sábado, 3 de janeiro de 2015

Calvino para leigos - uma entrevista


Se sou Calvinista ou Calvino para leigos
- uma Entrevista com Calvino

Observações preliminares.

1. Algumas pessoas protestam contra o que se diz – que a predestinação seja a linha mestre da teologia de Calvino (ex. Franklin Ferreira, Alister Mcgrath...). Argumentam, por exemplo, sobre a quantidade de linhas dedicadas a outros assuntos – como a oração - ou o lugar (a sequência) em que trata da predestinação (dentro da doutrina da salvação). Contudo, observo que talvez seja possível traçar a predestinação como um linha mestra de sua abordagem, que se faz presente - às vezes não explicitamente, mas como pano de fundo - quando Calvino fala de outros assuntos, como me parece ser óbvio no caso da oração. Ao abordá-la, a questão da predestinação precisa ser enfrentada: por que orar se “a vontade de Deus é a necessidade das coisas”?

2. Há muitos calvinismos, e é preciso ter em mente tal diversidade e referir-se com mais cuidado e detalhe quando a situação o pedir.

3. Alguns defendem uma distinção entre Calvino e o movimento diverso de seus seguidores. Assim, fala-se em calvinismo extremo, por exemplo. Aqui, trava-se a questão se Calvino defendeu ou não a expiação limitada, ou se Calvino defendeu a predestinação dupla, isto é, que Deus tenha predestinado também para perdição. A mim, não resta dúvida que assim o fez: e provaremos nossa posição no texto que segue. E se o fez, essa tentativa de aliviar a radicalidade de sua teologia é inconsistente.

4. Alguns não aceitam o termo Calviniano para classificar uma outra proximidade com Calvino, que não propriamente a calvinista. Sou a favor de que “Calvino” não seja o termo-teto de um sistema teológico, mas que se busque alternativas. Qualquer que seja minha alternativa, admiro, aprecio e me beneficio do trabalho de Calvino, embora não possa ser definido por calvinista. Assim, parece ser próprio que se use outros termos.

5.  O debate das alternativas (inclusive nos atendo apenas ao Protestantismo) ao calvinismo é injusto pela força e poder dos calvinistas na história. A bibliografia calvinista é onipresente.

6. Os termos limitam o debate. Assim, não prefiro e não me atenho a estar sob a acunha de um termo tal qual “calvinista” ou “arminiano”. Conquanto não podermos nos livrarmos deles, é preciso que se delimite suas funções e se torne mais claro ainda suas deformações, como me parece claro que o termo “arminiano” se tornou um acúmulo de pré-conceitos. Ademais, o risco é de cair no dualismo. Uma maior consciência histórica nos informa do volume e a profundidade do debate que talvez tenha ganhado todas suas formas antes de Calvino. Embora Calvino, e antes dele Lutero, e todo aquele momento histórico da Reforma e pós-Reforma, tenham se tornado referência do assunto, é preciso que se considere outros marcos tais como Agostinho, Pelágio, Luis de Molina (1536 -1600), Cornélio Jansen (1585 1638), Karl Barth e Hans Kung, John Wesley e George Whitefield e muitos outros. Dessa perspectiva, subscrever absolutamente o termo me parece uma imposição muito reducionista e conveniente.

7. Essa interação está limitada a tradução das Institutas que me ative. Não achei que precisava de precisão técnica.

8. Calvino é de uma riqueza exegética tal, que talvez seja o grande marco para a exegese no Protestantismo. Contudo, os estudos bíblicos avançaram muito, e, hoje, se tem recursos e pesquisas que ele não teve acesso. É preciso reconhecer também as suas limitações.

9. Conquanto tenha sido um excelente exegeta, a abordagem que o marca é a teológica, marcado pelo "princípio teológico de interpretação bíblica” (L. Berkhoff). Um método mais tendencioso, e, em seu tempo, não tinha os benefícios e os limites impostos pela teologia bíblica. Assim, é de minha percepção que o princípio da analogia das Escrituras foi utilizado de modo inadequado por ele em alguns lugares. Este é um princípio limitado. A teologia bíblica deve deixar o texto falar, e, se ele precisar ser harmonizado, em minha opinião, ele não deve ser harmonizado meramente por tema, antes, especialmente pelo NT e à luz da mensagem central e missão integral da igreja (Quadros).

