ante o desafio de superar os prejuízos e tradições, tenho desenlvovido meus próprios métodos de ensino. Começo conversando sobre a diferença entre os desafios da boa interpretação e lhes sugiro três ferramentas básicas para o estudo bíblico: uma lupa, para ver bem o que está no texto e o que não está (ilustrando com muitos exemplos); um apagador para tirar da nossa mente o que não está no texto (isto os prepara psicologicamente para deixar ideias não-bíblicas por interpretações mais fiéis ao texto), e terceiro, um par de audiofone (para escutar a voz de Deus e fazer sua vontade). Para ajudarmos a localizar-nos no primeiro século, faço "entrevistas" com João de Patmos. Quando lhe perguntei, por exemplo, se seu livro profetizava televisões e computadores (1:7; 13:18), a pergunta lhe confunde totalmente e nos damos conta que não tem a menor ideia da energia elétrica. 

Muito do Apocalipse é drama e se entende melhor com dramatizações. Converter em ação dramática o grande culto no céu (Ap 4-5) ou a meia hora de silêncio (8:1-6) contribui mais para a compreensão dessas passagens, muito mais que dez comentários de grego. Toda a segunda metade do livro (Ap 12-20) é um drama, profundamente significativo, da grande luta entre o dragão e o Cordeiro. Por outra parte, sinto que comecei a entender o relato das duas testemunhas (11:3-13) quando assisti uma dramatização. Entraram as duas testemunhas e começaram a soprar fogo e a matar pessoas(11:5), enchendo  o piso de cadáveres. Nisso entra a besta e ameaça as duas testemunhas, os quais, confiados em seu poder sobrenatural, sopram juntos; mas que supresa!, o fogo não sai. A besta os mata e há dois cadáveres a mais no piso. Os impíos celebram sua morte com uma tremenda festa, mas depois de vários dias um deles abre seus olhos e outro começa a mover os braços, e ressuscitam e entram vitoriosos na presença de Deus.

Temos que viver o Apocalipse, temos que lê-lo com todos os sentidos de percepção: a vista, o ouvido (e o silêncio), o olfato e o paladar. Neste livro "incenso" não é só uma palavra, é uma fragrância que alguém começa a sentir (8:3). A igreja de Laodicea dava a Jesus vontade de vomitar (que sabor mais horrível!), mas ao final Cristo está batendo a porta (tato) porque quer comer com eles (de novo, o gosto, só que bom).

Que livro mais maravilhoso e emocionante!

Tradução: Eric Brito Cunha

Site: Protestantedigital

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