segunda-feira, 12 de maio de 2014

VOCAÇÃO




Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus.

Êxodo, 10 Mandamentos



O que se casou cuida de como agradar à esposa...

O casamento envolve a pessoa nos emaranhados da vida doméstica. Essas demandas exigem quase toda nossa atenção.

I Coríntio 7.34...



Vós, trabalhadores exerçam vossas atribuições, com zelo e devoção, como se estivessem servindo a Cristo e fazendo a vontade de Deus.

Efésios 6.7... e Colossenses 3.22...



O respeitado historiador brasileiro Antônio Gouvea de Mendonça diz que o protestantismo instalado no Brasil foi predominantemente o protestantismo de missão, influenciado pela teologia do pietismo, por Wesley, e pelos avivamentos. Assim, são suas características a pregação individualista, ascética, convercionista e apocalípta: traços que passaram a ser definitivos na identidade do nosso Protestantismo.

O pietismo[i] marcou nossa visão da vida e da fé, e, no sentido aqui explorado, influenciou negativamente, fazendo-nos míopes em relação à extensão da Graça comum e do Mandato Cultural, de fato, legou ao movimento evangélico uma deficiente teologia da criação e uma teologia desequilibradamente redencionista.

Os reflexos práticos é o confinamento da espiritualidade às atividades eclesiásticas, roubando o valor real da vida “secular”, que, afinal, é vida corrente.

É preciso que se diga, contra o pietismo, que a vida em suas dimensões, é a vida do homem, projetada por Deus. O sentido de ser homem se desenvolve ali. Sejam lá quais a importância da dimensão sacra e eclesiástica da vida, ela acrescenta a vida, e não lhe faz oposição. É parte dela, não é ela.

O pietismo marca o homem com o sentimento de insuficiência e culpa, quando este é, por exemplo, “apenas” um bom pai, esposo, filho, vizinho... Observe como nas igrejas tais relações são periféricas no que se refere ao ideal de homem de Deus. Homem de Deus, para eles, é o pregador. Que acaba sendo homem de Deus “de igreja”.

O pietismo, que no meio Pentecostal tem maior influência, passa a ideia de que o ideal de vocação e de espiritualidade são os chamados ministeriais. Esse é um conceito católico medieval de castas e graus.

A fé que apenas inspira os jovens a aspirarem ao púlpito, é uma fé deficiente: por mais piedosa que pareça.

"Quantas vezes nós assumimos anseios daquilo que queremos nos tornar ministerialmente e assumimos essas personalidades, esses papéis, e percebemos que aquilo que colocamos sobre nós mesmos acaba por se constitui como que uma armadura de Saul - que não combina com o nosso  biotipo, que não se encaixa nas nossas formas, que não se adéqua aos dons que recebemos de Deus, que não se coadunam com as experiências de vida que carregamos, não fazem ressonância com o nosso berço, com a nossa história, com a nossa trajetória. E muito menos ressonância com o horizonte futuro que Deus mesmo tem definido para cada um de nós...", expressa Ed Rene Kivitz.

Embora todo cristão esteja inserido na Missão de Deus, nem todo cristão é um missionário. Explico. Todo cristão deve fazer missão. Afinal, ser cristão é estar em missão. Não se faz missão apenas fazendo missão. Mas exercendo sua vocação. Ocupando seu lugar. Dando a sua contribuição. Nem todo cristão possui o ofício de missionário, evangelista, pregador... Quero crer que essa é a vontade de Deus: já que Ele não chama/vocaciona todos para estes ofícios, antes, sua Graça é multiforme.

Não é que o missionário deva se sentir menos especial, é que o pai de família não deve se sentir menos vocacionado, e não deixe de perceber o que faz como chamado de Deus.

Esse reducionismo pietista da vida[ii], não é o olhar equilibrado marcado pelas referências do Evangelho que busca na cultura humana o que há de excelente.

No Evangelho a vida comum do homem ainda é o propósito de Deus. “Homem de Deus”, não é um ideal. É de Deus o homem que vive a sua rotina à Sua Presença, à Sua luz, à Sua glória.

Um dia, perguntaram a Lutero o que ele faria se soubesse que Jesus voltaria amanhã, ao que ele respondeu: Eu plantaria uma árvore. E o que Ele quis dizer? Que Deus se importa com a atividade comum do homem.

Num sermão sobre Gênesis ele disse: “Por seu intermédio Deus trabalhará todas as coisas; ele vai ordenhar as vacas e desempenhar as tarefas mais humildes por meio de você, e todas as tarefas, da maior até a menor, serão agradáveis a ele”.

Uma conhecida história a seu respeito diz que um sapateiro recém convertido lhe perguntou com certa ansiedade, o que ele poderia passar a fazer para ser a Deus. Lutero, como Jesus fez várias vezes, lhe devolveu de volta a sua vida, dizendo-o: "Faça um bom sapato e venda-o por um preço justo".

É digno, é justo e é santo que homem viva a sua família, se dedique ao seu trabalho, seja participante em sua comunidade.

Essa míope e deficiente Teologia da criação cria uma falsa imagem do Criador, da história: palco de Seus propósitos, da Salvação, da vida e ética dos cristãos.

Por fim, de uma perspectiva mais existencial, contra esse pietismo, que é ascético, o J. Durandeaux, meditando na mensagem do Eclesiaste, escreve uma brilhante sentença que acredito sintetizar tudo: «Aprendo de Qohélet que é possível amar todos os prazeres amando a Deus, e sem ser neurótico»
  
Jesus participava da vida, amava a vida. O que na vida, odiou e contra o quê lutou, era o que, no homem, era um bloqueio à vida melhor, era a rejeição da vida, era o que soava como morte. Ele veio para trazer vida. Para dar vida abundante. Jesus, o Salvador, é Ele mesmo o Autor da Vida. Nele, até a renuncia era em favor da vida, jamais uma renuncia da vida.

O Autor da Vida teve a estatura de varão perfeito até na forma como a viveu em sua dimensão humana. Usufruiu do bem da criação como quem saboreava a Bondade de Deus.

O pietismo nos deixou neurótico com tudo o que não é eclesiástico. É preciso reencontrarmos o Criador no mundo.

Disse bem o Rubem Alves:

“No Génesis está escrito que, ao terminar o seu trabalho, Deus viu que tudo “era muito bom”. O mais alto sonho de Deus é um jardim. Essa é a razão por que no Paraíso não havia templos e altares. Para quê? “Deus andava pelo meio do jardim…”. Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve a ideia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Uma coisa eu garanto: não foi ideia dele. Seria bonito se as religiões, em vez de gastarem dinheiro construindo templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianças, adultos e velhos poderiam balançar e tocar com os pés nas folhas das árvores".



[i] O fenômeno é, pois, mais antigo: remetido as teses da Reforma Radical, que o Samuel Escobar denominou como “anabatistização” do protestantismo e o professor Robinson Cavalcanti de neoanabatismo. Mas aqui, para os nossos propósitos, de forma genérica, o chamarei apenas de “pietismo”.

[ii] Todos sabemos os baixos dilemas provados por essa perspectiva: “música do mundo”... “morar no céu”.

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