sábado, 1 de março de 2014

SINAIS dos Tempos



O que são “os sinais dos tempos”? 


 
Por Juan Stam

Faz alguns anos, o dia depois do terrível terremoto de México, escutei por acaso a conversa entre duas senhoras obviamente evangélicas: “O que você achou do terremoto no México ontem?” A resposta me deixou atônito: “Achei uma maravilha! Me alegrei muito! Cristo vem já!”

Um dia, quando Jesus e seus discípulos estavam admirando o templo de Jerusalém, o Senhor lhe anunciou que não restaria pedra sobre pedra dessa majestosa arquitetura, porque Israel havia rejeitado a seu Messias. Eles perguntaram: “Quando acontecerão estas coisas? E que sinal haverá quando todas estas coisas estiverem para cumprir-se?” E Jesus respondeu “Vede que nada os engane” (Mc 13:2-5; Lc 21:6-8).

É claro que segundo Marcos e Lucas, toda a conversa girava em torno do futuro do templo, e que o que os discípulos pediam a Jesus, segundo esses dois evangelhos, era o sinal da futura destruição de Jerusalém. O evangelho de Mateus reformula a mesma pergunta: “Quando serão estas coisas [destruição de Jerusalém], e que sinal haverá de tua vinda e do fim do século?” (Mat 24:2-5). Essa diferença é importante, mas em Mateus também o tema central é a destruição de Jerusalém como antecipação da vinda de Cristo. Minha compatriota, quando comentou o terremoto do México, sem dúvida estava pensando nesta passagem de São Mateus, mas sem levar em conta seu contexto histórico: a destruição de Jerusalém ocorreu uns quarenta anos depois, há quase dezenove séculos. 

Creio que esse sermão de Jesus é seriamente mal interpretado.

Para começar, se fala dos “sinais do fim do mundo”, quando o texto fala do “sinal” (singular) da destruição de Jerusalém e, relacionada com ela, segundo Mateus, “de tua vinda e do fim do século” (não “do mundo”). A pergunta é tripla: o sinal da destruição do templo, da vinda de Cristo e do fim do século. Como resposta, Jesus menciona muitos fenômenos, entre eles guerras, fome, terremotos, perseguições e a pregação do evangelho (24:5-14).

Quatro coisas me chamam a atenção:

(1) Jesus não disse que nenhum destes fenômenos é sinal de sua vinda, 

(2) Jesus disse precisamente o contrário, que estas tragédias não são o fim do século (24:6,14, cf. 14.:8);

(3) Jesus adverte que haveria falsos profetas e falsos “cristos” que viriam agitar o povo com especulações sobre sua vinda e diriam que ela estaria perto (24:4-5; 11; 23-27 e paralelos em Marcos e Lucas; cf. 2 Tes 2:2-3).

(4) Em sua resposta, Jesus emprega a palavra “sinal” pela primeira vez quando adverte contra os falsos sinais em 24:24 e depois quando anuncia “o sinal no céu do Filho do homem” (24:30). Em outras palavras: “Virão guerras e terremotos e outros fenômenos, mas nenhum desses é o sinal que me pedem, e tenham cuidado com os falsos mestres que farão falsos sinais. O único sinal do fim do século serei eu mesmo, quando vier com as nuvens”.

Naquele tempo, como hoje, era muito comum especular sobre “sinais” sensacionais do fim do mundo: que o sol se levantaria a meia-noite, que as mulheres gerariam monstros, que apareceria uma cavalaria armada no céu e muito mais. Jesus se opôs a esses delírios. De acordo com as próprias palavras de Jesus: “A geração má e adúltera pede um sinal; mas não lhes será dado, senão o sinal do profeta Jonas”, o de Nínive e o sinal da Rainha de Sabá (Cf Mt 12:38-42; Mc 8:12 diz apenas: “não se dará sinal a esta geração”, ponto). Esses não eram os sinais buscados. Jonas, Nínive e a Rainha de Sabá não teriam nada haver com o fim do mundo; Seriam um chamado ao arrependimento e mudança de vida conforme exemplo deles. É a única maneira de entender a referência a Nínive e Sabá. Diferente de Marcos e Lucas, o relato de Mateus inclui uma referência à ressurreição de Jesus, mas isso tão pouco tem haver com o fim do mundo. 

