quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Céu e Inferno - Jorge Luis Borges






O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações res­sur­gi­rem do pó para acatar a Boca ina­pe­lá­vel, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eter­na­mente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçul­ma­nos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.

Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, con­cên­tri­cas teorias de tronos, potes­ta­des e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as pro­fun­di­da­des da rosa nem o esplendor desa­for­tu­nado de um só de seus tigres, nem a deli­ca­deza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua mise­ri­cór­dia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.

Na janela de um sonho vis­lum­brei os pro­me­ti­dos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obli­te­rado e brus­ca­mente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto ador­me­cido, imóvel, fiel, inal­te­rá­vel (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a con­tem­pla­ção desse imediato rosto inces­sante, intato, incor­rup­tí­vel será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.


 Jorge Luis Borges
Fonte: Paulo Brabo

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