quinta-feira, 14 de setembro de 2017


Só os eruditos lêem livros antigos, e nós já demos tal jeito neles que, de todos os homens, eles são os menos capazes de adquirir sabedoria ao ler os tais livros. Conseguimos isso ao inculcar neles o Ponto de Vista Histórico. O Ponto de Vista Histórico, grosso modo, significa que sempre que um homem culto deparar com qualquer afirmação de um autor antigo, ele jamais irá se perguntar se a afirmação é verdadeira. Ele se pergunta quem influenciou o autor, o quanto essa afirmação contradiz o que ele disse em outros livros, que fase ela representa na evolução desse autor ou na história geral do pensamento, como ela afetou os autores posteriores, com que freqüência ela é mal compreendida (especialmente pelos próprios colegas do leitor erudito), qual é a crítica geral feita a essa afirmação nos últimos dez anos e qual é a "atual conjuntura do problemà'. Enfim, considerar esse autor antigo como uma possível fonte de sabedoria - antever que o que ele disse poderia talvez modificar os próprios pensamentos e o comportamento do leitor - é rejeitado como um ato puramente ingênuo. E já que não conseguimos enganar toda a raça humana o tempo todo, é de grande importância para nós separar cada geração de todas as outras, pois sempre que o aprendizado permite a livre troca entre as gerações, há o perigo de que os erros característicos de uma sejam corrigidos pelos acertos característicos da outra. Mas, graças ao Nosso Pai e ao Ponto de Vista Histórico, os grandes eruditos se baseiam tão pouco no passado quanto o mecânico mais ignorante, daquele tipo capaz de afirmar que "a história é uma besteirà'. Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO.

C. S. Lewis, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz.

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