A frase “os sinais dos tempos” aparece também em Mateus 16:1-3 e tão pouco tem haver com a vinda de Cristo. A passagem paralela em Lc 12:54-56 não tem essa frase, mas reza: “Quando vedes aparecer uma nuvem poente, logo dizeis que vem chuva, e assim acontece;  e, quando vedes soprar o vento sul, dizeis que haverá calor, e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época?” Jesus compara “os sinais dos tempos” com os métodos que empregavam os camponeses todos os dias para prever o clima. Em outras palavras, Jesus lhe diz: “Não sejam tão perversos e irresponsáveis. Se querem entender o tempo em que vivem, não esperem sinais do céu, mas analisem bem as condições históricas para entenderem o que se está passando e antecipem o que está por vir”.

Com essa atitude tão veemente, Jesus jamais iria responder a seus discípulos com uma lista de “sinais”. Que torpe a pergunta dos discípulos! (Cf. At 1:6. Como nos parecemos com eles!). Jesus lhes descreve inevitáveis acontecimentos históricos, que sempre tem ocorrido, mas os exorta a não confundi-los com sinais nem escutar a voz hipócrita e adúltera dos falsos mestres com seus falsos sinais. Deus quer falar-nos pelas guerras e terremotos que ocorrem, mas não para revelar-nos “os tempos ou as épocas” que só lhes dizem respeito (At 1:7; Mat 24:36).

Alguns apelam a certas passagens nas epístolas que descrevem os vícios e abominações “dos últimos tempos” (1 Tm 4:1-3; 2 Tm 3:1-5; 4:3; 2 Pedro 3.3) e concluem que esses mesmos pecados hoje são sinais da vinda de Cristo. No entanto, os autores bíblicos nunca os chamam “sinais” nem os tratam como tais. Este entendimento equivocado acontece ao não se levar em conta a perspectiva bíblica sobre o “já” da salvação e o seu “ainda” não como aspecto futuro. Para os autores bíblicos, os “últimos tempos” não estavam a dois mil anos de tempo, mas começaram com a ressurreição de Cristo (ver 1 Jo 2:18, um texto realmente surpreendente: “muitos anticristos” antes de 95 d.C., “o último tempo” começou faz dois mil anos!). Paulo ensina o mesmo em 1 Cor 10:11 (cf. 2 Tes 2:7) e Pedro em 1 P 1:20. Segundo o autor de Hebreus, Deus enviou a Cristo “nestes últimos dias” (Heb 1:2).

É muito pouco provável que Paulo estivesse pensando em condições morais e sociais do mundo dois mil anos depois de sua época. Primeira Timóteo é uma “carta pastoral”, para seus leitores, e não um tratado de especulação profética. Todos os males que descreve correspondem perfeitamente a sua própria época, em tempos da decadência do império romano. É claro que Paulo aplica estes ensinos a sua própria época (p.ex. 2 Tm 3:6-10); alguns dos pecados denunciados, que existiam nos tempos de Paulo, já não tem nenhum sentido (como proibir matrimonio, 1Tim 4:3). Isso indica que Paulo estava falando de sua própria época.

É claro que nem Mateus 24 nem estas passagens das epístolas têm a menor intenção de revelar-nos “sinais da vinda do Senhor”. O Espírito Santo inspirou muitas verdades futuras aos autores bíblicos, mas nunca, que eu saiba, “sinais” desta índole. “Não vos compete”, disse o Senhor, “saber os tempos ou as épocas, que o Pai reservou a sua própria autoridade” (At 1:7). Em vez de especular sobre supostos “sinais”, dediquemo-nos a entender o tempo que vivemos e servir ao Senhor e seu reino na conjuntura histórica que nos corresponde.


 Tradução: Eric Brito Cunha

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