quarta-feira, 16 de abril de 2014

Breve colóquio sobre a Esperança






No bojo da crítica da religião, a esperança tem sido alvo de críticas pesadas, e, assim, tem sido esvaziada do seu sentido positivo e vem ganhando conotações ruins com significados inflacionados. 

Reunindo algumas poucas, mas significativas amostras, construí um colóquio onde se “discute” as questões a ela relacionadas:

A esperança aliena? É um desprezo desta vida? Diminui esta vida? Rouba o presente? Desvia o foco para o que não é? Torna a vida mais pesada? É um escape? Gera conformismo? Desmotiva a ação?

As respostas e acusações estão distribuídas por passagens curtas, contudo, conforme a convergência de minhas próprias leituras, escolhi, por um lado, Sponville  para formulação “mais geral” das críticas, e Moltmann para o esboço de possíveis respostas.


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“Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha a sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança – Zeus quis que os homens por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhe deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”, Nietzsche.

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"Se deveras existe um pecado contra a vida talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta", Albert Camus.

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"O homem que não assimilou a beleza desta vida, não pode compreender o significado da 'ressurreição'", Karl Barth.

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“O anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. (...) Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso”, C. S. Lewis.

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“Gustavo Gutiérrez observa que Bultmann, que pretende falar ao homem de hoje, de fato "ignora as questões que vem do mundo da opressão", ao tempo que Barth, o teólogo da transcendência de Deus, é sensível à situação das vítimas da exploração. "Ele que parte do 'céu' é sensível àqueles que vivem no inferno deste mundo, o que parte da 'terra' não vê sobre que situação de exploração ela construída”, Juan Stam.

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“A crítica desfolhou as rosas imaginárias da corrente, não para que as pessoas carreguem uma corrente sem fantasia e consolo, mas para que elas joguem fora e colha a flor viva”, Karl Marx.

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"Quando a fé do Crucificado contradiz todos os conceitos de justiça, beleza e moralidade do homem, então a fé do "Deus crucificado" está contradizendo tudo o que o homem entende, deseja e espera do termo 'Deus'. Dificilmente alguém desejará que 'Deus', o 'ser supremo' e o 'bem maior', seja presente e manifesto no abandono de Jesus na cruz. Qual é o interesse do anelo religioso por comunhão com Deus na crucificação do seu Deus e por sua impotência e abandono na morte absoluta? Apesar de todas as 'rosas' que a necessidade religiosa e a explicação teológica plantaram ao redor da cruz, a cruz é o elemento IRRELIGIOSO da fé cristã. É exatamente o sofrimento de Deus no Cristo expulso e morto na separação de Deus que qualifica a fé cristã como fé e como NÃO DESEJAR. Todo o mundo do cristianismo religioso pode sucumbir à crítica moderna da religião, exceto essa cruz irreligiosa. Na cruz não modelos de projeções de cunho religioso. Antes, do Crucificado parte uma anulação de tudo o que é religioso", Moltmann.

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“A religião é o ópio do povo”, Karl Marx.


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“A Esperança tem duas filhas, a Indignação e a Coragem; a Indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a Coragem, a mudá-las”, Agostinho.


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“Ópio do povo? Nada nunca foi menos opiáceo do que essa religião de sagrado descontentamento, de insatisfação com o status quo. Abrahão, Moisés, Amos e Isaías lutaram em nome da justiça e dignidade humanas. Enfrentaram padres e reis; sem medo, discutiram com Deus. Essa marca, feita pela primeira vez por Abrahão, nunca perdeu a força. Sua expressão mais poderosa se encontra em Jó, com certeza o livro mais contestatório a fazer parte de um cânone de escrituras sagradas. No judaísmo, fé não é aceitação. É protesto contra o mundo tal qual é em nome do mundo como ainda não é, mas deveria ser. A fé não reside na resposta, mas na pergunta – e quanto maior o ser humano, mas eloqüente sua pergunta. A Bíblia não é ópio metafísico, mas precisamente o oposto. Seu propósito não é transportar aquele que crê a um paraíso particular. É, isto sim, o desejo apaixonado, contínuo, de trazer o paraíso até a terra. Até conseguirmos, ainda há trabalho a fazer”, Rabino Jonathan Sacks.

