segunda-feira, 14 de julho de 2014

FUNDAMENTALISMO

Se você quer brigar
E acha que com isso
Estou sofrendo
Se enganou meu bem
Pode vir quente
Que eu estou fervendo”
  
"Toda a gente é ortodoxa para si mesma", John Locke
Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não consumais também uns aos outros”
Gálatas 5:14-15
Apesar de ser um termo inflacionado (que abarca uma multidão de significados), podemos dizer que o fundamentalismo é uma doença religiosa. E, de fato, muitos têm classificado o fundamentalismo como uma Psicopatologia religiosa. O Gunter Hole associa a características de personalidades de índole neurótica (paranoides, esquizitoides).
Todo mundo pode identificar um fundamentalista só ao vê-lo” escreve Miroslav Volf. E diz que normalmente é um tipo tremendamente beligerante, que resiste a aceitar um mundo que não é conforme seus rígidos princípios religiosos.
Em seu livro Piedade Pervertida, o Ricardo Quadros Gouveia assim define o Fundamentalismo: “o fundamentalismo é uma forma fanática e neurótica de religiosidade” que se defende contra as forças espirituais maléficas encarnadas “ora na ciência moderna, ora no humanismo, ora na reflexão crítica, ora na consciência sócio-política e econômica, ora na arte”. E sobre os efeitos relacionais dessa neurose: “Para o fundamentalista, o demônio é o “outro”... ele vê no outro (e na alteridade) uma ameaça.”
Volf diz: “ele e seus amigos são anjos de luz; seus inimigos, príncipes das trevas. Para ele não há meio termo”.
Miroslav Volf fala de sua “decidida tendência a um exagero simplista”. E Gunter Hole os chama de “terribles simplificateurs” (terríveis simplificadores.
Ainda ele, descrevendo fanatismo do fundamentalista, diz “A intensidade anormal na persecução e implantação de uma só atitude ou “idéia supervalorizada””. Ele fala sobre uma “total identificação com a idéia” e em inclinações de índole fundamentalistaespecialmente no que se refere a tendência a orientar, por um valor único sumamente determinado, todo o mundo de valores”. E diz de um fundamentalista/fanático: “é característico o estar ocupado por uma só idéia ou atitude de fé, que não permite junto a se nenhuma outra possibilidade”. E ainda fala na “atitude fundamental de alternativa radical (ou uma coisa, ou outra)” como componente estrutural de sua personalidade.
Petrilowitsch os descreve como possuindo “uma normal capacidade de perseverança obstinadas nas próprias convicções”.
Hole ainda cita a sua “incapacidade para auto-crítica” e as necessidades de autoconfirmação, imposição agressiva e validez absoluta.
O G. Marsden diz que: “Um fundamentalista é um evangélico com raiva de alguma coisa”. O Umberto Eco por sua vez os descreve: “Fundamentalistas dão um toque de arrogante intolerância e rígida indiferença para com aqueles que não compartilham suas visões de mundo”.
O fundamentalista, disse alguém, esconde sua violência atrás de pretensas boas intenções: e o Protestantismo de Reta Doutrina é uma mãe parideira deles.
E até a Bíblia se torna a fonte de maldades.
Com razão a Desciclopédia satiriza o perfil: “Eu apenas faço o que Deus manda...” (Fundamentalista se achando o filho fiel sobre única maneira de se sentir alguma coisa).
Sim, para um fundamentalista a verdade é uma navalha. Ela corta e separa. A verdade leva a beligerância e a olhar pretensiosamente de cima. A verdade é, absolutamente, o que eu acho dela, e, portanto, ela é eu.
Ele só vê na Bíblia o que ele quer ver. Assim, ele atropela toda a mensagem para subsidiar sua visão.
O James F. McGrath escreve: “o fundamentalismo me parece mais uma questão de orgulho que outra coisa. É um fato conhecido que as pessoas que aderem à infabilidade da Bíblia tiram conclusões muito diferentes acerca do que ela quer dizer. Apesar disso, na maioria das vezes, entre os fundamentalistas, a crença na infabilidade da Escritura é tomada como uma salvaguarda da infabilidade dos próprios pontos de vista” (Tradução livre).
E ainda fala sobre um “tratamento idólatra da Bíblia”, o que significa atribuí-la atributos que só Deus possui. E, assim, de igual modo, se idolatrar: “tem haver com tratar-se a si mesmo como infalível, e, portanto, elevar-se a si mesmo à categoria de divino”.
Desde às origens, o Fundamentalismo não existe sem o modernismo: é um parasita, define sua identidade pelos seus inimigos. Martin E. Marty fala no contra-ataque como “princípio constitutivo do fundamentalismo”. Diz que isso “determina as configurações de seus métodos, de seus postulados e inclusive de seus conteúdos teológicos”.
De onde, portanto, vem o sentimento homicida em relação ao Caio Fábio? [entenda AQUI] Ora, por identificar na teologia do Caio Fábio conexões com o liberalismo teológico e a neo-ortodoxia: os inimigos da sua verdade. Muito natural, portanto, os termos de tratamento usado para o Caio Fábio: o demônio, o herege.
