segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A questão da hermenêutica

A hermenêutica bíblica, isto é, a arte ou ciência de interpretar a Escritura, tem se tornado, nestas últimas décadas, uma das principais preocupações dos estudiosos. Na verdade, todo cristão que lê a Bíblia acaba de confrontando com a questão de como entendê-la corretamente.

O problema surge com as extremas particularidades culturais do texto antigo e do intérprete moderno. Cada um tem um "horizonte" diferente, uma perspectiva ou um ponto de vista limitado, e o que se faz necessário é aquilo que Hans-Georg Gadamer chamou de "fusão de horizontes". "A compreensão ocorre", escreve Dr. Tony Thiselton em seu clássico e abrangente estudo Os Dois Horizontes, "quando dois conjuntos de horizontes são colocados em relação um com o outro, a saber, o horizonte do texto e o do intérprete."

Neste processo, a primeira tarefa do intérprete foi chamada por Gadamer de "distanciamento". Isto é, nós precisamos reconhecer "a identidade do passado", desligar-nos do texto e dar espaço para a sua própria integridade histórica, sem nos intrometermos nele nem decidirmos prematuramente como ele se aplica a nós.

Uma exegese cuidadosa do texto tem que estudá-lo em seus próprios termos linguísticos e culturais. Mas isso é apenas o começo. Se antes nós precisamos manter distância do texto, num segundo momento nós temos que tentar penetrar nele. "E preciso haver um envolvimento presente com o texto", escreve Thiselton, "como também um distanciamento crítico dele". Mas, como o intérprete também pertence a um contexto preciso e específico, embora diferente do do texto, isto não é fácil. É preciso um alto nível de imaginação, de empatia, se se quiser penetrar nesse estranho mundo. "Exegese histórica é essencial, mas não é suficiente. Nós precisamos distanciamento e também abertura para o texto, e os dois irão progredindo até a fusão dos horizontes."


Isto leva a uma ativa interação ou dialética entre texto e intérprete. Por mais que nos esforcemos para nos distanciar do texto, é difícil deixar de trazer para ele nossas pressuposições e nossa própria agenda de problemas e questões. Pode ser que a Escritura proveja algumas respostas para estes. Mas, já que ela tem a sua própria agenda, pode ser que não. Pelo contrário, é provável que ela nos desafie a irmos embora e a reformularmos as nossas questões, ou até a substituí-las por outras melhores. Então nós retornamos com a nossa nova agenda, e assim o diálogo entre nós continua. Isso faz parte daquilo que se chama "o círculo hermenêutico", embora certos estudiosos europeus e latino-americanos prefiram a expressão "espiral hermenêutica", pois o movimento é progressivo e ascendente.

John Stott

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