 
I
Sponville: Objeção
Considerando a terceira questão de Kant: “que posso esperar?”, Sponville provoca dizendo que a esperança prometendo tanto “não dá a mínima para os nossos arrazoados”.
Comentando a frase de Dante, “Abandonai toda a esperança, vós que entrais!”, Sponville provoca: “Colocar essa frase na porta do inferno é inútil. Como querer que os danados não tenham esperança?”.
Sponville vai chamar isso de “a cilada da esperança”. Diz: com ou sem Deus: de tanto esperar a felicidade para amanhã, nós nos impedimos de vivê-la hoje. E ele tenta escapar desse “inevitável” com o que chamou de sabedoria do desespero. Para ele, Pascal, Kant e Kierkegaard têm razão: um ateu lúcido não pode escapar do desespero.
Quem não espera nada como ficaria decepcionado? ... Quando desaprenderes de esperar, eu te ensinarei a querer, escrevia Sêneca.
Mas “o que é a esperança?” – pergunta-se. “É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós”. Logo, “esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder”.
“Como esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar, o sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito – já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.”
Só se espera o que não se tem. Quando alguém espera ser feliz é que a felicidade está ausente. Quando ela está presente, ao contrário, o que lhe resta esperar?
A felicidade? Seria ter o que desejamos. Mas como, se o desejo é carência? Se só desejamos o que não temos. Eis-nos separados da felicidade pela própria esperança que a persegue – separados do presente, que é tudo, pelo futuro, que não é.
Desejar o que depende de nós (querer) é proporcionar-se os meios de fazê-lo. Desejar o que não depende (esperar) é condenar-se à impotência e ao ressentimento. Isso indica suficientemente o caminho. O sábio é um homem de ação, enquanto o tolo se contenta com esperar tremendo. O sábio vive no presente: ele só deseja o que é ou o que ele faz. Não é a esperança que faz agir, é a vontade. Não é a esperança que liberta, é a verdade. Não é a esperança que faz viver, é o amor.