O pastor brasileiro Odayr Olivett [Tradutor dos quatro volumes de “As Institutas” de Calvino da edição original francesa de 1541. E já traduziu mais de 130 livros, de autores como Martyn Lloyd Jones e John Stott], falando sobre os perigos que há na colocação simplista de rótulos em pessoas, diz: “alguns dos perigos que vejo são os seguintes: (1) Injustiça: Geralmente, os rótulos expressam ou realçam aspectos, não a realidade integral. (2) Erro: Os rótulos podem refletir conceitos subjetivos do rotulador -- e não os conceitos das pessoas, das igrejas e dos movimentos rotulados. (3) Generalização: Características particulares podem ser indevidamente estendidas ao todo”. E ainda: “Não uso os termos liberalismo, liberais (senão entre aspas), porque o termo liberal é altamente positivo e salienta largueza de visão e liberdade de pesquisa”.
O Ricardo Quadros critica: “Como se o mero rótulo pudesse explicar a complexidade do pensamento de uma pessoa”.
Para um fundamentalista, vale tudo pela Bíblia/verdade! O que significa: vale ser CONTRA tudo. E é aí que a doença tem o seu sintoma mais grave:
O fundamentalismo é a perda gradual ou radical da realidade, por uma intransigência na obediência de princípios e regras”, Jorge Humberto. Ele ainda diz que o fundamentalista exerce esse modo de ser, surdo e mudo à toda a existência de fato. O Geiko Muller-Fahrenhoz diz que o fundamentalismo é conseqüência de alienação.
Com essa perda da realidade, ele deixa de ver a feiúra de seu comportamento. Pela “verdade”, ele perde qualquer alteridade. Com essa perda da realidade, ele se acresce intelectualmente (está sobre os ombros de Deus) e vê todos que discordam como pequeno.
Gunter Hole mais uma vez os caracteriza: “a estimação equivocada ou a superestima das próprias possibilidades”.
A tentação fundamentalista
Não posso terminar sem a séria observação de que reconheço que o fundamentalismo é uma tentação.
Como Miroslav Volf vai explicar:
O fenômeno fundamentalista, com seus aspectos positivos e negativos, suscita um problema teológico do mais diligente: se pode falar da realidade última e de suas pretensões sobre o mundo, sem adotar uma postura fundamentalista? O problema é tremendamente real. Não é muito difícil compreender porque um fundamentalista – ou, de fato, qualquer pessoa religiosa – pretenda falar sobre “a rocha incomovível” com absoluta segurança. Se essa “rocha viva” não acabar convertendo-se em “areia movediça” – como explica um conhecido discurso de Jesus no Evangelho-, o lógico é que minha crença nessa “rocha” seja tão sólida quanto a própria rocha. E a razão é bem simples: para mim, a “rocha” é o que eu creio sobre ela, porque só me é acessível através de minhas crenças e convicções de fé”.
O centro epistêmico e metafísico do discurso filosófico desde a filosofia moderna impôs condições que, em minha opinião, é o próprio despir da fé.
Se entrarmos na arena do debate, estaremos sujeitos às suas regras.
Se a Bíblia é o pão metafísico que desce do céu na mesa do debate filosófico, pareceriam mais coerentes as posições do Gordon Clark: “No princípio era a Lógica... ela estava com Deus. Ela era Deus”. E do Norman Geisler: no debate, a lógica é anterior a Deus. Assim, a Metafísica e as regras da lógica teriam que ser matéria obrigatória da dogmática cristã: pois epistemologicamente, precederiam as Escrituras, que precederia Deus e Cristo. O chiste inevitável é que Aristóteles e sua ciência lógica seria a luz de todo o sistema.
Assim, ao entrar no debate, a fé precisa explicar-se: e esse é o próprio fim da fé, que nasce no intangível da experiência Graça. Ela precisaria sair do seu âmbito. Isso não precisa ser radicalizado em fideísmo ou irracionalismo, mas certamente é místico. Conquanto que seja humano e racionalizável. É racionalizável dentro de um escopo mais abrangente do conhecimento e experiência humana: sem precisar se colocar no centro e nos termos do debate filosófico, sem fazer-se caber no âmbito estritamente racional. Até porque, como disse um teólogo francês medieval, “se Deus existisse como as coisas existem, então Ele não existiria”.
Mais uma vez, o antídoto para o fundamentalismo é a realidade, complexa como ela é. É o chão e a labuta hermenêutica. É a auto-crítica e a percepção de que é uma voz entre outras. Sua cura é a empatia. O reconhecimento do outro como autêntico cristão que pensa diferente e de sua respectiva interpretação como possível. Ele precisa descobrir que não tem o monopólio da verdade, que não é ele que é inspirado, e que a Bíblia sobreviveu e sobreviverá sem ele. 

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