terça-feira, 8 de julho de 2014

A entrevista do Caio Fabio - anotações

Caio Fábio, líder do movimento O Caminho da Graça foi entrevistado dia 23 de Junho em um talk show de vinculação nacional. A conversa durou cerca de 35 minutos. O papo trasncorreu em tom informal, não jornalístico, seguindo o perfil de entretenimento do entrevistador e dos atores do programa, advindos da comédia stand up, protagonizando esquetes e intervenções bem humorados, outras, em minha opinião, descartáveis.

Pretendo aqui tecer alguns comentários. Meu ensejo não é uma análise teológica, tampouco estabelecer uma grande revisão sobre o que foi dito, uma "análise de discurso". Quero, apenas e de fato, tecer anotação advindas de um observador do movimento evangélico e porque Caio é significativo diante das novas configurações dos evangélicos, sobretudo no que podemos classificar como "evagélicos sem denominação" (IBGE) e sua biografia é incontestavelmente relevante dentro do protestantismo evangélico. Teologicamente, "para não dizer que não falei de flores", certos pontos criaram desconforto a população evangélica 
de uma manieira geral: a) seu divórcio; b) a declaração sobre sua primeira experiência sexual, ocorrida aos 5 anos de idade, com uma babá, de 15 (o que, de fato é um tema extremamente sensível), e c) alguns temas de ordem de interpretação bíblica: 1) a caducidade do Antigo Testamento e 2) sobre a personagem bíblica "Ogue", que teria sobrevivido ao dílúvio. Estes são os principais pontos teológicos, sem pormenores.

600 mil views são contabilizados logo na primeira semana após sua publicação da entrevista no canal oficial do programa no youtube. Até agora é uma das entrevistas mais assistidas. Caso levarmos em consideração seus dois vídeos (versão "na íntegra" e parcial), sua entrevista é a terceira maior audiência do programa, atrás apenas da entrevista de Silas Malafaia, pastor da igreja Vitória em Cristo e da apresentadora Raquel Sherazade, do SBT.

O interesse por seus conteúdos iluminam um fato: dificilmente podemos pensar o evangelicalismo brasileiro, dos anos 90 em frente, sem considerar a figura de Caio. Quando o campo evangélico era mais ou menos matizado, com fronteiras denominacionais bem definidas e surgida a forte investida da Igreja Universal do Reino de Deus (1977), o, até então, reverendo presbiteriano era reconhecido pela população e mídia como um referencial dos evangélicos e muitas vezes requisitado com o "voz" para o evangelicalísmo emergente. Fundou e foi o primeiro presidente a Aliança Evangélica Brasileira (AEVB), para separar o "joio" (representado pela fecunda teologia da prosperidade) do "trigo". 

Em 1998 ele "cai em pecado". Seu divórcio e envolvimento com o "Dossiê Cayman" tira-o de cena. Só retorna em meados de 2002 com o Café com Graça, na cidade de Rio de Janeiro. Para muitos: ainda caído, para outros - ainda o "velho e bom Caio", ao redor de sua pregação forma-se o O Caminho da Graça em meados de 2003. Caio é o líder e mentor do movimento até hoje.

"Polêmico até para os evangélicos", como anunciou o entrevistador Gentili, ou como lembrou a blogueira da revista evangélica Ultimato, Bráulia Ribeiro: "Não existe meio termo. O homem ou é o diabo ou é um semideus." (1). Na opinião do Blog evangélico Púpito Cristão, "Caio, parece mais não é", nesta mídia de linha calvinista, encontramos um alerta aos seu leitores em relações as "heresias" do ex-reverendo presbiteriano. O colunista Renato Kramer da Folha de São Paulo tomou como referencia o ponto da entrevista onde o líder cristão reporta-se à homossexualidade e cunhou o título de seu artigo: "´A maior eclosão de compulsão gay está no movimento evangélico´, diz ex-ministro presbiteriano". Em seu aporte, Kramer sustenta que "Caio Fábio parecia querer desabafar em rede nacional todo um descontentamento com o que acontece muitas vezes por detrás dos cultos de algumas vertentes evangélicas."

A candidata a deputada federal pelo PSC (Partido Social Cristão), ex-psicóloga Marisa Lobo, em seu perfil no facebook referiu-se negativamente a entrevista. Marisa Lobo, que em últimas declarações tem levantado a bandeira da "cura gay", alinhado-se à bancada evangélica e também afim deste partido que é  a base para a candidatura do Pastor Everaldo, presidenciável em 2014. Sem dúvida, fomentou a polarização dos debates e o de "amor e ódio" à Caio.


Digo, precisaria de muita disposição para sublinhar a "área de comentários" de tais blogs. É o espaço onde o leitor expressa sua opinião particular. Em cada um desses artigos publicados, tais áreas vão à perder de vistas... posso apostar algumas fichas que esta pluralidade de visões religiosas é uma das comprovações da pluralização dos evangélicos em um Brasil amadurecendo-se em sua laicidade e liberdade de expressão religiosas. No campo evangélico, especialmente a partir dos anos 1990 com a fragmentação desta categoria ["evangélicos"], hoje engendrada em um miríade de denominações e igrejas. São comentários de uma diversidade extraordinária que demonstra como os (anteriormente) denominados "não católicos", atualmente ocupam um espaço de múltiplas vozes e polissemias espirituais, teologias, liturgias, pensamento místico inesgotáveis, (falta de ) identidades, no mesmo ritmo em que a dissidências das grandes denominações ocorrem; se antes a escala era de 10x10, hoje tal fragmentação desloca-se à escala do indivíduo, 1x1. Os sociólogos da religião referem-se esta pluralização como sendo uma "religião de mercado", voltada ao suprimento de ofertas espirituais aos seus seguidores: caso não goste da igreja, é só trocar de fornecedor.

Caio, ao se declarar opositor do movimento evangélico, cria um grande paradoxo. Este segmento, segundo o líder, tornou-se uma "hidra de muitas cabeças", como sempre se refere. Desta forma, o ex-reverendo representa um entre-lugar religioso e ressoa nos sujeitos que desejam novas experiências, não usuais, informais e (como ouço muito) fugir da hipocrisia de fé cristã, um lugar de acolhimento. Ao mesmo, tempo ilumina o que os analistas dos dados do IBGE nos últimos anos já sabem: o declínio numérico das denominações históricas e do catolicismo romano, e  a acréscimo numérico dos neo pentecostais e da teologia da prosperidade.


(1) - http://ultimato.com.br/sites/brauliaribeiro/2014/06/25/caio/

Autor: L. Chiroma, No Link.

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