segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Romanos 9, pistas e sustos






Romanos 9, pistas e sustos

Digo a verdade em Cristo, não minto; minha consciência o confirma no Espírito Santo: tenho grande tristeza e constante angústia em meu coração. Que eleitos não sintam o menor desejo de ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor dos “perdidos”. Isso jamais é assunto de especulação “provavelmente se perderão...”. Perdido é aquele que se perde: algo que só se define no final. Portanto, enquanto o final no chega, tudo o que temos é pessoas sob a oferta do amor de Cristo.
Eric


Gosto da ideia de susto e choque diante de um texto, no sentido de que ele pode nos surpreender. O que é também dizer: ele fala por si, e desfaz o que “eu acho sobre ele”. O susto derruba pre-concebimentos. O susto é quando as Escrituras é, de fato, a mestra.


“Jacó e Esaú”, aportes

Jacó e Esaú, em Romanos 9, 10 e 11 são nomes com sentidos diferentes.

1. São indivíduos, irmãos, filhos de Isaque, com a dramática história registrada em Gênesis.

2. Seus nomes também representam povos, nações. 

3. Foram tomados como exemplos na lógica e aplicação de Paulo na situação dos judeus e gentios. Aqui “Esaú” e “Jacó” ganham sentidos próprios. 


Esaú, indivíduo, foi rejeitado por Deus. Mas qual foi essa rejeição? É só ler Gênesis! 

A rejeição implicou em sua perda do direito de primogenitura e da bênção de ter a promessa sobre sua descendência. 

Isso significa que Deus não o amou? Não. 

Deus não o rejeitou, de modo absoluto, enquanto pessoa. Deus o amou e o abençoou. 

Quando Gênesis conta sua história, é assim que escreve: “Os seus bens eram tantos que eles já não podiam morar juntos; a terra onde estavam vivendo não podia sustentá-los, por causa dos seus rebanhos”. Jacó o presenteou, quis sua reconciliação. O tratava como “meu senhor”. E lhe disse: “ver a tua face é como contemplar a face de Deus”. Tais palavras sinalizam benção. 

Paulo quando resgata essa história, não explora toda a história. Mas seu ponto teológico é a liberdade da escolha de Deus, isto é, Sua Graça. 

Por que? Porque é essa sua explicação para a liberdade de Deus para amar os gentios. Não devemos perder isso de vista nem na analogia do Oleiro moldando o barro. Até diante da pergunta: seria Deus injusto? A questão real é que Deus adotou os gentios. 

Então, nessa aplicação, “Jacó” é o amado sem mérito, ou seja, são os gentios. 

Mas ele também aplica, em algum sentido que precisa ser debatido, a ideia da rejeição de Esaú aos judeus que não creram no Messias. Mas Paulo prevê questões que sua comparação traria, se fosse mal compreendida, e as antecede. Paulo, para ser claro, fala sobre qual é a natureza dessa rejeição nos capítulos 10 e 11.

A liberdade de Deus é o ponto amei/rejeitei, e se repete aqui em ambos os lados: nem o gentios merecem, nem o judeus que não creem são Israel apenas por nascimento.

Quanta a essa “situação mais complexa”, nova, única, há nas Escrituras outros tratamentos que desfazem qualquer mal-entendido. Um evangelho fala dessa “rejeição” nesses termos: "veio PARA os SEUS mas eles não O receberam".

Abaixo, deixo pistas das minhas incursões no texto.

***
Romanos 9, 10 e 11

Nesses três capítulos Paulo desenvolve seu argumento. São uma unidade. Não há na Bíblia algo como “o ensino de Romanos 9”, assim, à parte. Sem a continuação do argumento, à parte do capítulo 10 e 11, Romanos 9 é uma distorção. Se Paulo é, de alguma forma, dialético, como muitos estudiosos apontam, é ainda mais fácil distorcê-lo quando não se avalia todo seu argumento.

***
A expressão "Rejeitei e Esaú..." em Romanos 9.13 é paralela a Romanos 11.1 "Deus REJEITOU seu povo? De modo algum! ". Isto é, Romanos 11.1 esclarece Romanos 9.13.
Como assim? Romanos 11.1 torna clara qual não é o significado da rejeição por parte de Deus em 9.13. Isto é: a rejeição em 9.13 é em outro sentido. 