O teólogo I. Howard Marshall dá um excelente exemplo desse ponto ao tratar da predestinação em João, ele conclui:
“Quando estes vários pontos são reunidos, fica claro que uma simples divisão de homens em aqueles que estão preordenados a responder ao evangelho e aqueles que estão preordenados a rejeitá-lo deixa de fazer justiça à complexidade do pensamento de João... É sábio, portanto, não pressionar a linguagem predestinacionista de João longe demais e extrair dela a teoria de uma cadeia lógica e inevitável de causação divina”.

A Entrevista

Para Calvino, Deus rejeita, e ponto.

Diz-se que Deus conhece o futuro, e, assim, “predestina”: porque sabe diante mão as obras que aquela vida há de andar, quais escolhas fará, e que tal pessoa rejeitará o evangelho. Deus predestina genericamente para perdição aqueles que não aceitariam a mensagem do evangelho.

- Calvino, o que você diria sobre isso?

- Toda essa argumentação é, para início de conversa, inconsistente. Depois, não é o ensino das Escrituras. Definitivamente “Deus não predestina conforme a presciência das más obras”. Essa não é uma boa defesa da justiça de Deus. Deus não precisa dessa defesa. E, mesmo que ela tenha boas motivações, seus resultados são nocivos e afrontosos à verdade.

- E então?

- Deus predestina baseado em si mesmo. Predestina porque quer. Ele escolhe alguns para perdição. Também “a rejeição dos réprobos procede também da vontade divina”. Deus escolheu, antes, desde a eternidade, porque quis, pessoas para perdição, criadas para isso.

Para não deixar dúvidas quanto a isso, ele ainda diz:

“Ora, como Jacó, sem ainda nada merecer por suas boas obras, é recebido à graça; assim também Esaú, ainda de nenhum inclinado ao delito, é tido em ódio”.

- Pode esclarecer?

- Argumento que, quanto ao ódio de Deus por Esaú, poderia ser levantada como objeção a ideia de que Esaú apenas recebia a paga por sua maldade. Mas que a tese de Paulo era que Esaú foi suscitado para esse fim: “os réprobos são suscitados para este fim, ou, seja, para que através deles a glória de Deus resplandeça”. Em Rm 9.18, por exemplo...

- Continue...

- “Vês como o Apóstolo entrega ao mero arbítrio de Deus a um E ao outro? Portanto, se não podemos assinalar outra razão por que Deus usa de misericórdia para com os seus, a não ser porque assim lhe apraz, tampouco disporemos de outra razão por que rejeita e exclui aos demais, senão pelo uso deste mesmo beneplácito. Quando, pois, se diz ou que Deus endurece, ou cumula de misericórdia a quem quis, com isso são os homens admoestados a não buscar nenhuma outra causa que esteja fora de sua vontade”.

- Pode resumir, então, seu pensamento?

- Deus rejeita e exclui porque quer, porque lhe apraz. Não há saída: Deus quer perdidos. Deus se gloria com os perdidos.

- Você é muito seguro no que diz. Vamos prosseguir. Alguns duvidam de que em seus escritos você ensine a dupla predestinação...

- Então eu a afirmo novamente: a tese de que “a realidade da eleição não implica a realidade da reprovação” é improcedente.

- Pode explicar?

- “Muitos, como se quisessem impedir que Deus seja acusado de tão odiosa discriminação, então admitem a eleição, mas de maneira que negam que alguém seja reprovado”. Isso é auto-engano inepto e infantil, pois “a própria eleição não pode ser mantida, a não ser que seja confrontada com a reprovação”.

- Alguns acham que Deus estende o Seu convite a todos, e permanece na expectativa do arrependimento...

- Que frivolidade! Quer dizer que Deus “não rejeita totalmente àqueles a quem tolera com brandura; ao contrário, permanece de ânimo suspenso para com eles para ver se arrependam”? Frivolidade! “Como se de fato Paulo atribuísse a Deus paciência mercê da qual aguarde a conversão daqueles que diz já preparados para a perdição.”

- Então não há mesmo espaço para alternativas? Deus preparou alguns para perdição?

- Sim, Deus reprova porque “os quer excluir”.

- Para não deixar dúvidas: o homem se perde por...?

- Por “Ordenação” de Deus.

- O que dizer, então, àqueles que acham que “Deus é o autor da salvação dos fiéis, e que se deve atribuir-lhe a glória desse fato; mas que aqueles que se perdem se deve a eles mesmos por meio de seu livre-arbítrio, sem que Deus os reprove”?