I
Moltmann: repostas
A fé nada tem haver com fuga do mundo, resignação e desistência. Nessa esperança, a alma não paira em um céu imaginário de bem-aventurados, longe do vale de lágrimas, nem se desliga da terra. ... Ela não vê na ressurreição de Jesus Cristo a eternidade do céu na terra, mas o futuro da própria terra na qual está plantada sua cruz. ... Por isso, para ela, a cruz é a esperança da terra.
Diz que a esperança não é só consolo, mas contradição. “Cristo, para a esperança, não é só consolo em meio à dor, mas também o protesto da promessa de Deus contra o sofrimento. ... Por isso a fé que de desenvolve em esperança, não traz quietude, mas inquietude; não traz paciência, mas impaciência. Ela não acalma o cor inquietum, mas é esse cor inquietum no ser humano.
Se diante dos olhos tivéssemos só o que enxergamos, certamente nos satisfaríamos, por bem ou por mal, com as coisas presentes, tais como são. Mas o fato de não nos satisfazer, o fato de entre nós e as coisas da realidade não existir harmonia amigável é fruto de uma esperança inextinguível.
Moltmann fala do desespero como pecado contra a esperança. E diz: também o desespero pressupõe esperança.
“Aquilo de que não temos desejo não pode ser objeto nem de nossa esperança, nem de nosso desespero” (Agostinho).
Somente a esperança pode ser chama de “realista”, porque somente ela toma a sério as possibilidades que impregnam tudo o que é real. Ela não toma as coisas na sua estática ou inércia, mas considera a forma como caminham, se movem e são mutáveis em suas possibilidades.
Ele fala do “realismo dos fatos brutos” como vítima de utopias, e um apego à realidade atual. “Também o realismo positivista aparecerá como ilusório, enquanto o mundo não for algo fixo, feito de realidades imutáveis, mas um emaranhado de processos em curso; enquanto o mundo não se mover apenas segundo leis, mas essas mesmas leis estiverem em movimento, enquanto o necessário no mundo for o possível e não o imutável”.
Para a esperança, “o mundo está cheio de todas as possibilidades das possibilidades do Deus da esperança. Ela vê a realidade e os seres humanos na mão daquele que, da perspectiva final, fala para o interior da história: “Eis que da faço novas todas as coisas”.
Moltmann se propõe a lidar com o que considera “a mais séria objeção”: a esperança frustra a felicidade? Ele formula: algo semelhante ao que acontece com o passado, parece acontecer com a esperança: se espera viver, mas não vive; espera um dia tornar-se feliz, e esta espera faz com que o indivíduo passe ao largo da felicidade do presente. Ao se lembrar e ao esperar, ele jamais estará inteiramente dentro de si mesmo ou em seu presente; corre sempre atrás dele ou se antecipa a ele.
Pascal, escreve Moltmann, lamentou esse engano da esperança:
“Nunca nos atemos ao presente; apropriamo-nos antecipadamente do futuro, com se ele viesse muito devagar, como se quiséssemos acelerar-lhe o passo; lembrando-nos do passado, como para segurá-lo, já que desaparece muito depressa. Que insensatez errar pelos tempos que não são nossos e esquecer o único que nos pertence; que vaidade correr atrás dos que não existem e perder o único que tem existência... Nunca o presente é meta ... assim é inevitável que nós, prontos sempre a ser felizes, nunca o somos”.
Nietzsche tentava com a “fidelidade à terra” libertar-se do peso e do engano de tal esperança. 

Como Moltmann responde? 

“O círculo de ferro do dogma da desesperança, ex nihilo nihil fit, é rompido quando se reconhece como Deus alguém que ressuscita os mortos. Quando começamos a viver na fé e na esperança das possibilidades e promessas desse Deus, abre-se diante de nós toda a plenitude da vida enquanto vida histórica, a qual assim pode ser amada”. “A fé ... apenas pode transpor os limites da vida humana, cercadas por muros de sofrimento, pecado e morte, onde estes foram realmente derrubados. ... Onde, pela ressurreição do crucificado, foram rompidas as barreiras contra as quais se despedaçam todas as esperanças humanas, a fé pode e deve alargar-se em esperança”.
“Será que tal esperança frustra o ser humano da felicidade do presente? Como poderia fazê-lo, se é, ela mesma, a felicidade do presente!. ... A espera torna a vida agradável, pois, esperando, o ser humano pode aceitar todo o seu presente e encontrar prazer não só na alegria, mas também no sofrimento, e bem-estar não só na felicidade, mas também na dor. Dessa forma, a esperança atravessa a felicidade e dor, porque é capaz de ver um futuro também para o que passa, o que morre e o que está morto, futuro que está nas promessas de Deus".
“Um ‘sim’ ao presente, que não pode e não quer ver a mortalidade, é ilusão e escapatória, não superada nem mesmo pela afirmação da eternidade do instante que passa. Mas a esperança colocada no creator ex nihilo se torna felicidade, quando pelo amor se mostra fiel a tudo, nada deixando ao nada, mas mostrando a tudo a abertura em direção ao possível, onde poderá viver e viverá”.


REFERÊNCIAS

COMTE-SPONVILLE, André. A Felicidade, Desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

COMTE-SPONVILLE, André. O Espírito do Ateísmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MOLTMANN, J. TEOLOGIA DA ESPERANCA. EDITORA: EDIÇÕES LOYOLA

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