É como se dissesse: “Sabe o que eu disse em 9.13 com “rejeição”? Não entendam, de modo algum, que Deus tenha rejeitado seu povo!”

Paulo deixa claro onde a analogia termina, onde ela não é feliz. Não são perfeitamente sobrepostas. Os exemplos não se encaixam completamente e não é isso o que se quer quando se dá um exemplo. Aqui, a situação que ele tem é outra, mais complexa, única, com suas particularidades. É próprio do exemplo, da comparação, da metáfora – o foco. Quando dizemos: o amor é fogo, não queremos usar todas as experiências que se tem com o fogo, nem toda a função do fogo. Mas algum ou alguns aspectos. Talvez só queiramos dizer que o amor “arde” tal como o fogo. Assim, o óbvio já esclarece: Esaú foi Esaú. Israel que não crê em Cristo é algo radicalmente diferente. 

Os judeus que creram em Jesus ficam aparentemente fora do quadro dessa analogia: pois a analogia não está sendo aplicada ao quadro todo da situação real diante da qual Paulo se encontra.

***
REJEIÇÃO
Em Romanos 9, e em todo raciocínio de Paulo sobre "Amei a Jacó e rejeitei a Esaú, não há, absolutamente, não eleitos, não amados.

Pois “Esaú”, rejeitado, é o Israel que rejeitou o Messias.

Em todo o desenvolvimento - até Romanos 11, o rejeitado é o sujeito da rejeição.
"Por não crer foram cortados". 

"Se não persistirem na incredulidade serão enxertados".

Pista: Para Paulo, “Jacó” são os gentios crentes. E “Esaú” é o Israel que tem olhos, mas não vê. Tem ouvidos mas não ouvem. Ouviram o evangelho mas não o aceitaram.

Paulo torna a questão clara e definida: "Deus REJEITOU o seu povo? De modo algum". 

Deus é generoso com todos.
 
Não há judeus ou gregos assim como não há Jacó e Esaú. Quem o invocar será salvo.

Pista: O amor Salvador de Deus está disponível aos que Ele "rejeita". Rejeitar não pode significar não amar. 

Eles rejeitam: e por isso são rejeitados. Isso é a rejeição da parte de Deus. E, sobre ela, é preciso que se diga: ele não desistirá. Os “rejeitados” serão salvos (em 11. 26). "Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis".

Pista: O rejeitado, rejeita. E o rejeitado será escolhido.

***
Resumo da Rejeição
Todo o desenvolvimento do argumento de Paulo sobre a rejeição deve levar em conta o que ele diz:

1. O desejo de Paulo, e, sugiro, do próprio Deus: “o desejo do meu coração e a minha oração a Deus pelos israelitas é que eles sejam salvos”.

2. [A Escritura diz] “não há diferença entre judeus e gregos; pois é o mesmo Senhor de todos, generoso com todos os que o invocam. Todo aquele que invocar o nome do Senhor se salvará”.

3. “nem todos os israelitas aceitaram as boas novas.”

4. “O tempo todo estendi as mãos” a este povo.

5. "Deus REJEITOU seu povo? De modo algum!" Alguns crêem, eu próprio; os outros, ainda crerão. 

6. “Acaso tropeçaram para que ficassem caídos? De maneira nenhuma!”

7. “...foram cortados devido à incredulidade”.

8. “...se não continuarem na incredulidade, serão enxertados”.

Minha tentativa de resumir o que Paulo está dizendo em Romanos 9, 10 e 11 é: 

"...rejeitei a Esau", isto é, estou sendo rejeitado por Israel. Temporariamente. É triste. Mas calma. Ainda há esperança. Não estamos tão longe. Podemos olhar por outro lado: se alegrem vocês porque a salvação chegou até vocês. E aprendam com o erro de Israel. Não se esqueçam que são “Jacó”, sempre se lembrem que podem se tornar “Esaú”. Quanto a eles, Meu amor não se cansa. Eles entenderão”.