- Estão fugindo das Escrituras.

- Pode ser mais específico?

- Há os que, instruídos por passagens como Ez 33.11 - “Deus não quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva”, acreditam que Deus tem boa disposição para todo homem...

- Mas qual é o verdadeiro ensino dessa passagem?

- “A intenção genuína do Profeta” é “propiciar a esperança de perdão somente aos que se arrependem”. Deus não quer a morte de alguns! Não tem prazer apenas na morte daqueles que escolheu e que, será em fim convidado à vida. É o que a experiência ensina.

- É comum que se use a expressão “Deus permitiu”, segundo a qual “os ímpios perecem pela mera permissão divina, não porque Deus assim o queira”, o que você diria?

- “Mas, por que diremos que o permite, senão porque assim o quer?” Tal distinção é irrelevante. E dá no mesmo!

- O que é a predestinação?

- “A administração da justiça... oculta”.

- E oculta mesmo! (risos)

- Mas o corolário é visível e torna tudo mais claro: se Deus é justo, a predestinação é irrepreensível.

- Alguns não concordariam...

- Os perdidos “não eram indignos de sua predestinação para tal fim”. Irrepreensível!

- A predestinação confere a indignidade?

- “A perdição de tal maneira pende da predestinação divina, que ao mesmo tempo há de haver neles a causa e a matéria dela”.

- Dizem que você não ensinou o livre-arbítrio, antes, a liberdade - que você define de modo diferente. Diz-se que essa liberdade como você a concebe pode ser determinada de modo que uma necessidade pode agir sobre ela sem anulá-la. Não sei se seu pensamento foi assimilado bem. Você pode sintetizar o que crer sobre essa questão?

- “O homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus; no entanto, cai por falha sua”.

- Outra questão do seu pensamento que nos atormenta... Se Deus age através dos ímpios em sua impiedade, como você diz, Deus não estaria deixando suas digitais no pecado?

- “O entendimento carnal mal pode compreender”... Se espantam-se com isso, o que dirão ao saber que o enigma é ainda maior?

- Qual enigma?

- Deus não só não tem culpa, como condena, de forma justa, seus servos por, em sua maldade, obedecer-lhe.

- Realmente é difícil de entender, será que sou carnal? (risos)

- Antes, é preciso mais uma vez deixar claro que a maldade não acontece por mera permissão de Deus. “Deus, a seu arbítrio, arrasta todos os réprobos ao próprio Satanás”. “Satanás e todos os ímpios estão de tal modo sob a mão e a autoridade de Deus, que este lhes dirige a malignidade a qualquer fim que lhe apraz e faz uso de seus atos abomináveis para executar seus juízos”.

- É difícil de acompanhar. É este um ensino das Escrituras?

- “Verdadeira esta afirmação: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou; como aprouve a Deus, assim se fez” [Jó 1.21], desta provação concluímos que Satanás e os salteadores perversos foram os ministros; Deus foi o autor”.

- Mas ainda não entendi como Deus não pode ser também responsabilizado...

- Esse alarme todo é sóbrio pois também confesso a aparência de absurdo. Até eu devo reconhecer isso. Mas deixa eu dar um exemplo. Deus cega um homem e depois culpa-lhe por ser cego. Isso é realmente aparentemente absurdo. Mas que outro jeito, se é assim que é? Iremos tergiversar? Deus é Deus. E Ele é justo.

- Mas não consigo alcançar a justiça nisso tudo...

- “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à imensa sabedoria de Deus, que sucumba em seus muitos arcanos. Pois dessas coisas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, uma espécie de loucura, a avidez de conhecimento”.

- Mas é possível concluir que tudo o que expõe é “lícito” saber...? Digo: não passou em algum lugar para um terreno de especulação e um terreno extra-Escritura?

- Quer você goste ou não...

- Não gosto...! (risos) Me desculpe, prossiga...

- Quer você queira ou não, “Deus quer que o pérfido rei Acabe seja enganado; para esse fim oferece seus préstimos ao Diabo”. “Deus é o árbitro real das guerras e da paz, e isto sem qualquer exceção”.

- Ufa! Mas, para finalizarmos, você não estaria guardando aí uma carta na manga, algo que relativizasse o que disse, e que me acalmasse?

- De fato: o decreto é terrível!

- Ô se é... (risos).

Eric Cunha,
Itabuna-Ba
03/01/2015

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