quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Teologia e Física Moderna





CUIDADO COM OS BURACOS–NEGROS


A Ciência e a Teologia mantêm um relacionamento delicado desde a época de Galileu e Copérnico. Em alguns aspectos, o cristianismo não conseguiu recuperar–se por completo da revolução cosmológica que retirou a humanidade do centro do Universo e a confinou a uma posição insignificante.

Talvez seja em decorrência desta postura de resistência aos avanços científicos, mas poucos pensadores cristãos da atualidade parecem beneficiar–se com o notável desenvolvimento da física moderna. A sua maneira, Einstein e Bohr empreenderam uma revolução tão espetacular quanto a de Copérnico, embora em direções novas, chocantes para muitos.

Para começar, não apenas a humanidade, mas cada indivíduo, homem ou mulher, recuperou, através da física moderna, sua posição de figura central na história do Universo. Porque, se extrairmos apenas um ensinamento da física moderna, será este: o indivíduo consciente é um componente essencial de, bem... de tudo.

Na física de Newton, os indivíduos não ocupam lugar especial no Universo, exceto como participantes ocasionais no fenômeno estabelecido de causa e efeito. Mas alguns cientistas do século XX defendem que a própria realidade da ocorrência de um evento depende da existência de um observador. 

Como disse Bernard D’Espagnat na revista Scientific American: 

A doutrina que afirma ser o mundo formado por objetos cuja existência independe da consciência humana acaba por entrar em conflito com a mecânica quântica e com os fatos verificados por experiências.

Em outras palavras: ele questiona até mesmo a existência das coisas fora da consciência humana. Apesar das opiniões contrárias, o indivíduo importa muito, e o observador desempenha papel essencial. Os físicos com a alma um pouco mais poética repetem ditados como: "Corte uma folha de grama e você abalará o Universo." O leigo rapidamente perde a confiança no Reino Encantado da relatividade e da física quântica.

Alguém nos ensina que nossa poltrona favorita é formada por grandes espaços vazios preenchidos por alguns átomos que giram a toda velocidade. Ainda assim, nós a vemos como objeto sólido e assentamo–nos nela. Aprendemos que o tempo varia, dependendo da força da gravidade e do movimento, e que um astronauta que parra para o espaço poderá retornar à Terra trinta e seis anos mais novo do que seu irmão gêmeo que aqui permaneceu.Apesar disto, continuamos a olhar para o relógio de pulso, confiando em que ele nos informará a hora certa de entrar no serviço.

Parece melhor deixar de lado este mundo estonteante da física moderna, com suas equações tão longas que vão de uma ponta a outra do quadro–negro e com seus termos amedrontadores como antimatéria, espuma quântica e buraco–negro. Com algumas poucas exceções, na maioria dos casos é melhor depender do bom e velho Newton.

Mas os cristãos não devem voltar as costas à física moderna com tanta facilidade, porque muitos de seus princípios sobre a natureza do tempo e do espaço foram provados por cientistas empreendedores que lançaram raios–laser até à lua, fotografaram estrelas durante eclipses do sol e fizeram com que relógios atômicos viajassem em torno do globo terrestre levados por aviões a jato.

Além disto, as descobertas notáveis que as pessoas comentam com espanto infantil apresentam novos caminhos para a compreensão de algumas doutrinas teológicas mais complicadas. Pensemos em uma destas doutrinas: Deus não está preso ao tempo. Os cristãos vêm repetindo, há muitos e muitos anos que "Aos olhos de Deus mil anos são como um dia", expressando sua convicção de que a visão de Deus sobre tempo é diferente da nossa.

Dizemos que Ele está além do tempo e do espaço. Para nós, a história humana é uma seqüência de quadros fixos, apresentados um após o outro, como em um filme. Mas Deus vê o filme inteiro de uma só vez.

Embora os cristãos repitam esta crença e quase todos os teólogos, desde Agostinho, hajam–se ocupado dela, ninguém consegue entender por completo.Aparece a física moderna. Hoje nos ensinam que o tempo depende do movimento e da posição relativa do observador. Tomemos um exemplo bem primitivo. Olhando para o céu, às 15h 12min, vejo uma estrela brilhante, o sol, que paira no espaço a uma distância de aproximadamente 150 milhões de quilômetros.

Na verdade, a luz que vejo partiu da estrela há 500 segundos, e viajou à velocidade de 300 000km/s, embora eu não me dê conta de estar enxergando o resultado do que aconteceu no astro às 15h 4min (horário da Terra).Se o Sol subitamente desaparecesse em face de um ataque furtivo de um buraco–negro voraz, eu só saberia oito minutos depois, quando o céu ficaria escuro e eu gritaria: O Sol foi embora! – e me prepararia para a extinção da vida na Terra.Imagine agora uma pessoa muito grande, quero dizer, muito grande, cuja abertura entre os pés medisse, digamos, 150 milhões de quilômetros. Esta pessoa põe o pé esquerdo na Terra e o direito, com um sapato de amianto, no sol.

Subitamente, bate o pé direito. Imediatamente, as labaredas solares espalham–se em todas as direções e o sol expele gases. Oito minutos depois eu, aqui na Terra, percebo a mudança dramática do Sol.Mas estou preso na Terra. A pessoa imensa existe parcialmente aqui e parcialmente no Sol, sua consciência abarca os dois lugares.Embora parte de seu ser esteja na Terra, tem pleno conhecimento do movimento do pé direito oito minutos antes de todas as outras pessoas na Terra.Pergunta–se, então, o que é o tempo para esta pessoa imensa. Depende da perspectiva. Faça um esforço mental ainda maior e imagine um Ser tão grande quanto o Universo, que existe ao mesmo tempo na Terra e na estrela Andrômeda, numa galáxia a bilhões de quilômetros de distância. Se uma estrela explode na galáxia, o Ser sabe no mesmo instante, e mesmo assim ainda verá o evento na Terra, milhões de anos depois, como se houvesse acontecido naquele instante. A analogia não é exata, porque tolhe este Ser no espaço, embora o liberte do tempo. Mas pode dar–nos uma idéia quanto à perspectiva limitada do conceito de tempo adotado em nosso planeta, no qual se afirma que "primeiro acontece A e depois B".

Deus, acima tanto do tempo quanto do espaço, pode ver o que acontece na Terra de um modo que só nos cabe tentar imaginar. Esta linha de pensamento joga nova luz sobre debates muito antigos sobre a onisciencia, presciência, livre–arbítrio e determinismo. Um termo como "presciência" só tem sentido quando considerado do nosso ponto de vista limitado à Terra, pois presume que o tempo é uma seqüência de fatos, um após o outro. Do ponto de vista de Deus, que engloba todo o Universo de uma só vez, o significado da palavra é consideravelmente diverso. Falando com precisão, Deus não "prevê" os acontecimentos. Ele simplesmente os vê, em um presente eterno.

A eternidade é apenas uma das muitas doutrinas esclarecidas pela física moderna. Os novos teólogos agiriam bem se estudassem a teoria dos Universos paralelos, usando–a para investigar o problema do mal. A teoria da interconexão de toda matéria e energia seria útil para abordar as palavras bíblicas sobre a união entre os que crêem. A teoria que trata de como a consciência afeta a matéria poderia trazer esclarecimentos sobre o poder da oração.

A maioria de nós precisará de cientistas qualificados que nos orientem na compreensão de todos estes mistérios. Os zen–budistas aproveitaram a oportunidade e publicaram obras sobre como suas crenças se adaptam aos modelos contemporâneos do Universo. Espero que não fiquemos atrasados demais em relação a eles. A fé religiosa, assim como a matéria, enfrenta constantemente o perigo de ser engolida por um buraco–negro.

— Philip Yancey.

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