***
"Amei a Jacó"

O "amei a Jacó" de Paulo em Romanos 9 é, tanto na história destes dois indivíduos, quanto na dos povos que eles passaram a representar, quanto na lógica de Paulo da oferta do evangelho aos gentios: a escolha do excluído.

“Amei a Jacó” significa: “escolhi o improvável, o que não merecia”. Minha Graça é minha escolha absolutamente Livre.  

Pista: "Amei a Jacó" significa: Sou livre para amar. Amo sem dar satisfação. Meu amor não presta contas. 

Fui Livre, isto é, gracioso, quando amei a Jacó; sou Livre, quando amo aos gentios lhes abrindo a porta do evangelho. 

Pista: "Amei a Jacó", para Paulo em Romanos 9, significa: "posso amar os gentios".

O sentido pleno da expressão "amei a Jacó" que, como vimos, é a aceitação dos gentios “pois não há judeu ou grego” - sugiro, significa: "Eu amo abrir as portas para todos, pois essa é a natureza do amor: querer se dar".

"Amando" a Jacó eu amei a todos.

"Amei a Jacó" para que ninguém se sinta não amado e não eleito.

***
“Rejeitei a Esaú”

Se "amasse" a Esaú, isto é, sem exercer a minha Graça sobre as determinações, estaria amando "por direito", "por tradição", “por natureza” pois era seu o direito de primogenitura, e, pela tradição, em sua descendência estaria a promessa. 

Assim, amaria APENAS os "nascidos para ser amados". Rejeitar a Esaú é amar, em Jacó, todos os nascidos.


***
A ELEIÇÃO é incondicional, "antes que fizesse bem ou mal", PARA DEUS e APENAS para Ele.

Não se esqueçam: Esaú foi rejeitado!

Na aplicação de Paulo, “Esaú” é o Israel endurecido demais para crer. Esse endurecimento alimentava-se de uma razão de ser eleito. Ele evoca algum direito, alguma “estabilidade” que o exime de decidir, de seguir em frente, de crer. 

Por isso que "...Rejeitei a Esaú...", é o susto do amor de Deus que não quer perder o eleito. Esaú era, por natureza, por direito natural, pela tradição, pela preferência do pai, o “eleito”. E, ainda assim, acima de tudo, eu o “rejeitei”. Isto é: minha liberdade não é determinada por nada. Não há garantias fora do Meu amor, ao tempo que Meu amor é a garantia de tudo. 

O eleito não discute seu futuro: o confia a Deus. Ele está no escuro e não se exime de viver, lutar e escolher.

Os eleitos precisam saber que podem cair - "aquele que está de pé, cuide-se". O eleito não perde de vista essa possibilidade. Se o tiver feito, por pretexto de qualquer doutrina, ele já começou a cair.

O eleito deve andar, entre Jacó e Esaú. Isto é: sobre a linha do amor livre de Deus. Que o amou enquanto Jacó, e que o lembra do exemplo de Esaú para que se mantenha crendo.

***
Paulo toma o dizer "Amei a Jacó e rejeitei a Esaú" mas o desenvolve; e o raciocínio chega a uma conclusão própria. Desenvolvido o raciocínio nos capítulos 9, 10 e 11, lidos em conjunto e em continuidade, o sentido dessa expressão, é:

As distinções são necessárias para vocês. Existem para vocês.

Mas de modo último: não há distinção entre eles.
 
Não há “Jacó” e “Esaú” diante dAquele que ama ambos.

Pista: Deus ama ambos. Ama a “Jacó”, isto é, os gentios que agora crêem. E ama “Esaú”, o Israel que reluta em crer. 

É o que é dito em Romanos 10.12-13: 

“Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam, porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

Pista: Deus rejeita amando. Ama, rejeitando.

***
Toda a argumentação de Paulo em Romanos 9 é sobre o ponto de que Deus fez do povo, o não povo; e do não povo, o povo.

É a defesa da Graça: Deus amando em completa liberdade.

Defesa da Liberdade de Deus diante daqueles que achavam que tinha algum direito sobre ela.

Portanto não é uma defesa de sua liberdade de rejeitar. Sobre isso, todo o tom é triste, de pesar. 

Mas não perca de vista que o que Deus, e Paulo, finalmente querem é que não haja não povo, que o incrédulo creia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário